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Uma das minhas atividades preferidas, que pratico um par de vezes ao ano e recomendo aos visitantes deste humilde HTML, é dirigir-me ao Youtube e proceder ao visionamento de “Story of Common People”, um documentário da BBC3 sob a feitura da canção que dá nome ao documentário e criada por uma banda de Sheffield (Inglaterra, ex-União Europeia) chamada Pulp.

Exatos nove minutos e 45 segundos após o início da película dá-se um momento extraordinário, quando assistimos àquilo a que os anglo-saxónicos chamam reenactment, uma versão ficcional de um ato real – no caso, o Jarvis Cocker de “agora” (isto é: o Jarvis Cocker do momento em que o documentário foi feito), no quarto em que morava quando escreveu a canção, com um sintetizador ao colo (o sintetizador que tinha ao colo quando escreveu a canção), a tocar a canção tal como a tocou da primeira vez que, sentado naquele quarto, com aquele sintetizador ao colo, tocou pela primeira vez a canção.

Aqueles escassos segundos de reenactment são um prodígio – porque o som que sai daquele sintetizadorzinho manhoso, do tipo loja dos 300, o tatatara tatatatatara que constitui a melodia de base de “Common People” é tão ridículo, tão prosaico, tão não-single-de-sucesso que se fica de boca aberta: como é que daquele pequeno estrume nasceu tamanha colheita?

[“Common People”:]

“Common People”, o single (e não aquele tititi de sintetizador manhoso) foi uma das mais extraordinárias canções de final de século XX, o fulcro de Different Class, a obra-prima dos Pulp, lançada faz agora 25 anos (aconteceu a 30 de outubro de 1995) – e há argumentos para defender que Different Class foi o melhor disco daquela era a que chamaram britpop. Resumir a importância do disco, tudo aquilo que musical e tematicamente ele encerra, é uma tarefa hercúlea, apenas ao alcance dos melhores – razão pela qual cá estou eu (já que todos os outros tinham mais que fazer).

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Esta história foi contada tantas vezes que já a deviam saber de cor, mas vou tentar compactá-la como quem encerra um filme de Scorsese numa bela pasta zip. Ali por inícios da década de 90, depois da explosão do grunge, os Blur, fartos da invasão de bandas americanas, resolveram compor um disco que olhava para a Inglaterra da mesma forma que os Kinks o haviam feito na década de 60. Esse disco era Modern Life is Rubbish e logo de seguida veio Parklife.

Como outras bandas insuflaram alguma brittishness na sua música (Suede, Oasis, Pulp), a imprensa inventou o termo britpop e, não contente com isso, tornou a britpop num conceito: pop que simbolizava o que havia de britânico, e que fazia dos valores britânicos (bebedeiras às 17 horas, férias em Ibiza, excesso de peso, má educação) bandeira.

[“Disco 2000”:]

Toda a conversa da britpop é um disparate – os Blur andavam apenas à procura de uma identidade, que acabou por se exprimir na forma de observação das gentes comuns e recuperação de géneros como o vaudeville ou o disco, que eram enxertados no contexto de um banda rock. Já os Oasis eram apenas uma imitação dos Beatles pré-sofisticação e os Suede uma fraca imitação dos T-Rex. Nada disto importava: era preciso vender jornais, fazer a indústria funcionar. Bandas nasceram como cogumelos e pereceram ao primeiro inverno como percevejos.

Por entre todo este espírito febril de exaltação da britishness lad (de novo: alcoolismo, má comida, má educação, má roupa), emergiu uma banda que já tinha muitos anos e era o oposto da britpop: os Pulp. Inicialmente uma banda experimental, orgulhosamente incapaz de compreender como manusear um instrumento que fosse, lenta e gradualmente os Pulp começaram a conseguir fazer canções. Quando chegaram a His ‘n’ Hers (lançado em 1994, 11 anos depois de It, o disco de estreia) eram, aliás, muito bons a criar cantigas.

Não eram cantigas comuns; nem sequer tinham muito a ver com o lado mais “lad” da britpop, encabeçado pelos Oasis – os Oasis eram a recusa da sofisticação, a recusa do groove, a banda mais branca alguma vez criada, eram a vitória da má educação e do analfabetismo. Em suma: os Oasis eram bullys broncos; os Pulp eram geeks hipsters a quem os bullys partiam os óculos.

