“Obviamente que quando o Cristiano estava no Real Madrid as partidas eram mais especiais. Os jogos contra o Real significam sempre muito, mas com o Cristiano tornavam-se mais especiais. Será um duelo especial que se manterá assim para sempre, porque durou muito anos e não era fácil manter aquele nível por tanto tempo. Para lá disso, também os clubes em que jogávamos eram desafiadores, tanto o Real como o Barça são os melhores do mundo”.

Em janeiro, cerca de ano e meio depois de Cristiano Ronaldo trocar o Real Madrid pela Juventus, Leo Messi admitiu ter saudades do jogador português. Talvez por isso, e pela rivalidade saudável e competitiva que os dois partilham há 15 anos, o resultado do sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões desta temporada tenha sido tão mediático. Finalmente, mais de dois anos depois, Ronaldo e Messi iam encontrar-se outra vez — não em Espanha, não num Clássico, mas num jogo entre duas das melhores equipas da Europa. Até que o mais inesperado aconteceu.

Durante a concentração com a Seleção Nacional, na véspera do jogo com a Suécia, Cristiano Ronaldo testou positivo para a Covid-19. Voou para Itália no dia seguinte, começou desde logo o isolamento e a matemática da quarentena ditava que os 10 dias obrigatórios, à partida, permitiam que estivesse disponível para a receção ao Barcelona. Mas um teste novamente positivo, esta terça-feira, garantiu que o jogador português não faria parte da convocatória de Andrea Pirlo — apesar de estar em casa há duas semanas, de não ter contacto com ninguém há duas semanas e de nunca ter tido sintomas.

Assim, a Juventus recebia o Barcelona desprovida de Ronaldo — mas não sem o apoio do jogador português. No Instagram, depois de uma primeira mensagem onde garantiu sentir-se “bem e saudável” e desejou “força” à equipa, o avançado partilhou um vídeo onde surge com a camisola dos italianos e salta da passadeira para fazer o festejo habitual. Em Turim, a Juventus tentava fugir a uma fase sofrível que tem afetado principalmente a prestação da equipa na Serie A: os bianconeri levam três empates em quatro jogos para o Campeonato (Roma, Crotone e Verona), ainda que pelo meio tenham derrotado o Dínamo Kiev na primeira jornada da Champions, na semana passada. Do outro lado, porém, o panorama não era melhor.

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Com três jogos seguidos sem ganhar para a liga espanhola, incluindo uma derrota no Clássico com o Real Madrid, o Barcelona atravessa um período de instabilidade institucional e ficou sem presidente esta terça-feira. Josep Maria Bartomeu demitiu-se para não ser submetido a uma moção de censura que reuniu mais de 20 mil assinaturas e o clube está agora a ser liderado por uma Comissão de Gestão. Era assim, a meio de uma crise desportiva e institucional, que os catalães visitavam a Juventus esta quarta-feira.

Nos italianos, Pirlo apostava na dupla Dybala e Morata no ataque e colocava Chiesa e Kulusevski no apoio pelas laterais, com Bentancur e Rabiot no meio-campo. Demiral, central formado no Sporting, aparecia no eixo da defesa ao lado de Bonucci. Do outro lado, Griezmann regressava ao onze, depois de ter perdido a titularidade nos últimos dois jogos, e o jovem Pedri também estava nas opções iniciais de Ronald Koeman. Ansu Fati e Trincão começavam no banco de suplentes.

Os primeiros minutos de jogo mostraram desde logo que este seria um Barcelona diferente daquele que se tem visto desde o início da época. Com bola, com uma pressão alta e com capacidade para manter o adversário longe do último terço, a equipa de Koeman jogou mais e melhor nos primeiros dez minutos da visita a Turim do que, provavelmente, jogou em todos os encontros anteriores. As primeiras oportunidades apareceram logo nos instantes iniciais, com Messi a aproveitar um erro de Demiral para rematar contra Bonucci (2′) e Griezmann a acertar no poste na recarga a um pontapé anterior de Pjanic (3′).

Adivinhava-se o golo catalão em Turim e o Barcelona não deixou que os adeptos esperassem demasiado. Ainda antes de estar cumprido o primeiro quarto de hora, Dembélé fluiu a direita para o corredor central, simulou um remate com o pé esquerdo e atirou depois com o direito: a bola desviou em Chiesa e traiu Szczęsny, que nada podia fazer (14′). Logo depois, Morata marcou na baliza contrária (15′) mas o golo acabou anulado por mão na bola do espanhol (que também estava fora de jogo na altura do passe de Cuadrado). Até ao intervalo, Messi teve uma boa oportunidade para aumentar a vantagem mas atirou ao lado (23′), assim como Griezmann desperdiçou uma ocasião flagrante para marcar (35′). Morata voltou a ver um golo anulado, desta feita por fora de jogo (30′), e a primeira parte terminou com a ideia de que o Barcelona estava em total posse do controlo da partida, onde a Juventus se apresentava algo apática e sem capacidade para contrariar o resultado. Griezmann, porém, continuava a ser o elemento ‘menos’ da equipa, entre falta de sorte, falta de vontade e falta de entrosamento com os colegas.

Na segunda parte, a lógica manteve-se. Koeman trocou Ronald Araújo por Busquets ao intervalo e o Barcelona estava totalmente instalado no meio-campo dos italianos e parecia confortável com a ideia de estar a ganhar pela margem mínima e de ter largura para ir à procura do segundo golo. E a sorte de Morata, pelo meio e de forma mais do que atípica, também se mantinha: o avançado espanhol voltou a marcar, perguntou ao árbitro se desta vez contava e voltou a ter, segundos depois, a mesma resposta que já tinha recebido duas vezes na primeira parte. O VAR anulou o terceiro golo de Morata, novamente por fora de jogo, e o jogador chegava a um raríssimo hat-trick de golos anulados.

Já depois da hora de jogo, o Barcelona mantinha-se por cima da partida, Koeman lançou Ansu Fati e Pirlo respondeu com as entradas de Weston McKennie, Bernardeschi e Arthur (que reencontrou o Barcelona depois de ter saído no verão). Demiral viu o segundo cartão amarelo e foi expulso e Messi, que tanto procurou o golo de bola corrida e acabou por não conseguir, acabou por inscrever o nome na ficha de jogo através de uma grande penalidade cometida por Bernardeschi sobre Ansu Fati (90+1′).

O Barcelona foi a Turim ganhar de forma tranquila e sem grandes dúvidas e encontrou uma Juventus orfã de Ronaldo (em quatro jogos sem o português, só ganhou um) e a agravar uma crise que dificilmente, apesar de tudo, terá consequências práticas em relação a Pirlo no futuro — o treinador é uma figura respeitada do clube e terá, quase de certeza, mais tempo do que é normal até ser colocado em causa. Certo é que a equipa italiana perdeu em casa com aquele que é o grande adversário neste grupo da Liga dos Campeões; enquanto que os espanhóis, cujo plantel esteve recorrentemente contra Josep Maria Bartomeu num passado recente, parece ter sentido o clima de mudança na Catalunha e fez o melhor jogo desde o início da temporada.