Os rastreios feitos aos contactos de pessoas que testaram positivo para o SARS-CoV-2 só permitiram ligar 12% dos casos a eventos concretos em Espanha, noticia o jornal El País. Os investigadores ouvidos pelo jornal propõem que se mude a forma de estudar a transmissão do vírus, passando-se a olhar para a fonte do contágio porque 10 a 20% dos casos originam cerca de 80% das transmissões.

Portugal, por sua vez, sabia a 19 de outubro, através de que pessoa 59% dos casos teriam sido infetados — o que não é exatamente o mesmo que saber se estavam ligados a um surto ou não.

Ao dia de hoje [19 de outubro] foi possível em 59% dos casos identificar um contacto com alguém que tivesse sintomas de Covid-19 ou que fosse um caso positivo”, disse Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, citada pelo Diário de Notícias.

Os países têm lutado para ter um R abaixo de 1, o que significa que cada pessoa infetada transmitiria o vírus a outra pessoa (ou menos), permitindo controlar a disseminação do vírus. O problema com esta medida é que é uma estimativa global e só podia ser interpretada à letra se todas as pessoas positivas para o SARS-CoV-2 tivessem a mesma capacidade de transmitir o vírus, o que não é verdade. No caso deste coronavírus existem infetados que conseguem transmitir o vírus a uma dezena de pessoas ou mais.

Conseguir identificar a origem de um surto e perceber em que tipo de ambientes estes surtos podem surgir, ajudou o Japão a controlar melhor a pandemia do que Espanha, pelo menos no que ao número de mortos diz respeito, refere o jornal espanhol. A Coreia do Sul com uma estratégia semelhante à do Japão conhecia a origem de 76% dos casos (66% deles relacionados com surtos) — Espanha, como referido, apenas 12%.

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Um dos pontos-chave do rastreio, especialmente se o objetivo for olhar para trás para a origem, é a rapidez: o rastreio deve ser iniciado até três dias depois da pessoa ter apresentado os primeiros sintomas e feito o teste, segundo a equipa de Mirjam Kretzschmar, professora de dinâmica de doenças infecciosas na Universidade de Utrecht, na Holanda. Uma crítica à estratégia de procurar a origem é que, quando se tem muitos casos novos por dia e uma grande disseminação na comunidade, é mais difícil seguir a infeção até ao ponto de origem (que pode já ter várias semanas).

Conseguir fazer rastreios com rapidez exige uma grande capacidade não só ao nível de testes, mas de recursos humanos, equipas preparadas para fazer este seguimento dos casos. A crítica em Espanha é que nem os contactos das pessoas infetadas estão a ser devidamente identificados — apenas uma média de dois contactos por cada caso positivo —, o que torna ainda mais difícil pensar num rastreio que olhe para trás no tempo. A falta de equipas que seguissem os contactos dos infetados foi uma das justificações para que, em junho, o vírus se propagasse mais rapidamente e sem o controlo necessário na região da Grande Lisboa, por exemplo.

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Mas Portugal, à semelhança de Espanha, também não vai à procura da origem do contágio, pelo menos, segundo a norma da Direção-Geral da Saúde. São considerados contactos todas as pessoas que estiveram próximas de um caso positivo de SARS-CoV-2 ou de material biológico (por exemplo, sangue) contaminado pelo vírus durante o período de transmissibilidade. O período de transmissibilidade é considerado desde 48 horas antes dos sintomas ou do teste positivo até ao dia em que a pessoa tem alta. O que se sabe, no entanto, é que uma pessoa pode demorar cerca de 14 dias a apresentar sintomas da doença (ou até nunca os apresentar) o que faz com que pelo menos duas semanas de contactos fiquem ausentes desta vigilância.

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Em Portugal, como noutros países, identificaram-se situações que podem ser potenciadoras de um grande número de casos, como os convívios de estudantes ou casamentos reportados recentemente. No Japão, os surtos surgiam sobretudo nos locais fechados com muita gente. A boa notícia, termina o jornal El País, é que se poucos eventos são responsáveis por muitos contágios é possível ser seletivo em relação aos locais onde se vão aplicar as medidas mais restritivas. O que é preciso é que cada país consiga identificar onde surgem estes supertransmissores.