– Adrianna, a comida já está à porta.

Bruna Rodrigues grava uma mensagem de áudio no WhatsApp enquanto se vai afastando da porta de casa de Ada Szynczewska. O saco com as compras está pendurado na maçaneta e veio a pedido da estudante polaca, em isolamento há duas semanas por ter testado positivo à Covid-19. Com a família longe e grande parte dos amigos também infetados, Ada não tinha quem lhe conseguisse trazer refeições, compras e outros bens essenciais durante este período. Foi a pensar nestes casos que a Universidade do Porto criou uma rede de voluntários para ajudar, durante este ano letivo, os membros da comunidade académica que estão em isolamento domiciliário e que precisem de apoio para satisfazer necessidades básicas. Bruna Rodrigues faz parte dos 130 voluntários que em duas semanas se ofereceram para ajudar.

“Tudo é feito em articulação com as necessidades da Ada. Ela disse-me que queria ter alguém que lhe pudesse ir buscar comida, medicamentos ou contactar um médico. Normalmente levo comida, refeições quentes: ela envia-me a lista de compras, eu acabo por ir fazer as compras normais, como se fosse para mim, deixo-as à porta, mando uma mensagem e ela vem buscar os sacos”, explica ao Observador Bruna Rodrigues, que está a terminar o mestrado em Economia na Universidade do Porto. O projeto apareceu “entre os mil emails diários da faculdade” e, conta, a decisão foi tomada “sem pensar duas vezes”, por já ter tido uma experiência em que teve de ajudar outra pessoa que também esteve em isolamento com Covid-19.

O projeto “Apoio Domiciliário – Covid-19” tem como foco o apoio a membros da comunidade académica que vivam sozinhos em habitações, residências universitárias ou outro tipo de alojamento, e a quem tenha sido imposto o isolamento domiciliário por Covid-19, quer por infeção por SARS-CoV-2 quer a título profilático. A universidade garante todo o apoio a voluntários e pessoas em isolamento ao longo do processo, incluindo o fornecimento de Equipamento de Proteção Individual.

Covid-19. Universidade do Porto cria rede de voluntários para apoiar casos de isolamento

José Castro Lopes, pró-reitor da Universidade do Porto, responsável por este projeto e coordenador da task force que a universidade criou para responder à pandemia, explica ao Observador que esta rede de voluntários surgiu quando começaram a ser registados os primeiros casos de infeção entre a comunidade académica. “Esta universidade tem à volta de 4.000 estudantes internacionais, dos quais cerca de 500 são estudantes de Erasmus, e também um grande número de estudantes nacionais deslocados. Percebemos que, provavelmente, haveria uma parte desses estudantes que não teria apoio necessário caso ficassem isolados no sítio onde estão alojados”, refere.

Nas “primeiras horas de anúncio do programa”, acrescenta José Castro Lopes, apareceram 130 voluntários, desde estudantes a funcionários e docentes. Atualmente, sete pessoas recorreram a este programa, um número mais baixo que se justifica pelo facto de “já existirem vários mecanismos de apoio” entre a comunidade, desde os colegas dos estudantes aos próprios funcionários das residências que, por exemplo, já prestam apoio a quem está em isolamento. Também o próprio Exército português, acrescenta o pró-reitor, tem ajudado ao fornecer refeições aos estudantes que estão em isolamento profilático da MESSE Militar da Antas.

Ada Szynczewska, que recebe ajuda de Bruna, decidiu participar no programa precisamente por não ter uma rede de suporte que a conseguisse ajudar. “Como sou de Erasmus não tenho família cá. Tenho amigos, mas não queria que eles fizessem estas tarefas por mim porque grande parte deles está também infetado com Covid-19 e não faria sentido”, explica ao Observador. É em Bruna que encontra ajuda “não só com as compras mas com qualquer coisa que precise”.

Bruna Rodrigues, por sua vez, envia “todos os dias” uma mensagem a Ada para saber se precisa de alguma coisa. “Isto não vai ser a vida inteira, é só nestes dias. Se ela precisar, eu estou sempre disponível, desde que consiga conjugar o meu horário”, acrescenta. O serviço, garante, vai muito além de um mero trabalho como voluntária: “Quando lhe telefonei pela primeira vez pedi-lhe para fazer uma video-chamada para nos conhecermos e foi giro. Ela esteve a contar-me de onde vinha, o que é que estava a estudar, como é que ficou infetada, eu também acabei por lhe contar o que estava a estudar. Mais do que fazer um serviço quase de Uber Eats é ganhar uma amiga, porque eu estou a cuidar dela, ela está a precisar da minha ajuda e falamos todos os dias. É giro porque estabelecemos uma relação muito mais do que mero voluntário”.

UP registou 350 casos positivos, a maioria “em contexto familiar e social”

Desde o início do ano letivo, a Universidade do Porto registou cerca de 350 casos positivos de Covid-19 entre a comunidade, revelou José Castro Lopes ao Observador. É um aumento de cerca de 100 casos desde há duas semanas, quando a task force da UP confirmou o registo de 241 casos de infeção (231 estudantes e dez docentes).

“A situação tem evoluído tal como no resto do país, em particular na região Norte e mais em particular aqui no Porto, onde tem havido um grande aumento de casos. Temos um aumento do número de casos, mas também já vamos tendo um número significativo de casos de estudantes e docentes que recuperaram. Claro que esta notificação da recuperação é mais lenta”, refere o pró-reitor, reforçando a “permanente articulação com as autoridades de saúde para avaliar todos os casos que surgem na comunidade académica”.

Sobre a origem destes casos positivos entre a comunidade, José Castro Lopes assegura que “até agora ainda não foi detetado nenhum surto nas instalações da Universidade do Porto”. “Os casos são registados habitualmente fora, em contexto familiar e social. Temos casos de estudantes que se infetaram uns aos outros, não nas salas de aula mas sim em outros convívios fora das salas de aula”, acrescenta o coordenador da task force, que recebe informação diretamente das 14 faculdades da Universidade do Porto, com quase 40 mil membros (alunos, docentes e funcionários) no total.