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E tudo o filho do Gil mudou. Perdão, Angel Gomes (a crónica do Boavista-Benfica)

Angel abriu o livro, espalhou lances de letra e escreveu a história da primeira vitória do Boavista frente a um Benfica sem rasgo, sem páginas e sem uma única ideia para mudar o enredo final (3-0).

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Angel Gomes sofreu o penálti do primeiro golo, converteu o castigo máximo e ainda assistiu Elis para o 2-0 antes do intervalo

Jose M. Alvarez/JARSportimages.com

Angel Gomes sofreu o penálti do primeiro golo, converteu o castigo máximo e ainda assistiu Elis para o 2-0 antes do intervalo

Jose M. Alvarez/JARSportimages.com

“No último jogo com o Standard Liège acrescentei à exibição o facto de sentir que foi o melhor jogo que a equipa tinha feito até à data. Em tudo aquilo que definimos para os momentos do jogo, a equipa esteve bem. Trabalhamos todos os dias, como todas as equipas, e vamos melhorar. A equipa teve momentos muito bonitos”, lançava Jorge Jesus na habitual conferência de antevisão ao encontro no Bessa frente ao Boavista, “um clube carismático e de tradição no futebol nacional com uma equipa que tem mais valor do que a classificação reflete”. “São momentos que as equipas têm”, destacou, relativizando o facto de poder ficar com mais oito pontos do que o FC Porto.

Benfica sofre primeira derrota na Liga frente ao Boavista (3-0) e Sporting assume liderança isolada

“As expectativas dos três grandes são sempre serem candidatos a vencer o Campeonato. Como é normal, muitas vezes nem todos começam bem. Não me surpreende o Sporting ter feito o Campeonato que fez até agora. A única anormalidade até aqui é o FC Porto mas pode recuperar. O que está a acontecer ao FC Porto pode acontecer ao Benfica ou ao Sporting durante a época. Em qualquer momento se perde pontos, são períodos que as equipas têm. Atravessam bons momentos e outros não tão bons. Temos de olhar é para o que o Benfica tem de fazer, procurar somar vitórias nos jogos que tem. Estamos focados naquilo que temos de fazer e não valorizo o facto de os rivais poderem perder pontos”, salientou, fintando qualquer vantagem extra pelo avanço pontual.

Com uma habilidade cada vez mais refinada e que contrasta com discursos em épocas não muito longínquas, Jorge Jesus, que regressava ao estádio onde orientou o primeiro encontro do escalão principal no comando do Felgueiras (e curiosamente com Sérgio Conceição como titular da sua equipa, há 24 anos) colocou o foco apenas no plano interno e sem olhar para as trajetórias dos rivais diretos. Todavia, e para criar esse fosso em termos classificativos, há um dado que tem de ser comparado com o FC Porto e que explica parte do que aconteceu agora: a capacidade de adaptação a uma nova ideia de jogo de jogadores que em alguns casos nem estavam no futebol europeu. Algo que o Benfica conseguiu, algo que os dragões tardam em conseguir (mesmo tendo uma base que se mantém da última época mas sem Danilo e Alex Telles). E com um exemplo paradigmático: Everton Cebolinha.

“O Everton tem caraterísticas especiais e por isso é que fez sempre a diferença no Grémio e na seleção. O futebol europeu é mais exigente em ter que conquistar espaço sem ser individualmente. Aqui há menos espaço para poder jogar. Está a adaptar-se, tal como o Pedrinho e o Gilberto. Ainda não atingiram o nível deles mas são jogadores com muito talento. O Everton é de seleção, exigimos mais dele porque sabemos a qualidade que tem. No Grémio não defendia ou pouco defendia, o jogo passava muito por ele ofensivamente. Aqui tem de ter outros movimentos defensivos, às vezes mais longe da zona do golo. Sabendo que o rendimento não é o top dele, é sempre alto e isso faz a diferença dos grandes jogadores”, explicou o técnico dos encarnados que, na semana passada, quando “respondeu” a Bernardo Silva, revelou que o brasileiro já fez alguns treinos como lateral esquerdo exatamente para começar a ter o sentido defensivo que não era obrigado a conhecer quando jogava ainda no Brasileirão.

