“O presidente quer vir por um mês”.

Para Richard Bailey, antigo amigo de Marlon Brando, presidente e CEO da Pacific Beachcomber, responsável pela gestão do património do ator e proprietário do resort The Brando, a chamada dos Serviços Secretos norte-americanos não passava de uma piada.

“E então puseram Obama em linha”

Foi aí que lhe caiu a ficha, tal como ao diretor de operações Philippe Brovelli. Barack preparava-se para a despedida de Pennsylvania Avenue e para ceder o seu lugar a Donald Trump. Em março de 2017, o The Washington Post avançava que o famoso havaiano zarpara para Tetiaroa, um paraíso azul e verde perdido no Pacífico, feito por medida para um antigo presidente dos EUA, acabado de sair da Casa Branca, que queria começar a escrever as suas memórias — e total garantia de privacidade. “Se o Leo [DiCaprio] recomenda um sítio, eu ouço-o. E se o Leo conseguiu vir aqui várias vezes com diferentes raparigas e nem uma foto viu a luz do dia, então é para aqui que eu vou”, recordou a Town&Country, que visitou o exclusivo refúgio. O preferido das “elites liberais”, como lhe chama a Vice.

E como nenhum homem é uma ilha, muito menos os que chegam bem acompanhados, nada como um resort de luxo para tornar a estadia mais confortável — ainda que Obama não se tenha livrado de ser reconhecido (terá esbarrado no ginásio com as não menos conhecidas Margot Robbie e Elle DeGeneres).

Marlon Brando numa das muitas chegadas à olha, com a sua secretária, Alice Marshak. O ator estava a rodar “A Revolta na Bounty” © Instagram The Brando Resort

O Brando resort abriu portas em 2014, uma década depois da morte de Marlon Brando, e é provavelmente um dos tetos mais exclusivos do mundo, bem como adeptos da tecnologia ao serviço da inovação. O nome deste destino na Polinésia Francesa deixa tanto à imaginação como um figurino kardashiano. Foi nos anos 60 que o ator Marlon Brando se perdeu de amores pelo atol de Tetiaroa depois de rodar “Revolta na Bounty”. De tal forma que este nativo do Nebraska criado no Middle West haveria de escolher para viver este pedaço de terra perdido na imensidão do oceano Pacífico.

Em 1967, com a mulher, a taitiana Tarita, completaria a compra da ilha, na qual passou boa parte do tempo nos 25 anos seguintes, ora sozinho ora rodeado de amigos. Consta que a terá comprado por uma bagatela a um dos herdeiros de Johnston Walter Williams, cidadão canadiano e único dentista do Tahiti, que teria comprado este reduto em 1904 à família real do Tahiti, a quem o atol apenas servira ao longo de séculos. O primeiro europeu a pisar este solo terá sido o capitão Bligh, (o que nos leva a 1789 e aos acontecimentos que inspiraram o épico da MGM) — anos antes já por aqui passara James Cook e o seu Endeavour.

Adicione-se ainda o rumor de um tesouro enterrado algures na ilha, para uma nota extra de ação.

“This is 40!”, partilhou a celebridade nas suas redes © Instagram Kim Kardashian

Falámos em kardashiano? Chegados a outubro de 2020, foi a vez de um clã em peso ocupar Tetiaroa. O pedaço de terra voltava a ter lugar no mapa graças a Kim Kardashian, cuja “festa humilde” dificilmente passaria despercebida — de resto, a aniversariante não se coibiu de polvilhar as suas redes sociais com as imagens do encontro. Alheia a eventuais polémica (mais uma), e farta de estar isolada, a mulher de Kanye West decidiu celebrar a chegada aos 40…com mais uma dose de isolamento. Desta vez, rodeada de 50 pessoas que lhe são próximas e numa ilha privada com mais anos de história que a própria, que conta com o selo de aprovação da plataforma Goop, da guru do lifestyle Gwyneth Paltrow.

