Em dezembro de 1989, Lisboa foi uma das cidades onde decorreu a rodagem de “A Casa da Rússia”, de Fred Schepisi, baseado no livro de John Le Carré e com Sean Connery, Michelle Pfeiffer, Roy Scheider e Klaus Maria Brandauer nos principais papéis. Então no desaparecido “Semanário”, consegui acesso exclusivo, com um fotógrafo, ao “set” do filme, localizado no edifício da Baixa onde funcionavam os escritórios de uma grande marca de automóveis, durante a manhã e parte da tarde de um frio e muito chuvoso dia de Inverno. Podíamos assistir às filmagens, falar com o produtor e conversar informalmente com os atores que se mostrassem disponíveis, embora estivessem interditas entrevistas individuais.

Morreu Sean Connery, ator de James Bond e “o homem mais sensual do mundo”

Além de Connery e Pfeiffer, entre os membros do elenco de “A Casa da Rússia” que se tinham deslocado a Lisboa, estavam nomes como James Fox, o excêntrico realizador Ken Russell ou Martin Clunes, todos interpretando espiões ingleses que faziam parte da Casa de Lisboa, a delegação do MI6 na capital portuguesa. Troquei impressões com todos eles entre uma cena e outra, e qual não foi o meu espanto quando um assistente me diz que se quisesse, podia falar brevemente com Sean Connery, embora sem ligar o gravador nem tirar notas, dado que ele não iria dar qualquer entrevista formal. E fotógrafo, nem pensar.

[Veja o “trailer” de “A Casa da Rússia”:]

Dirigiram-me para uma sala vazia com grandes janelas que davam para rua e, pouco depois, entrou Sean Connery, despenteado e com uma barbicha, já metido na sua personagem, Barley Blair, um editor inglês que fica na posse de cadernos contendo segredos militares soviéticos. Connery era muito alto e com um físico de meter respeito (quando jovem, havia feito musculação e ficado em terceiro lugar no concurso de Mr. Universo), e a sua voz inconfundível só acrescentava ao conjunto. “Está um dia péssimo, não está? Hoje não vou conseguir jogar golfe. Espero que amanhã o tempo esteja melhor, porque vocês têm cá uns campos ótimos” (era fanático de golfe), disparou, depois dos cumprimentos.

Sendo a “Casa da Rússia” um filme de espionagem onde Connery faz um civil que se vê recrutado, com relutância, para uma missão dos Serviços Secretos Ingleses, a conversa dirigiu-se, rápida e inevitavelmente para James Bond, o antípoda da personagem do ator no filme. Tinha medo que ele estivesse farto de falar sobre 007 e me mandasse passear, mas não houve problema. “Devo muito a James Bond, é inegável. Mas não podia ficar preso a ele, tinha que me libertar, mesmo porque a série estava a ficar dominada pelos ‘gadgets’ e pelos efeitos especiais e eu queria seguir em frente”, disse, acrescentando: “É claro que ele me vai acompanhar até ao fim. Mas às vezes apetece-me matar o sacana do 007” [“That bashtard double o sheven”]

[Veja Sean Connery como James Bond:]

Atrevi-me a perguntar-lhe porque é que tinha feito, em 1983, durante a vigência de Roger Moore na personagem de 007, o filme “não-oficial” de James Bond “Nunca Mais Digas Nunca”, realizado por Irvin Kershner. A resposta foi pronta: “Tive várias boas razões. Deram-me liberdade para intervir na produção e ter uma palavra na escolha do elenco, o argumento era bom, tinha muita ação e sentido de humor. E o ordenado era ótimo, com uma percentagem sobre os lucros. Além disso, sentia-me suficientemente bem aos 52 anos para interpretar Bond uma última vez.”

[Veja o “trailer” de “Nunca Mais Digas Nunca”:]

O assistente apareceu então a chamar Connery, o “set” estava pronto e estavam à espera dele para filmar. Os meus poucos minutos tinham terminado. Chovia então torrencialmente. Despedimo-nos e Sean Connery parou por alguns momentos a olhar para a carga de água que caía lá fora, e disse, meio para mim, meio para os seus botões: “The rain in Shpain shtays mainly in the plain. But thish is Portugal, of courshe.” E saiu da sala, sereno e imponente, para interpretar um homem que era o oposto de James Bond.