Dentro e fora do grande ecrã, Tilda Swinton é uma figura singular e inconfundível. Simultaneamente, através da sua personalidade esquiva, demarcou-se, ao longo das décadas, do circuito mais popular dentro do star system de Hollywood, o que nunca a impediu de brilhar numa passadeira vermelha. A sua carreira como atriz, que conta com mais de 30 anos e um Óscar, é um exercício de equilíbrio entre o cinema de autor europeu (num dos extremos) e o blockbuster norte-americano (há uma personagem do universo Marvel que não deixa dúvidas).

Na moda, é uma referência incontornável. Por um lado, sempre explorou a estética andrógina que a própria fisionomia sugere. Por outro, desenvolveu fortes afinidades com criadores de moda europeus, tornando-se embaixadora de símbolos de luxo como a Chanel.

Cannes 2001 - Deep End Portraits

Tilda Swinton em 2001 © J. Vespa/WireImage

Longe dos holofotes, Tilda não se limitou a construir uma família e criou ela própria uma escola para os filhos estudarem. No portefólio, soma também a passagem pela performance e pela instalação. Nos últimos anos, deu voz à causa independentista escocesa. Swinton e o seu alcance no mundo das artes, mas também nos âmbitos político e social, são inegáveis. A atriz completa esta quinta-feira 60 anos de idade.

Filha de um major-general e colega de escola de Diana

É inglesa no papel, mas escocesa por afinidade. Katherine Matilda Swinton nasceu a cinco de novembro de 1960, em Londres. Filha de John Swinton, um major-general do Exército Britânico, as raízes na Escócia são de ambos os lados da família. Cresceu num contexto aristocrático, razão pela qual acabou por frequentar apenas colégios privados. Num deles, a West Heath Girls’ School, foi colega de Diana Spencer, que era apenas oito meses mais nova.

Em regime de internato, ao qual foi sujeita a partir dos dez anos, a experiência foi traumática para a futura atriz. “É um momento estranho para ir. [É dizer:] ‘OK, vamos distraí-la desta evolução útil, juntá-la a um monte de gente numa olha deserta chamada escola e deixá-la lidar com isso'”, partilhou com o The Guardian em 2011. “Acho que não falei durante cinco anos”, continuou, fazendo referência a bullying e às saudades que sentia de casa.

Numa outra entrevista, dada em 2016, Swinton voltou a descrever o colégio interno como um sítio “solitário e isolado” e a justificar, com a sua experiência pessoal, o facto de não gostar de filmes que, como os de Harry Potter, “tendem a romantizar estes lugares”. “São um ambiente muito cruel para crescer e não acho que as crianças beneficiem desse tipo de educação. Os filhos precisam dos pais e do amor que eles têm para dar”, rematou.

1990: Cannes Film Festival

Tilda Swinton em Cannes, 1990 © Gamma-Rapho via Getty Images

Depois de uma passagem pela África do Sul e pelo Quénia, onde esteve envolvida em projetos de voluntariado, entrou na Universidade de Cambridge. O percurso universitário ficou marcado pelas primeiras experiências em cima do palco, mas também pelo acentuar das suas inclinações políticas, envolvendo-se no Partido Comunista britânico (mais tarde, viria a tornar-se militante do Partido Socialista Escocês). Em 1983, aos 22 anos, concluiu a licenciatura em Ciências Políticas e Sociais.

O ano de Tilda Swinton

Tilda estreou-se no cinema em 1986, com “Caravaggio”, do realizador Derek Jarman, com o qual continuou a trabalhar nos anos seguintes, incluindo em “Edward II”, que lhe valeu um prémio no Festival de Cinema de Veneza, em 1991. Mas o seu nome permaneceria pouco conhecido até ao ano seguinte, quando protagonizou “Orlando”, uma adaptação do romance de Virginia Woolf pela realizadora Sally Potter. Foi aí que a atriz, nomeadamente a sua aparência andrógina, começou a atrair as atenções.

Entre o cinema e a arte (em 1995, participou numa performance nas galerias Serpentine, em Londres, onde surgia exibida, como um objeto, dentro de uma caixa de vidro), Tilda Swinton inaugurou os anos 2000 com uma aproximação a Hollywood. Contracena com DiCaprio em “A Praia”, com Tom Cruise em “Vanilla Sky”, com Brad Pitt e George Clooney em “Destruir Depois de Ler”, filme dos irmãos Coen.

The 80th Annual Academy Awards - Press Room

Com o Óscar de Melhor Atriz Secundária, em 2008 © Jeff Kravitz/FilmMagic

Em mais de três décadas de carreira, 2008 foi, sem sombra de dúvida, o ano de Tilda Swinton. “Michael Clayton”, filme do realizador e argumentista Tony Gilroy, valeu o Óscar de Melhor Atriz Secundária, naquela que foi, até hoje, a sua única nomeação para os prémios mais importantes da indústria. Nesse ano, conquistou ainda o BAFTA na mesma categoria.

Mas a atriz nunca perdeu o cinema europeu de vista. Além de ser uma presença assídua no circuito de festivais de cinema — não só como convidada, mas como membro de painéis de júri –, continuou a trabalhar com realizadores do velho continente. O francês Erick Zonca, o italiano Luca Guadagnino e a escocesa Lynne Ramsay são os nomes mais relevantes. Destaque ainda para o trabalho com o sul-coreano Bong Joon-ho, em “Okja”, e com Wes Anderson em “Grand Budapest Hotel”. Em 2016, deu vida a The Ancient One, personagem do universo Marvel, no filme “Doutor Estranho”.

