Foi o homem da semana, dentro e fora dos relvados. Na terça-feira passada, Marcus Rashford marcou o golo da vitória do Manchester United em Paris, contra o PSG, repetindo exatamente o que tinha feito no Parque dos Príncipes na edição anterior da Liga dos Campeões. No dia seguinte, colocou mãos à obra: e iniciou um novo capítulo de uma história que começou a escrever durante o verão.

Para contar isso, é preciso puxar o filme atrás. À beira das férias de verão, o avançado do Manchester United escreveu uma carta ao Parlamento britânico, onde pedia que fosse revertida a decisão de encerrar as escolas durante a pausa letiva para que as crianças mais desfavorecidas pudessem continuar a realizar as refeições gratuitamente. Apoiado por uma instituição e empurrado por uma vaga de fundo de mediatismo e popularidade, Rashford acabou por conseguir que o governo de Boris Johnson voltasse trás e decidisse mesmo manter as escolas abertas. Passaram alguns meses, o jogador tornou-se o mais novo de sempre a receber um doutoramento honoris causa pela Universidade de Manchester e foi ainda condecorado pela Rainha Isabel II — mas o problema voltou.

“Isto não é sobre política, é sobre humanidade”. Rashford quer acabar com a fome das crianças em Inglaterra e escreveu ao Parlamento

Com um novo ano letivo, novas pausas letivas: incluindo a do Natal. Através de uma petição apresentada no dia 15 de outubro, com o título “End child food poverty — no child should be going hungry” — algo como fim à fome das crianças — nenhuma criança deveria ter fome –, Rashford voltou a pedir ao Parlamento britânico que não encerrasse as escolas quando as aulas forem interrompidas, precisamente pelo mesmo propósito. Desta vez, porém, os pedidos do jovem inglês foram recusados. E Rashford decidiu tomar medidas alternativas. Fundou uma campanha, a “AllKidsMatter”, que une restaurantes, cafés e estabelecimentos em toda a Inglaterra que estejam disponíveis para doar alimentos e refeições para famílias mais desfavorecidas. O Twitter do jogador tornou-se uma autêntica base de dados de localizações de entrega e recolha de alimentos e o próprio Rashford tem ajudado nas deslocações — como, lá está, no dia a seguir ao jogo com o PSG.

A proatividade do avançado inglês, que opta por reagir às decisões governamentais não com críticas mas com respostas construtivas, já lhe valeu mais uma distinção, com a cidade de Manchester a atribuir-lhe o City of Manchester Award, e a petição lançada no início do mês já conta com mais de um milhão de assinaturas. Os últimos dias foram de elogios contínuos a Rashford, incluindo de jogadores ou treinadores adversários. Gary Lineker, histórico da seleção inglesa, disse que o avançado de 22 anos é um “exemplo maravilhoso”; Mesut Özil, do Arsenal, juntou-se à campanha com uma doação de 1.400 refeições; e Jürgen Klopp garantiu estar “orgulhoso” do jogador.

“Ele joga no Manchester United, o que torna isto complicado, mas nestes momentos estamos sempre unidos como jogadores e seres humanos. O que o Marcus começou é absolutamente incrível. É tão bom. Espero que a mãe esteja muito orgulhosa dele. Eu nem o conheço e estou muito orgulhoso dele. O futebol pode ser realmente maravilhoso em alguns momentos e quando o assunto é sério toda a gente põe a rivalidade de lado e pensa nas coisas mais importantes da vida”, disse o treinador do Liverpool.

Esta quarta-feira, porém, Rashford era um dos jogadores poupados por Solskjaer na receção ao RB Leipzig em Old Trafford, na segunda jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões. Com a agenda apertada, depois de um empate sem golos com o Chelsea no fim de semana e antes de um encontro com o Arsenal no próximo domingo, o treinador norueguês deixava Rashford, Bruno Fernandes e McTominay no banco de suplentes. No onze, apareciam Fred, Van de Beek e Mason Greenwood, para além dos habituais Matic, Pogba, Fred e Martial.

O Manchester United teve a primeira oportunidade do jogo, com Fred a obrigar Gulácsi a uma boa defesa depois de um primeiro cabeceamento de Maguire (6′), mas as equipas passaram grande parte dos 45 minutos iniciais bastante encaixadas. O momento que fez a diferença apareceu pouco depois dos 20 minutos: Pogba arrancou desde o meio-campo e desmarcou Mason Greenwood na perfeição, com o jovem avançado a surgir na esquerda da grande área e a rematar cruzado para abrir o marcador (23′). O RB Leipzig reagiu à desvantagem mas sempre com pouca capacidade para assustar De Gea, até porque os red devils pareciam estar numa noite inspirada defensivamente e mantinham bem organizada a barreira mais recuada — com especial destaque para Wan-Bissaka, que ia realizando uma exibição acima da média.

Na segunda parte, Solskjaer lançou Rashford, McTominay e Bruno Fernandes pouco depois de estar ultrapassada a hora de jogo e o trio foi mais do que a tempo de fazer estragos. Cerca de 10 minutos depois de entrar, o avançado inglês aumentou a vantagem do Manchester United ao bater Gulácsi na cara do guarda-redes depois de um passe vertical de Bruno Fernandes (74′). Quatro minutos depois, bisou: Fred pressionou alto, recuperou a bola numa fase muito adiantada do terreno e deixou Rashford à vontade para voltar a marcar (78′).

Martial ainda se intrometeu nas contas do jogo, ao converter uma grande penalidade que ele próprio sofreu (87′), mas a noite, mais uma vez, já tinha dono. Já nos descontos, com um remate forte, Rashford fechou o hat-trick (90+2′), confirmou a goleada impiediosa do Manchester United contra um RB Leipzig que esteve nas meias-finais da edição passada da Liga dos Campeões e mostrou, mais uma vez, que está numa fase em que só sabe marcar golos. Em campo, na vida e nas vitórias do clube inglês.