Nunca se falou tanto de autoestima como nos dias que correm e também é possível que esta dimensão nunca tenha sido tão posta à prova. Com a crescente imponência da publicidade e a proliferação de redes sociais, somos todos — a nível global — confrontados com imagens de pessoas fisicamente perfeitas e cujas vidas (igualmente perfeitas, claro) parecem ser sempre exemplos a seguir. Quem não tem uma autoestima elevada — por exemplo, quem duvida das suas aptidões ou não gosta do seu aspeto físico — corre o risco de não conseguir lidar com tamanha pressão, e as consequências podem fazer eco ao longo dos anos. Por isso, é fundamental ensinar os mais novos, desde muito cedo, não só a gostarem de si como também a perceberem todas as dinâmicas que podem afetar o amor próprio e a autoconfiança. O projeto Dove Pela Autoestima parte deste objetivo e direciona-se a crianças e jovens — mas também a pais, educadores e professores — para apoiar no propósito de fomentar o desenvolvimento da autoestima dos mais novos. Em Portugal, já impactou mais de 10.000 jovens nas escolas e conta com o apoio de psicólogas da Universidade do Porto e da EPIS (Empresários Pela Inclusão Social).

As estratégias seguidas pelo programa, criado em 2004, são muitas e passam, por exemplo, pela disponibilização gratuita de conteúdos online, incluindo vídeos, atividades, estudos e conselhos de profissionais. Nos recursos para pais e encarregados de educação, encontram-se artigos produzidos para favorecer o debate com os mais novos sobre temas como “Família, amigos e relações”, “Provocação e bullying” ou “Média e celebridades”, entre outros. Algumas atividades, como é o caso das mini-lições sobre confiança corporal, podem ser realizadas pelos jovens sozinhos, mas o ideal é que tenham o acompanhamento de um progenitor ou encarregado de educação.

Outra das vertentes do projeto diz respeito à disponibilização de conteúdos para professores, nomeadamente materiais de apoio à realização de workshops e promoção de debates nas escolas ou virtualmente, envolvendo a comunidade educativa.

Estereótipos e imagens irreais

Para avaliar a necessidade de implementação do projeto Dove Pela Autoestima nas escolas portuguesas — onde o programa chegou no ano letivo passado —, as psicólogas Sandra Torres, Raquel Barbosa e Filipa Vieira, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), reconhecem os inúmeros desafios diários trazidos pela ditadura da imagem: “Sabemos, atualmente, que a exposição a conteúdos relacionados com a imagem corporal, tanto ao nível da publicidade como nas redes sociais, parece aumentar o risco de desenvolver insatisfação corporal, quer em homens quer em mulheres”. Nas suas palavras, o efeito negativo deve-se a dois fatores: “Por um lado, estes meios retratam frequentemente imagens corporais inatingíveis, promovendo a internalização de padrões estereotipados e irrealistas de beleza. Por outro lado, a exposição recorrente a esses conteúdos promove comparações negativas sobre a própria aparência, podendo diminuir a autoestima corporal”.

A boa notícia é que existem formas de cada um se proteger do impacto das imagens e dos supostos padrões de beleza a seguir. “Em primeiro lugar, é importante aprendermos a apreciar o corpo, não apenas pela sua aparência, mas por tudo o que ele permite fazer”, referem, acrescentando que é também possível “desenvolver um filtro protetor relativamente a estes estereótipos, tendo consciência da natureza dos mesmos e valorizando a diversidade”.

Estratégias para praticar desde cedo

Uma vez que o contacto com aquele tipo de imagens começa cada vez mais cedo, é importante começar também precocemente a preparar os mais novos para esta realidade, treinando e reforçando a sua autoestima. “A apreciação do corpo e a autoestima constroem-se na relação com os outros”, salientam as especialistas, chamando a atenção para o importante papel dos pais e educadores: “As crianças nascem com necessidade de contacto, e se os cuidadores principais forem figuras disponíveis e sensíveis às necessidades da criança, irão proporcionar um clima de segurança para que esta cresça com confiança em si própria”.

São, assim, bem-vindos todos os comportamentos que passem por “fazer a criança sentir que tem valor intrínseco, que é amada por aquilo que é, transmitindo-lhe a segurança e estrutura necessárias”, nomeadamente através de “diálogo, manifestações de carinho, brincadeiras e tudo o que seja promotor de troca de afeto e de promoção de autonomia”, enumeram.

Reforçando estas estratégias, as investigadoras sublinham que “deve evitar-se tudo aquilo que transmita uma sensação de desvalorização pessoal, de afastamento emocional e de crítica destrutiva”. “Se os pais estiverem pouco atentos e sensíveis às necessidades dos seus filhos, muito preocupados com o que os outros pensam, com a imagem que é passada para o exterior e menos com o que os filhos são e sentem, estas crianças e jovens terão maior probabilidade de ser mais vulneráveis, inseguros, com níveis mais baixos de autoestima e autoconfiança”, concluem, destacando que a consequência poderá ser o desenvolvimento de pessoas “mais suscetíveis às pressões externas e acreditando que o investimento na aparência poderá ser a chave para o bem-estar”.

Educar pelo exemplo

Quando se fala na relação estabelecida entre pais e filhos nos primeiros anos, há que ter igualmente bem presente “a importância de se educar através do exemplo”. “As crianças e os adolescentes absorvem as mensagens e os comportamentos que os rodeiam”, realçam Sandra Torres, Raquel Barbosa e Filipa Vieira. Além disso, também “é importante que os pais promovam o desenvolvimento de um espírito crítico nos seus filhos, que falem abertamente e questionem em conjunto as mensagens que vão circulando no meio envolvente, e que ajudem as crianças e adolescentes a desafiarem e filtrarem essas mensagens”.

Claro que a escola não pode ficar de fora destas estratégias, com as especialistas a considerarem de igual forma que “será fundamental criar espaços de discussão, de desconstrução dos estereótipos veiculados em vários canais, seja através de programas escolares, da sensibilização dos professores ou do trabalho conjunto com os pais”.

Cuidar do corpo? Sim, claro

Impedir que a pressão social para ter um corpo perfeito domine as vidas dos mais (e menos) jovens é crucial, mas tal não significa que se deva deixar de prestar atenção ao físico, sobretudo porque este se interliga com as dimensões emocionais e psicológicas de cada um. A preocupação só surge quando se torna uma obsessão, advertem as psicólogas: “Podemos cuidar do corpo e da aparência de uma forma adaptativa, mas se, pelo contrário, a pressão para seguir um dado modelo de beleza se impõe e a aparência se torna uma característica central na autodefinição, então perde-se a capacidade de se valorizar outros atributos pessoais.”

Desta forma, defendem que “o exercício físico e a alimentação saudável fazem todo o sentido numa perspetiva de autocuidado, em que a principal motivação é o bem-estar”. Aliás, deixam até claro que “não é errado sentir-se prazer em obter uma aparência física satisfatória”, pois “o problema de seguirmos determinados fenómenos de moda é que esta motivação para o bem-estar normalmente passa para um segundo plano, dando lugar a outras motivações, como o peso corporal, a aceitação por parte dos outros ou a projeção de uma determinada imagem que se entende favorável”, avisam.

Entre as consequências negativas da atenção excessiva atribuída à imagem corporal, as especialistas indicam a prática obsessiva de exercício físico, o uso excessivo de suplementos ou as perturbações do comportamento alimentar, admitindo que, em simultâneo, “podem-se desenvolver quadros de depressão e ansiedade”.