A fase Lanvin, os anos Chanel e uma vida com Haider Ackermann

Ao longo dos anos, o guarda-roupa de Tilda Swinton tem explorado a fronteira entre os códigos de vestuário masculino e feminino. Dos blazers e fatos de duas peças aos vestidos coluna, a figura andrógina permite-lhe ser camaleónica e, ao mesmo tempo, adicionar uma pitada de contemporaneidade até ao mais tradicional dos looks.

Mas um estilo consistente só se consegue com alguns aliados e Tilda foi conquistando os seus. Designers estrela (uns mais do que outros) estabelecidos na Europa cunham os visuais raramente consonantes com o clássico vestido de cauda que predomina nas passadeiras vermelhas. “Para alguém saber o que te deixa confortável, é preciso conhecer-te primeiro. Tê-los a fazer roupa para mim é como ter alguém que sabe o que gosto de comer a cozinhar para mim”, afirmou numa entrevista à W Magazine, em 2011.

France - "Ocean's 13" - Premiere at the 60th Cannes Film Festival

Em Cannes, vestida por Haider Ackermann, 2007 © Stephane Reix/For Picture/Corbis via Getty Images

A lista é curta e encabeçada por Haider Ackermann, designer de moda de origem colombiana sediado em Paris. Numa rara entrevista ao The Hollywood Reporter, em outubro do ano passado, o criador admitiu que não se recorda do momento exato em que conheceu a sua musa, para quem já desenhou dezenas de peças. “Ambos sabemos do que estamos a falar, mesmo quando apenas olhamos um para o outro. Há muita confiança e ao fim de tantos anos de amizade, não são necessárias grandes explicações […] Ela é a minha parceira de jogo, desafia-me e é muito mais arrojada. Ela projeta muito mais o futuro”, referiu Ackermann.

Da infância, Tilda recorda melhor a farda do pai do que os vestidos de noite da mãe. Recordações que lhe poderão ter moldado a preferência por peças de alfaiataria, volumes inusitados e silhuetas esculturais. Ao longo da sua carreira, foram vários os nomes que — além de Ackermann — vestiram a atriz. Alber Elbaz, diretor criativo da francesa Lanvin entre 2001 e 2015, foi um deles. Coube-lhe, aliás, desenhar o vestido preto de seda com que subiu ao palco do Kodak Theatre, no dia 24 de fevereiro de 2008. A própria acabaria, mais tarde, por resumir o briefing: “atrair um pouco de atenção e estar tão confortável como se estivesse de pijama”.

"The Human Voice" Red Carpet - The 77th Venice Film Festival

Em setembro deste ano, no Festival de Veneza © Franco Origlia/Getty Images

Não foi caso isolado. A maison viria a vestir Swinton um ano depois, também nos Óscares, e nos Screen Actors Guild Awards de 2012, entre outras ocasiões. Na última década, o guarda-roupa da atriz abriu-se à marca que representa a essência do luxo, a Chanel. A relação estretou-se na última década com Tilda a sentar-se na primeira fila dos desfiles de alta-costura, a posar para as fotografias ao lado de Karl Lagerfeld e até a pisar o palco do tributo ao criador, em junho do ano passado. Na passadeira vermelha, a elegância da casa francesa reconhece-se à distância, no último Festival de Veneza isso ficou bem claro.

Tilda, a educadora

A passagem por colégios internos e o tipo de ensino conservador a que teve acesso levaram Swinton a repensar a educação que queria para os seus filhos — os gémeos Xavier e Honor Swinton Byrne, atualmente com 23 anos, fruto da relação com o artista e dramaturgo escocês John Byrne. Em 2013, a atriz ajudou a fundar uma escola — a Drumduan Upper School — junto à costa norte da Escócia, como forma de garantir que os filhos adolescentes continuavam a receber uma educação à luz da pedagogia Waldorf, baseada na filosofia de Rudolf Steiner.

Competências intelectuais, artísticas e práticas são estimuladas de forma integrada e, no caso da escola de Drumduan, sem exames, hierarquias e, sempre que possível, sem cadeiras nem secretárias, segundo contextualizou o The Guardian, numa reportagem de 2015. “É [uma educação] extremamente baseada na arte e numa aprendizagem prática. Por exemplo, eles aprendem ciência a construir canoas, a fazer um canivete ou a caramelizar cebola. E eles estão todos felizes. É inacreditável”, referiu a atriz na altura.

"The Souvenir" Photocall - 69th Berlinale International Film Festival

Em 2019, com a filha Honor Swinton Byrne © Stephane Cardinale – Corbis/Corbis via Getty Images

Numa outra frente (extra cinema e moda, entenda-se), nos últimos dois anos, Swinton assumiu-se como defensora da independência da Escócia, movimento que ganhou novo fôlego com o Brexit. “Fico contente por me considerar escocesa e, tal como muitas outras pessoas, sinto que a Escócia é, naturalmente, um país independente”, referiu em declarações dadas em 2018. A atriz vive há mais de 20 anos em Nairn, uma pequena cidade costeira da Escócia. Desde 2004 que mantém uma relação com o pintor alemão Sandro Kopp.