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Em 2002, um golo solitário de Wiltord valeu a vitória  do Arsenal em Old Trafford e a consequente conquista da Premier dessa época. Em 2009, nas meias-finais da Liga dos Campeões, dois golos de Cristiano Ronaldo ajudaram o Manchester United a ganhar no Emirates. Em 2011, Rooney assinou um hat-trick na goleada histórica dos red devils aos gunners, 8-2. E em 2015, Danny Welbeck, avançado formado no Manchester United, marcou o golo da vitória do Arsenal nos quartos de final da Taça de Inglaterra. Um jogo com história e destinado a grandes emoções — e que se repetia este domingo.

Manchester United e Arsenal encontravam-se em Old Trafford e o registo mais recente sorria particularmente à equipa que jogava em casa: há 13 jogos que os red devils não perdiam com os gunners em casa, desde uma derrota pela margem mínima em setembro de 2006. E a verdade é que o resultado do jogo deste domingo podia ser capital para a continuidade de Mikel Arteta no comando do Arsenal — pelo menos era o que dizia Jamie Redknapp, antigo jogador inglês e filho do treinador Harry Redknapp, que lembrava que a equipa londrina ainda só ganhou três de seis jogos na Premier League esta época.

“Tem sido uma campanha difícil para o Arsenal. Às vezes, quando se chega a um clube, é possível ter um grande impacto. O Aubameyang não tem atingido o nível da época passada, tem tido uma má campanha. Mas têm estado melhores contra equipas maiores e vão encontrar um United que não pareceu confortável contra o Chelsea. Se começarem bem o jogo, vão ver isso como uma oportunidade de conseguir um resultado. O Arteta estava a fazer um trabalho muito bom durante algum tempo mas as coisas não demoram muito a mudar. É só preciso perder alguns jogos e o foco vira-se para ti. E ele vai estar muito consciente disso mesmo”, explicou o agora comentador da Sky Sports.

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Certo é que, como dizia Redknapp, o Arsenal encontrava um Manchester United que empatou sem golos com o Chelsea mas que nas últimas duas semanas de Liga dos Campeões venceu o PSG em Paris e goleou o RB Leipzig. Arteta descansou Aubameyang, Lacazette e Partey no jogo da Liga Europa a meio da semana, um vitória contra o Dundalk, e Solskjaer também deixou Bruno Fernandes, McTominay e Rashford no banco no arranque da goleada aos alemães. Este domingo, todos eram titulares, assim como Willian e Saka nos gunners e Greenwood no ataque dos red devils. David Luiz, ainda a recuperar de uma lesão muscular, era a principal baixa para Arteta.

Manchester United v Arsenal - Premier League

Aubameyang, que ainda só marcou uma vez na Premier League esta época, voltou ao onze do Arsenal depois de ter sido poupado na Liga Europa

Numa primeira parte que terminou sem golos, o Arsenal dominou largos períodos da partida mas não conseguiu transformar esse controlo numa vantagem palpável. A equipa londrina exercia uma pressão muito elevada e eficaz sobre o Manchester United, que não conseguia sair do próprio meio-campo e teve apenas uma aproximação perigosa à baliza de Bernd Leno, com Greenwood a rematar ao lado (21′). Antes, Aubameyang já tinha falhado o remate depois de um bom lance de Bellerín (15′), com Willian a acertar na barra (39′) e Saka a cabecear por cima ainda antes do intervalo (44′). No fim do primeiro tempo, o Arsenal tinha o mérito de estar a parar todas as escassas tentativas ofensivas do United mas não conseguia ter criatividade e presença no último terço para chegar à vantagem; o United estava muito recuado no relvado, sem soluções para ultrapassar a pressão inicial do Arsenal, a mascarar as fragilidades defensivas com a falta de eficácia do adversário e tinha apenas um remate realizado, o pior registo numa primeira parte desde outubro de 2015.

No início da segunda parte, sem que Solskjaer ou Arteta tivessem feito qualquer substituição, o Manchester United deu mostras de estar melhor no jogo e alongou-se no terreno, equilibrando os acontecimentos. Bruno Fernandes e Pogba passaram a atuar mais junto aos corredores, sem descer para ir buscar jogo, o que fez com que Bellerín e Saka, nas alas, recuassem no relvado e retirassem presença ofensiva aos gunners no meio-campo adversário. Ainda assim, eram os erros de construção do United que continuavam a criar lances de perigo: a dada altura, Lacazette desarmou Fred em zona proibida e assistiu Aubameyang, que rematou ao lado e prolongou mais um pouco a seca de golos que arrastava há cinco jogos na Premier League.

A primeira mexida apareceu por volta da hora de jogo, com Solskjaer a trocar Fred por Matic — uma alteração que era de risco praticamente nulo e que deixava antecipar que o treinador norueguês estava mais preocupado com não perder do que com ganhar. Pogba, porém, não tinha a mesma preocupação. O médio francês fez falta sobre Bellerín na grande área, num lance onde a intervenção não se justificava, e Aubameyang converteu a grande penalidade: a cerca de meia-hora do final, o gabonês abria o marcador, apontava o segundo golo na Premier League esta época, fechava uma pouco comum série de cinco jogos sem marcar e colocava o Arsenal a ganhar em Old Trafford (69′).

Solskjaer reagiu à desvantagem a um quarto de hora do fim, tirando Greenwood e Bruno Fernandes para lançar Cavani e Van de Beek, e Arteta respondeu ao trocar Lacazette por Nketiah — de um lado, o renovar do meio-campo e da presença na grande área; do outro lado, o refrescar do ataque para procurar um decisivo segundo golo. Até ao fim, pouco ou nada aconteceu. O Arsenal segurou a vantagem e defendeu-se das investidas do United e Mikel Arteta tornou-se o primeiro treinador da era moderna dos gunners a ganhar aos red devils nas duas primeiras vezes em que os defrontou. O jogo estava algo aborrecido, não tinha grande história e ia provavelmente acabar sem golos: mas Pogba fartou-se, rasgou a página, fez um penálti desnecessário e inexplicável e ofereceu de bandeja a vitória ao Arsenal, que 14 anos depois voltou a ganhar em Old Trafford. Quanto ao Manchester United, perdeu pela terceira vez em quatro jogos em casa para a Premier League e não está a conseguir fazer corresponder a boa campanha europeia ao percurso interno.