Nome: Um Tempo a Fingir
Autor: João Pinto Coelho
Editor: Dom Quixote
Páginas: 400
Preço: 17,70€

A capa de “Um Tempo a Fingir”, de João Pinto Coelho (Dom Quixote)

Confesso que nao me inclino para recensões literárias confessionais, mas ainda assim tenho de reconhecer que não estava à espera. Ao receber o mais recente romance de João Pinto Coelho, não tendo lido nem Perguntem a Sarah Gross nem Os Loucos da Rua Mazur, contava com um romance bem pior do que Um Tempo a Fingir é. Não era apenas por isso, claro, mas não ajudava à festa a capa escolhida pela Dom Quixote, onde vemos uma mulher de vestido vermelho e tentador entrar numa sala escura, ladeada por duas cortinas também vermelhas (oh, vermelho, a cor do desejo), virando o rosto e estendendo a mão na direção do leitor (que se pressupõe ser homem, evidentemente), num gesto convidativo e sensual, ladeada por uma bandeirinha nazi e outra da República Italiana. À capa, juntava-se a ideia de ter de aturar mais um romance histórico sobre o nazismo, nestes tempos estranhos em que vimos o autor de clássicos intemporais como A Amante do Embaixador ou O Codex 632 lançar, num intervalo de três meses, dois calhamaços de quase quinhentas páginas sobre o tema.

O problema de pessoas tão apaixonadas por um período histórico se dedicarem a escrever livros aí situados prende-se com a possibilidade de o romance e as personagens se transformarem em meros veículos para sensibilizar os leitores para a precariedade da vida medieval ou os perigos associados à miopia no regime de Pol Pot. Ainda que o início do romance nos mostre um escritor desejoso de mostrar serviço e saber, a ameaça cedo se esfuma e o romance histórico converte-se, felizmente, apenas num bom romance que calhou ter lugar num período histórico concreto e reconhecível.

É certo que Um Tempo a Fingir não é, longe disso, perfeito. Os diálogos não são convincentes, há dois ou três momentos de meditação poética dispensáveis, a primeira menstruação da protagonista, Annina, ocorrer no preciso momento em que se torna irremediavelmente mulher é redundante e passávamos bem sem a errata de Ulisse ou o epílogo, que apenas servem para tirar força ao extraordinário final da narrativa de Annina. Ainda assim, todos estes problemas (e mais dois ou três que não vêm agora ao caso) são negligenciáveis diante das virtudes do resto do livro.

Em primeiro lugar, é de se louvar que em nenhum momento as personagens (exceto, talvez, os Cinquemani) se tornem meros estereótipos de histórias do Holocausto. Annina, por maior que seja a sua queda, nunca é a pobre judia dos romances de época, em parte porque, como Pinto Coelho explica, a realidade italiana durante a Segunda Guerra Mundial era bem distinta da alemã, mas em parte também porque Pinto Coelho sabe o que faz. O romance não é sobre a banalidade do mal, nem sobre a força dos oprimidos, nem sobre os heróis da resistência. É uma história muito bem contada sobre a derrota e sede de vingança de uma mulher que, como todas as boas personagens, não representa nada para além de si mesma.

Ao percebermos que o III Reich serve apenas de pano de fundo para o que de facto se passa, torna-se difícil de entender a insistência de João Pinto Coelho em jogar em casa, situando todos os seus romances no período histórico que mais o fascina. É, por isso, ainda mais bizarro ler na nota do autor sobre o livro que “o mais importante (…) sucedeu realmente: com a chegada dos nazis, foram muitos os pitiglianesi que correram riscos para salvar os vizinhos judeus, escondendo-os dos alemães e, com isso, salvando-lhes a vida” (p. 397). Ainda que seja assinalável a coragem de todos os que resistiram, no chamado mundo real, ao nazismo, ao contrário do que João Pinto Coelho afirma, isto não é de todo a coisa mais importante que ocorre no romance. Aliás, isto mal chega a acontecer nas quatrocentas páginas da história. Por bizarro que possa parecer, a ficção é este lugar estranho onde o barulho que a mãe de Annina faz ao sorver a sopa é bem mais relevante do que todas as atrocidades cometidas pelo regime nazi. E João Pinto Coelho é sempre capaz de fazer justiça a estas subtilezas.

O único momento em que João Pinto Coelho parece estar a falar mais sobre aspetos específicos da realidade nazi e menos sobre o que poderíamos descrever de forma pomposa como a ‘condição humana’ é, então, quando compreendemos que duas mulheres judias se envolvem sexualmente com o que em ciência política se designa de “porco fascista” (p. 131). O motivo para esta atração, pelo menos num dos casos, aparenta ser tanto o poder político e económico da pessoa em causa como o facto de se tratar precisamente de um fascista. Esta ideia de um certo anti-semitismo judeu que aqui é analisado de forma bastante breve é pertinente e aparece recorrentemente também nas obras de Philip Roth e de Marcel Proust, parecendo em ambos os casos dizer-nos muito sobre a forma como a ideologia dominante trata as minorias, que conduz a que estas cresçam alimentando subconscientemente um enorme desprezo por si mesmas.

O romance é, então, mais do que sobre o que aconteceu na Toscana entre 1937 e 1945, sobre uma adolescente que alimenta sonhos triunfais e que, de repente, se vê forçada a ver dos bastidores outras raparigas ocuparem o seu lugar. É a história de uma jovem judia que se deixa apaixonar por ideias fantasmagóricas e que, ao mesmo tempo que se torna friamente consciente da vaidade dos seus desejos, se deixa ainda assim seduzir por eles. Sob esse ponto de vista, não há triunfo maior em Um Tempo a Fingir do que o da construção dessa criatura monstruosa que se entristece quando Annina sorri e que sorri quando Annina se entristece, uma criatura monstruosa que não deixa de trazer à memória tanto o monstro incompreensível invocado por Pascal nos seus Pensées, como o peixe encontrado na praia no final de La Dolce Vita: a criatura monstruosa que nós somos.

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