Globalmente, o Benfica fez um jogo mau, muito mau no Bessa. O pior da época, de longe. E se o setor defensivo foi a grande pecha dos encarnados esta noite, em termos individuais houve outras exibições para esquecer como a de Everton Cebolinha, que não só não teve um único registo meritório em termos ofensivos até sair ao intervalo como fez ainda a falta, de forma ingénua, que originou o primeiro golo de penálti de Angel Gomes, o melhor em campo enquanto teve pernas para isso (72′). Se em termos globais o Boavista teve uma exibição quase perfeita, com um grande mérito também do técnico Vasco Seabra pela forma como organizou a equipa em termos coletivos, o antigo avançado do Manchester United provou que tem uma longa história ainda para escrever deixando de ser apenas “o filho do Gil”, também ele avançado e campeão mundial Sub-21 em 1991 que fez toda a formação na Luz apesar de nunca ter feito carreira depois ao serviço dos encarnados como sénior. E no meio de tudo isto, a primeira derrota das águias no Campeonato ofereceu de bandeja a liderança isolada ao surpreendente Sporting.

Ficha de jogo

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Boavista-Benfica, 3-0

6.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Bessa, no Porto

Árbitro: Hugo Miguel (AF Lisboa)

Boavista: Léo Jardim; Cannon, Cristian Castro, Chidozie, Ricardo Mangas, Hamache; Show (Sebastián Pérez, 67′), Reisinho; Paulinho; Angel Gomes (Gustavo Sauer, 72′) e Alberth Elis (Yusupha, 86′)

Suplentes não utilizados: Bracali, Gómez, Benguché, Musa Juwara, Porozo e Nathan

Treinador: Vasco Seabra

Benfica: Vlachodimos; Gilberto (Diogo Gonçalves, 56′), Otamendi, Vertonghen, Nuno Tavares; Gabriel (Weigl, 46′), Taarabt (Cervi, 62′); Pizzi (Seferovic, 46′), Everton Cebolinha (Rafa, 46′); Waldschmidt e Darwin

Suplentes não utilizados: Helton Leite, Jardel, Samaris e Gonçalo Ramos

Treinador: Jorge Jesus

Golos: Angel Gomes (18′, g.p.), Elis (38′) e Hamache (76′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Vertonghen (45+1′), Show (59′), Reisinho (66′), Nuno Tavares (66′), Léo Jardim (79′), Diogo Gonçalves (89′) e Otamendi (90+1′)

Com Gilberto a ocupar a lateral direita em vez de Diogo Gonçalves, Jesus apostou em Taarabt no lugar do lesionado Pedrinho, colocando Pizzi mais na direita e Rafa no banco. A opção do técnico passava por dar outra tração a um corredor central que é um dos pontos fortes do Boavista, apostando depois na mobilidade para encontrar espaços para jogar entre linhas com Waldschmidt e Everton Cebolinha, algo que se tornou quase impossível perante a boa organização defensiva dos axadrezados, com uma linha de cinco atrás sem bola a que se colava uma intermédia de três a quatro deixando Elis na frente e Angel Gomes mais solto para receber o primeiro passe numa transição. E foi assim que os minutos foram passando, com os visitados a terem os únicos remates do encontro e as águias a procurarem sem sucesso chegar ao último terço com a qualidade necessária para criarem oportunidades.

