Os resultados preliminares de um estudo da Universidade de Oxford sugerem que uma em cada cinco pessoas com Covid-19 obtém um diagnóstico de doença psiquiátrica 90 dias depois da infeção pelo novo coronavírus. As condições psiquiátricas mais comuns nestes doentes são a ansiedade, depressão, insónias e demência. Mas pode não ser o próprio vírus a provocar essas complicações.

O relatório, publicado na revista The Lancet, concluiu que “em pacientes sem historial psiquiátrico anterior, um diagnóstico de Covid-19 foi associado ao aumento da incidência de um primeiro diagnóstico psiquiátrico nos 14 a 90 dias seguintes em comparação com seis outros eventos de saúde” — gripe, outras infeções do trato respiratório, infeções cutâneas, colelitíase (cálculos de suco biliar na vesícula), pedra no rim e fratura de um grande osso.

As investigações foram realizadas com base no TriNetX Analytics Network, uma rede que recolhe os dados anónimos de registos eletrónicos de saúde em 54 organizações norte-americanas. Há 69,8 milhões de pacientes não identificados neste sistema, 62.354 dos quais foram diagnosticados com Covid-19 entre 20 de janeiro e 1 de agosto.

Os autores concluíram então que “a incidência de qualquer diagnóstico psiquiátrico nos 14 a 90 dias posteriores ao diagnóstico por Covid-19 foi 18,1% (para a gripe, foi de 13%), incluindo 5,8% que foram um primeiro diagnóstico” — ou seja, entre os doentes investigados, 18,1% receberam um diagnóstico psiquiátrico naquele prazo.

O estudo afirma também que “um diagnóstico psiquiátrico no ano anterior foi associado a uma maior incidência de diagnóstico de Covid-19” — ou seja, entre as pessoas que tinham sido diagnosticadas com uma doença psiquiátrica em 2019, parecia haver uma maior incidência de Covid-19. No entanto, “este risco era independente de fatores de risco para a saúde física conhecidos para a Covid-19”, alerta.

Há muito que a comunidade científica se questiona sobre as sequelas da infeção pelo novo coronavírus na saúde mental. Mas David Curtis, psiquiatra e professor britânico, sublinha à CNN que “é difícil julgar a importância dessas descobertas“:

Estes diagnósticos psiquiátricos costumam ser feitos quando as pessoas vão ao médico e pode não ser surpreendente que isto aconteça mais frequentemente em pessoas com Covid-19, que compreensivelmente podem ficar preocupadas com ficarem seriamente mal e que têm de aguentar um período de isolamento”.

Michael Bloomfield, psiquiatra britânico, explicou isso mesmo à Reuters: “Isso provavelmente deve-se a uma combinação de fatores psicológicos de stress associados a esta pandemia em particular e aos efeitos físicos da doença”.

É o próprio Paul Harrison, um dos autores do estudo em causa, que chamou a atenção para as limitações do estudo numa conferência de imprensa: como a investigação não revela porque é que, aparentemente, pode haver uma relação entre o desenvolvimento de Covid-19 e o diagnóstico de uma doença psiquiátrica, “precisamos de ser cautelosos na nossa interpretação e desfazer essa importante questão”.

Embora haja a hipótese de ser o próprio vírus SARS-CoV-2 a provocar estas doenças psiquiátricas, o estudo da Universidade de Oxford está longe de comprovar que esse é o caso. Os motivos podem começar a montante da infeção, com o próprio receio de contrair o vírus ou com as preocupações relativas à pandemia em si. Ainda assim, mesmo após um diagnóstico de Covid-19, é possível que os medicamentos administrados em cada caso tenham algum efeito na saúde mental.