As altas expectativas são, como se costuma dizer nos jornais, tramadas. Apresentam-se como elogio, apenas para, nesse exato momento, nos aprisionarem nas suas exigências. Temos de estar à altura, não podemos defraudá-las e, apesar de nos darem espaço para as ultrapassarmos, sabemos que esse é um caminho sem saída – ou, pelo menos, sem retorno. Porque por mais alta que esteja a fasquia é sempre possível esperar mais.

Todos os anos pelo Natal, mais coisa menos coisa, Ricardo Araújo Pereira lança um novo livro. Este ano, embora haja quem argumente que não tem sido bem um ano, vai ao encontro das expectativas dos leitores com Idiotas Úteis e Inúteis (Tinta da China), uma reunião das crónicas publicadas no jornal brasileiro Folha de São Paulo entre setembro de 2018 e agosto de 2020.

Até agora, tirando o ensaio A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar (2016), todos os livros do humorista de 46 anos foram compilações de crónicas e de guiões radiofónicos, pelo que sem grande emoção temos sabido o que esperar. A surpresa surgiu em 2018, não pelo género, mas pelo tom. Dizia a editora Tinta da China que Estar Vivo Aleija — uma espécie de “Tomo I” do livro que chega agora às livrarias, e que incluía as primeiras crónicas publicadas no Brasil — apresentava o principal nome do humor português como nunca o tínhamos lido. E não se referia ao sotaque.

“Idiotas Úteis e Inúteis”, de Ricardo Araújo Pereira (Tinta da China)

Sem grandes hesitações, RAP pode ser considerado aquilo que nos mais variados índices particulares e subjetivos do jornalismo se diz um “um entrevistado difícil”. Um dos comentários mais frequentes é que se escuda no humor. Não deixa de ser curioso que deste Idiotas Úteis e Inúteis faça parte uma crónica sobre escudos e humor (p. 135). De forma engenhosa, o autor parte da história da Medusa para explicar como Perseu só conseguiu matá-la porque usou o escudo como espelho, mais ainda torto. (“Convexo” é o termo usado.) Também o humor “faz com que se veja melhor”, escreve. É um espelho que “nos mostra uma imagem deformada, pior do que a imagem real. Essa é uma estranhíssima forma de proteção. E, no entanto, resulta.”

Em Estar Vivo Aleija, RAP pareceu baixar o escudo. Na altura justificou que, não dominando a atualidade brasileira, debruçar-se-ia sobre a única coisa que tinha em comum com aqueles leitores: “isto de estar vivo”. Na primeira crónica publicada na Folha de São Paulo, em Abril de 2017, desenvolvia a ideia:

“A vida, esse caminho de dor, angústia e desespero que culmina na morte. Serão textos humorísticos.”

E assim desbravou durante meses territórios que não lhe conhecíamos ou nunca lhe tínhamos lido, das angústias existenciais à relação consigo próprio, sem fechar a porta a reflexões importantes, como a que dedica ao chulé. Pelo menos numa entrevista afirmou que achava a sua infelicidade ótimo material de comédia. O amigo e também humorista José Diogo Quintela chamou-lhes “crónicas macambúzias”. RAP parecia encetar com o público brasileiro uma relação mais livre e descomplexada do que com o português. Como quando temos um namorado estrangeiro e não nos preocupamos com o que vai pensar do nosso apelido ou da nossa forma de falar. Enciumei-me. Depois apercebi-me dos ganhos colaterais. Podia ter sido excluída deste relacionamento, mas também eu beneficiava da existência deste cronista empático e complexo. Mesmo que isso implicasse ter serpentes no lugar de cabelo, muitas vezes era meu o reflexo distorcido. Em sondagens pessoais com amostras escolhidas a dedo, constatei que outros sentiam o mesmo. E foi essa a expectativa que criou.