Na única ocasião em que Waldschmidt conseguiu receber uma bola no espaço entre os defesas e os médios, Darwin marcou. Foi quase como um cálculo matemático, com o alemão a receber, a lançar em profundidade e o uruguaio a fazer um fantástico remate em arco de pé esquerdo que bateu no poste antes de entrar deixando Léo Jardim sem reação. No entanto, o lance acabaria por ser bem anulado por posição irregular do sul-americano (11′). E o mal não veio mesmo só: Angel Gomes voltou a abrir o livro, beneficiou da ingenuidade de Everton a disputar um lance na área, sofreu falta e converter depois a grande penalidade que pela primeira vez colocava o Benfica em desvantagem no Campeonato (18′). Mais: logo a seguir, na sequência de uma má saída de trás em posse, Vlachodimos teve de sair da área para evitar males maiores quando Elis já se acercava para tentar visar a baliza.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Boavista-Benfica em vídeo]

O golo sofrido fez mal ao Benfica, que passou de fraco a muito fraco nos minutos seguintes com uma série de passes errados e lançamentos demasiado longos em profundidade entre mais capítulos do Angel show que voltou a criar perigo num remate cortado por Otamendi. Vertonghen, num lance inventado por Taarabt na direita em insistência, teve a grande oportunidade do conjunto visitante durante a primeira parte mas o cabeceamento saiu à figura de Léo Jardim, naquele que ficaria como único remate à baliza em 45 minutos (30′). O jogo estava complicado em posse para a única equipa só com vitórias no Campeonato, o jogo tornou-se ainda mais complicado pelos erros que iam sendo cometidos nas transições defensivas, como aquela que valeu o segundo golo ao Boavista iniciada na direita, inventada mais uma vez por Angel Gomes e concluída na área por Elis (38′). O Benfica perdia por 2-0 ao intervalo, tinha apenas um remate e consentira 11 apenas em 45 minutos… três anos depois.

Jesus não estava contente. Pior, Jesus estava mesmo desagrado com a exibição. Vasco Seabra montara uma ideia que, interpretada à risca, conduzia o Boavista a um jogo quase perfeito. Ao invés, o plano A do Benfica não só não funcionou como redundou nos piores 45 minutos iniciais da equipa na presente temporada. E Jesus não demorou a tentar corrigir, com as saídas de Gabriel, Pizzi e Everton Cebolinha para as entradas de Weigl, Rafa e Seferovic. De livre direto, Darwin Núñez ficou muito próximo de reduzir a desvantagem mas até seria de novo a formação da casa a criar perigo em bola corrida, sobretudo num lance em que Elis, lançado por Paulinho (outra grande exibição na capacidade de fechar espaços e sair com o timing certo para o ataque), a obrigar Vlachodimos a defesa apertada para canto. As alterações não resultaram de imediato, o Benfica voltou a mexer pelas laterais.

Rafa, colocado no corredor central mais recuado do que é normal para ter espaço para receber e seguir de frente com bola, não demorou a tornar-se o melhor entre os encarnados, “sacando” várias faltas e chegando de quando em vez a zonas de finalização. Diogo Gonçalves e Cervi, as últimas apostas de Jesus, deram outra capacidade ao jogo pelas laterais que tanta falta fazia aos encarnados entre a densidade de unidades contrárias em bloco na defesa e à sua frente. E ainda houve uma evidente quebra física entre os elementos mais ofensivos do Boavista, o que tirou poder de fogo nas saídas – e a própria saída de Angel Gomes em nada ajudou para inverter a situação, tendo em conta as características de Gustavo Sauer, outro dos destaques do Boavista esta época.

No entanto, ainda havia um bocadinho de gasolina no fundo do depósito de Paulinho (o de Elis na frente é apenas um depósito sem fundo porque acabou quase como se estivesse a começar), com uma grande arrancada pela direita lançado pelo hondurenho antes do cruzamento atrasado que encontrou Hamache isolado à entrada da área para o 3-0 com um remate ao ângulo que deixou Vlachodimos parado e a olhar para os companheiros que se colocaram também a jeito perante mais uma transição defensiva falhada e sem compensações (76′). O encontro ficava quase resolvido, Darwin ainda obrigou Léo Jardim a uma defesa apertada nos descontos mas pelo meio Elis (84′) e o recém entrado Yusupha (90′) ficaram perto de aumentar ainda mais a surpresa. Surpresa, para quem não viu. E olhando para a contabilidade das oportunidades, o resultado no final ainda podia ter sido mais pesado.

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