O B. Dortmund andou nos últimos anos num limbo complicado de gerir e que já terminou com a saída de forma precoce de alguns treinadores no período pós-Klopp: por um lado, tem um orçamento curto para encontrar uma maneira de apetrechar de melhor forma o plantel para discutir com o Bayern as principais provas nacionais, neste caso a Bundesliga; por outro, tem um orçamento “largo” para quem luta apenas para garantir a entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões (de preferência no segundo lugar) e tentar chegar à fase a eliminar da competição europeia. Sem hipóteses de alterar esse paradigma, como se percebeu num mercado onde, tendo de acionar a cláusula de Emre Can, garantiu Meunier a custo zero, Reinier por empréstimo e Jude Bellingham por impensáveis 23 milhões de euros vindo do Championship, só restavam três alternativas. E as três em conjunto.

Três meses e meio, 105 dias, cinco títulos seguidos: Kimmich não vai ao chão e foi lá que resgatou a Supertaça para o Bayern

Alternativa 1: ser regular. Um dos problemas do B. Dortmund nos últimos anos, não só com Lucien Favre mas também com Peter Bosz e até com o próprio Thomas Tuchel, está ligado à forma como a equipa quebra em alguns momentos da temporada, criando um fosso que permite ao Bayern fazer uma gestão bem mais folgada nas fases decisivas que por norma cruzam também com as competições europeias. Na presente temporada, apesar do desaire com o Augsburgo, a equipa tem conseguido vitórias mais ou menos complicadas mas consistentes, com um outro pormenor de não sofrer golos nos cinco triunfos até ao momento. Só mesmo uma campanha que seja capaz de evitar as habituais flutuações conseguirá levar as decisões da Bundesliga até às últimas jornadas.

Alternativa 2: ganhar nos confrontos diretos. Como se viu na Supertaça, conquistada pelo Bayern com um triunfo por 3-2 carimbado nos últimos minutos, os bávaros até podem ser melhores na maior parte de um jogo mas o B. Dortmund tem condições para terminar em vantagem no final (aliás, nesse jogo Favre perdeu o encontro a partir do momento em que não sou capitalizar o empate depois de ter estado com dois golos de desvantagem com várias substituições que encolheram a equipa). No entanto, não é isso que os resultados têm mostrado, sendo preciso recuar até 2011/12 para se encontrar uma época em que os schwarzgelben ganharem seis pontos nos dois jogos entre ambos. Curiosidade: foi nesse ano que o clube conseguiu o último título na Bundesliga (com Klopp).

Alternativa 3: potenciar ao máximo o fenómeno Haaland. O fenómeno norueguês de 20 anos que reúne uma série de características como mais nenhum avançado tem nesta nova geração marcou 28 golos em 22 jogos ainda pelo Salzburgo e mais 16 golos em 18 jogos pelo B. Dortmund, onde chegou em janeiro. A fasquia já era alta na última temporada, a fasquia subiu mais na presente época com uma média certa de um golo por jogo nos dez encontros realizados até ao clássico. Mais: nas quatro derradeiras partidas tinha marcado sempre, num total de cinco golos. Era no prodígio que assentava a esperança dos visitados em fazer mossa no setor “menos perfeito” de uma equipa oleada, com grandes valores individuais e que se tem assumido como o melhor coletivo na Europa. E também era pela capacidade de anular o escandinavo que começava a ser construída uma vitória pelo Bayern.

Haaland ainda falhou duas oportunidades mas voltou a marcar no clássico, como tinha acontecido na Supertaça. No entanto, os dois outros pontos não se confirmaram, com o Bayern a repetir a vitória por 3-2 aproveitando uma entrada a todo o gás no segundo tempo onde Lewandowski colocou a equipa pela primeira vez na frente, com o 259.º golo apontado em 300 jogos pelos bávaros e o 17.º à antiga equipa, de onde saiu em 2014 após quatro anos. Mais: o polaco que em 2019/20 melhorou ainda mais os seus hábitos alimentares e conseguiu a melhor temporada na carreira, com 55 golos em 47 encontros, leva agora 13 golos em 11 partidas (e ainda viu mais dois anulados…).

O clássico começou por provar que não é por não haver golos que um jogo não pode ser bom. Bom não, excelente. E a começar logo com uma oportunidade, com Lewandowski a rematar na área às malhas laterais com apenas 40 segundos de jogo. Os visitados responderam, apesar de ter sido Burki a travar o golo de Goretzka antes de Haaland ter pela primeira vez espaço numa diagonal para rematar de pé esquerdo muito ao lado. Muita intensidade, qualidade e velocidade à solta em Dortmund, como a que se viu num lance que terminou com Lewandowski a encostar para golo após cruzamento de Gnabry antes de o VAR anular a jogada por posição irregular. O Bayern estava melhor mas teve uma ligeira quebra já depois da meia hora, quando Kimmich carregou Haaland e acabou por lesionar-se no joelho, saindo com muitas queixas. Reus aproveitou esse adormecimento para inaugurar o marcador, após assistência de Raphael Guerreiro (45′), mas a festa não demorou muito tempo porque no quarto minuto de descontos David Alaba empatou de livre num remate que desviou ainda em Meunier.

Estava tudo empatado e com esperança de um triunfo do B. Dortmund, como revelou o antigo guarda-redes Jens Lehman numa entrevista rápida à Eleven Sports Portugal ao intervalo. No entanto, o Bayern entrou apostado em desfazer esse prognóstico, com Lewandowski a fazer o 2-1 na área (48′) e Coman a acertar pouco depois no poste em 15 minutos com os visitados desencontrados, perdidos em campo e sem capacidade para travar o rolo compressor do ataque da equipa de Hansi Flick. O B. Dortmund conseguiu depois equilibrar-se, voltou a entrar no jogo até com maior capacidade ofensiva, obrigou Neuer a duas defesas apertadas por Reus e Reyna mas a lei do mais forte imperou, com o recém entrado Sané a apontar o 3-1 na sequência de uma transição rápida (80′) antes de Haaland reduzir a desvantagem após assistência de Raphael Guerreiro e fazer o 3-2 final no clássico (83′).