Não é uma imagem: Jarvis Cocker foi várias vezes agredido em Sheffield à conta da sua escolha de indumentária. Num país bem mais reacionário do que se imaginava, um homem magrinho, literato e de esquerda, que usava fatos sem camisa e óculos fundo de garrafa, obcecado com raparigas e música experimental, era o alvo óbvio de todos os frustrados brutos deste mundo.

[“Sorted for E’s and wizz” ao vivo no Top of the Pops em 1995:]

Criado à sombra da ausência do pai, mas amado pela mãe sobre-protetora, Cocker definiu-se como um outsider desde cedo e adotou todo o tipo de comportamento típico dos outsiders – tanto na roupa como na música da sua banda, que ao início era decididamente experimental. Quando os Pulp chegam a His ‘n’ Hers já tinham anos e  anos a escrever canções que ninguém; mas em His ‘n’ Hers a sua capacidade melódica atingiu novos picos, bem como a capacidade instrumental da banda, em particular a facilidade com que casavam indie-rock e disco sound. Discretamente, em His ‘n’ Hers tinham uma obra-prima. No ano seguinte criariam a segunda, ainda maior e mais imaculada que a primeira.

Different Class, como o nome indica, é um testamento de classe – uma visão mordaz (mas cheia de carinho) da classe média e dos seus hábitos (beber, pinar, jogar snooker) e aspirações (beber, pinar, jogar snooker). Isto é claro em “Common People”, é claro em “Sorted for E’s and wizz”, a descrição de uma ida a uma rave e do subsequente consumo de substâncias, que deixam o narrador ansioso por regressar a casa, de preferência ainda com um cérebro funcional, é claro em “Disco 2000”, uma das mais estranhas canções de amor que se podem imaginar, em que Cocker relembra uma crush de miudagem com quem ainda sonha.

É preciso dizer que Different Class não é obsessivamente um disco de classe; uma boa parte do álbum é liricamente dedicado ao sexo oposto, ou a todas as formas de conseguir ter sexo com o sexo oposto – uma espécie de variação musical dos filmes de Woody Allen, devidamente projetada para a década de 90. Sendo um disco sobre as perversões sexuais que todos – mas em particular Jarvis Cocker – encerramentos é-o com uma escrita cheia de humor e de classe:

“If fashion is your trade
Then when you’re naked
I guess you must be unemployed yeah”

Assim cantava Cocker em “Underwear”, uma canção pop perfeita, escrita por um bando de outsiders vindos de Sheffield.

[“Underwear” ao vivo:]

Muitas variáveis tiveram de se unir para que um bando de seres estranhos, que transpostos para os dias de hoje seriam vítimas de swipe left massivo nas aplicações de dating, se tenham tornado super-estrelas: já tinham adquirido alguma visibilidade com His ‘n’ Hers, o fenómeno da britpop ampliou a exposição de todas as bandas que falassem em alguma coisa remotamente inglesa e “Sorted for E’s and wizz” criou um escândalo porque o artwork do single (singles eram rodelas de vinil que retornavam música quando uma agulha tocava na rodela enquanto estava rodava) descrevia como fazer um origami para transportar o E (o ecstasy, uma droga em voga nos anos 90 pós-heroína).

E depois houve “Common People”, com a sua energia brutal e a sua história inusitada da estudante grega que pede a Cocker para lhe ensinar como vivem as pessoas normais, desculpa perfeita para uma descrição agridoce, tragicómica dos muitos sonhos mas, realisticamente, baixas expectativas da classe média. É uma canção cheia de empatia e energia, um colosso que ouviu durante décadas nas pistas de dança do mundo pré-covid.

25 anos depois, Different Class está fresquinho, pronto para perseguir miúdas ou para debitar uma frase aguda sobre o comportamentos dos britânicos, da classe média ou das mulheres casadas. Os outsiders escreveram o seu nome na História e Jarvis é hoje uma instituição da cultura britânica.

É raro, mas por uma vez há justiça no mundo.