Um destino verde, premiado…e livre de incómodos mosquitos

Com uma forte vertente eco, a mesma que terá de igual modo convencido Obama ou Beyoncé, o conjunto de vilas acaba de ver o seu Varua Te Ora Polynesian Spa premiado na edição 2020 dos World Spa Awards. Mais relevante é a certificação LEED Platinum graças à sua neutralidade carbónica. E há mais: foi estabelecida a Tetiaroa Society, uma organização sem fins lucrativos da qual fazem parte iminentes cientistas comprometidos com a conservação e recuperação do atol, tendo em vista um modelo de sustentabilidade.

Acontece que para alcançar esta pérola situada a cerca de 48 quilómetros do Tahiti, é preciso voar na Air Tetiaroa, a aeronave com apenas 14 lugares que descola de um pequeno terminal no aeroporto de Papeete. A viagem dura 20 minutos e é coroada à chegada com um cenário que combina milhares de painéis solares com luxuriantes palmeiras e flores. Aliás, desde setembro de 2017 que as vilas satélite que funcionam em Bora Bora servem de ponto de passagem para muitas das celebridades (para mais um inevitável aumento da sua pegada carbónica)

9 fotos

Cada uma das 12 pequenas ilhas que compõem o atol oferece o mesmo postal idílico: vegetação quanto baste, o azul turquesa do mar, e areia branca a perder de vista. Convém lembrar que qualquer éden tem um preço: este começa (na época baixa) nos 2.900 euros mais taxas por noite, para duas pessoas que partilham uma vila (são 35 no total) com um quarto (mínimo duas noites). O The Telegraph fez as contas há uns anos e trouxe uma fatura que ultrapassou as 3 mil libras — o mínimo que se espera, pensará o leitor, é evitar picadas de mosquitos. Não tem que se preocupar: um programa de esterilização  reduziu a população deste tipo de insetos em pelo menos 95%. Em 2019 chegava a notícia de como o projeto liderado Hervé Bossin, do Instituto Louis Malardé, da Polinésia Francesa, reproduzia e libertava mosquitos machos não picadores no meio ambiente, infetados com o chamado vírus Wolbachia, vírus esse que torna as fêmeas selvagens, as que picam, estéreis. Os hóspedes menos pacientes agradeciam as diligências.

De DiCaprio a Pippa Middleton. É aqui que eles aterram para… fazer nada

Em maio de 2017, menos de 24 horas depois do seu casamento com James Matthews, Pippa Middleton, a irmã da duquesa de Cambridge rumava aos EUA e era fotografada com o marido no aeroporto de Los Angeles. Destino final? O The Brando, claro, uma opção imbatível para uma lua-de-mel. Mas não é preciso grande argumento ou desculpa para fazer as malas, muito menos pensar numa lista de tarefas imperdíveis para cumprir no atol. Em 1978, Marlon Brando confessava em entrevista que a sua principal ocupação era “ficar sentado como uma baleia”. Depois de “umas semanas na ilha”, fazer rigorosamente nada era a missão mais consensual para qualquer forasteiro, rapidamente entorpecido pelo ritmo de vida polinésio.

Tetiaroa Island

Uma imagem saída dos anos 80 na ilha, quando o cenário ainda era o dos bungalows e o luxuoso resort uma miragem © Getty Images

Claro que a ausência de movimento não é sinónimo de carência de opções. No resort não falta, por exemplo, um restaurante a cargo do chef parisiense com estrela Michelin Guy Martin, o Les Mutinés; nem piscinas, desportos aquáticos, lojas, ou um bar com o nome de um amigo de Brando na ilha, o Bob’s. Um conjunto de atrações bem mais robusto que a oferta original. Corria a década de 70 do século passado quando Brando contratou um arquiteto americano para construir uma casa em Tetiaroa que preservasse o meio ambiente. Em 1983, no entanto, um furacão devastou a ilha e deitou por terra boa parte das construções então existentes. Foi apenas na década seguinte, às voltas com problemas financeiros e necessidade de regressar ao ecrã que o ator começou a idealizar o projeto do resort, algo que nunca chegou a ver finalizado. A relação com o atol, essa, é para a eternidade. Quando morreu, as suas cinzas foram atiradas aqui.