Ao contrário do que aconteceu com o Manchester City, com o Chelsea ou com o Manchester United (Tottenham e Arsenal no passado não entram bem neste Totobola), o Liverpool seguiu uma política diferente nos reforços mas gastando o mesmo. Ou seja, em vez da quantidade optou duplamente pela qualidade, em vez de apostar em muitas unidades na frente investiu naquilo que lhe faltava atrás. Quando se falava do tridente ofensivo composto por Sadio Mané, Salah e Firmino, e daquilo que era capaz de fazer de olhos fechados, havia tendência para passar ao lado de Van Dijk e Alisson, as traves que seguravam tudo o resto. E foi assim que começaram a chegar os títulos.

Depois do Jota, vem o K. De Klopp. “Trouxe-nos muito e é uma pessoa adorável”, elogia técnico após golo decisivo do português

Depois da vitória na Champions em 2019, o Liverpool deu continuidade a esse sucesso e sagrou-se campeão inglês três décadas depois numa época atípica mas com final sem margem para dúvidas. Todavia, e aos poucos ao longo da época, a equipa com poderes de extraterrestre tornou-se cada vez mais humana. Na derrota com o Atl. Madrid nos oitavos da Liga dos Campeões, nos vários pontos perdidos depois da retoma, na goleada por 7-2 sofrida em Birmingham diante do Aston Villa. Com o Everton, no dérbi de Liverpool, Virgil Van Dijk sofreu uma lesão grave no joelho. O conjunto de Jürgen Klopp, que esteve também alguns encontros sem Alisson por questões físicas, já estava no patamar de humana e corria o risco de passar a “normal” perdendo a grande referência que comandava todas as operações em termos defensivos e tinha também grande influência no ataque, fosse nos esquemas táticos ofensivos, fosse nos passes longos que conseguiam explorar a profundidade. Temia-se o pior.

Foi aqui que, de forma inesperada e sem muita lógica, apareceu Diogo Jota. É avançado e não defesa, é franzino e não um gigante, começa a dar os primeiros passos na seleção não sendo um inquestionável. Nada a ver com Van Dijk. Mas se a defesa do Liverpool continua a não ser a mesma, a verdade é que conseguiu estabilizar depois dos calafrios que sofreu por exemplo com o Sheffield United e o ataque tornou-se letal nos momentos chave para ganhar os jogos e gerir de seguida a vantagem. E o português ainda mantém influência nesse capítulo.

A partir desse momento no dérbi frente ao Everton, Diogo Jota, que se estreara na Premier League com o Arsenal logo a marcar, foi suplente utilizado em Amesterdão frente ao Ajax (1-0), decidiu a receção ao Sheffield United como titular (2-1), abriu o marcador no encontro em Anfield frente ao Midtjylland como titular (2-0) e voltou a ser decisivo no último jogo em casa com o West Ham saindo do banco (2-1). “O Jota é um bom jogador, trouxe-nos muito e é uma pessoa adorável. Isso torna tudo mais fácil. É forte, bom no jogo aéreo, no relvado. Tem exatamente a qualidade que precisávamos e isso ajuda. Se me surpreendeu? Não sei. Muitas das coisas que ele faz é o que queremos que ele faça. Ele tem 23 anos e o futuro é brilhante para ele. Deixem-me dizer que gosto disso. Estou feliz que ele cá esteja”, tinha dito antes Jürgen Klopp, antes de um update nos elogios.

Lutámos muito para conseguir esta contratação. Não tanto para o convencer a ele mas tivemos de lutar. É um talento excecional. Tem velocidade, capacidade física e técnica, joga com os dois pés. É muito melhor do que eu achava que era e está numa grande forma”, disse após o último jogo.

Diogo Jota “pedia” a titularidade. E havia dois caminhos, um possível e outro (aparentemente) improvável: ou o Liverpool jogava com quatro na frente, como já aconteceu, ou o tridente ofensivo dos últimos anos era desfeito com a saída de Firmino. Foi mesmo isso que aconteceu, o que por si só já era um “feito”. Mas o português queria mais e não demorou a conseguir: numa sempre complicada deslocação a Itália para defrontar uma Atalanta que continua na senda de bons resultados (e exibições) da última época, o avançado inaugurou o marcador aos 16′ e marcou o segundo golo ainda antes do intervalo (33′), fazendo o resultado que se verificava ao intervalo.

A comparação tornava-se inevitável e o português, que chegou aos sete golos em dez jogos (um recorde este século, superando os registos de Fernando Torres, Sturridge e Salah) e 500 minutos, mais dois golos do que Firmino num total de 2.405 minutos. Mas a festa estava ainda a meio: logo a abrir a segunda parte, Salah fez o 3-0 após assistência de Curtis Jones, que voltou a ser titular no meio-campo (47′), Sadio Mané aumentou para 4-0 apenas dois minutos depois após passe de Salah (49′) e Diogoal completou o hat-trick com assistência de Mané (55′), saindo a 25 minutos do final para dar lugar exatamente a Firmino quando a goleada já estava mais do que escrita.