RAP é um homem culto e polvilha Idiotas Úteis e Inúteis com referências a todo o tipo de personagens e obras literárias. Uma delas é a história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (“Dr. Jair e Mr. Bolsonaro”). O que não esperávamos era que a ideia de natureza dupla se estendesse ao próprio espaço de opinião. E que ao equilíbrio raro entre humor, vulnerabilidade e melancolia se sucedesse um registo que oscila entre o agastado e o irritado, com laivos de amofinado. Até porque olhando para os dois livros, não muda assim tanto: um tem a capa amarela e azul; o outro azul e amarela. A mesma mancha gráfica, o mesmo tipo de letra, a mesma promessa: “as crónicas de Ricardo Araújo Pereira que os portugueses nunca leram” – se não tiverem uma ligação à Internet e uma assinatura digital da Folha de São Paulo. A bem dizer, o título talvez seja uma pista. Quem serão os “idiotas”?

Ricardo Araújo Pereira: “Ser de esquerda não é a mesma coisa que ser franciscano”

Sim, o mundo mudou nos últimos tempos. Haverá sempre quem diga que tem de ser assim, citando aquele chavão do “para que tudo fique na mesma”. Mas se calhar não tinha de mudar desta forma. Andaremos todos mais arreliados?

RAP terá resistido talvez um mês a escrever sobre atualidade a partir do momento em que Jair Bolsonaro foi eleito Presidente. Mais tarde veio uma pandemia, que parece estar para durar. A vida transferiu-se ainda mais para o digital. E de repente damos por nós a questionarmo-nos se todos os assuntos relevantes se tornaram globais, se nos encaminhamos para uma distopia e onde é que isto tudo vai parar, pl’amor de Deus. Teria sido bom reencontrar nestas páginas o humorista macambúzio que ajudava a que isto de estar vivo aleijasse um bocadinho menos fazendo-nos rir um bocadinho mais. Mas a única voz que vem do lado de lá faz lembrar aquelas do tempo dos telefones fixos, os mesmos por que RAP suspira, “o senhor doutor ausentou-se.” Para onde? “Vai ter de ligar outra vez.”

Ao longo de quase cem crónicas, com mais ou menos esforço, o humorista mantém-se fiel às paixões e implicações do costume: o absurdo, o politicamente correto, o casamento. Agora, também à atualidade política brasileira. Passou a dizer-se velho com mais frequência. Já no título de um livro de 2017 tinha rabujado: Reaccionário com Dois Cês. RAP despreza as redes sociais, o “lifestyle”, as “bugigangas tecnológicas”. Ama o Benfica, as figuras de estilo e os belos seios. É impossível atestar com segurança, mas intui-se que a alopecia o melindre. Vai daí, talvez seja apenas humor.

Numa altura em que está tão em voga homenagear os heróis do dia-a-dia, é pena que não reste uma palavra para os cronistas. Gente que todas as semanas tem, não só de arranjar tema, mas também um ângulo original. De quem se espera que em minuto e meio de leitura ou 2000 caracteres com espaços nos ilumine e aconchegue. Cujos textos sejam, não obras-primas, mas pelo menos diamantes. Por outras palavras, que nos sejam úteis.

Ao apresentar-se, Ricardo Araújo Pereira costuma dizer que escreve textos humorísticos. Quando corre bem. Quando corre mal, diz, escreve apenas textos. Com 228 páginas, Idiotas Úteis e Inúteis contém bastantes mais textos do que Estar Vivo Aleija (150 pag.). Muitas mais irritações, também. A dada altura damos por nós a perguntar que será feito do nosso idiota útil favorito. Procuramos pistas em cada referência a visitas de extraterrestres, declinações latinas e Jorge Jesus. Achamos que o reencontrámos em “O rabo dos malucos e/ou bêbedos”. Até que percebemos que andámos a ver tudo mal. Vítimas da lógica – e das altas expectativas. “Tudo na nossa vida”, elucida RAP, “se tem assemelhado a fábulas e contos de fadas mas contados por um bêbedo.” Para concluir logo a seguir, na mais comovente crónica macambúzia de todo o volume, que por acaso é a última, “Vamos! A vitória é difícil mas é deles.”

Se não soubesse que era uma armadilha lógica, sentir-me-ia tentada a dizer que, por fim, elevou a fasquia – e esteve à altura das expectativas.