A publicação de algumas imagens da decoração deste ano de edifícios municipais em Setúbal gerou indignação nas redes socais face ao “estilo Casa Branca” ou à “excentricidade” numa altura em que há “invisíveis a passar as noites em bancos de jardim” no mesmo concelho. A autarquia garante que a decoração custou apenas “cerca de três mil euros”, mas o gasto com iluminações de Natal para este ano, apurou o Observador, já ultrapassa os 200 mil euros na chamada “Setúbal Christmas Fest 2020”.

Começando pelas iluminações nos Paços do Concelho, a autarquia diz que “o valor do material utilizado no edifício dos Paços do Concelho e os trabalhos necessários para o instalar rondarão os três mil euros”, mas o contrato ainda não foi publicado no Portal Base e os valores dos anos anteriores estão distantes dos três mil euros.

Em 2019, a mesma empresa JM Beyond Interiores fechou um ajuste direto com a autarquia no valor de 17.430 euros (ao qual acresce o IVA totalizando 21.438,90€ conforme é visível na fatura emitida) para a “prestação de serviços para decoração dos edifícios municipais” no âmbito da iniciativa Setúbal Christmas Fest 2019. A mesma iniciativa teve lugar em 2018, com a decoração dos vários edifícios a ficar num total de mais de 5 mil euros (5.200 euros a que é necessário somar o valor do IVA, ultrapassando no final os 6.300 euros).

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Recuando a 2018, é possível ver quanto foi gasto no passado com o edifício-sede. Segundo a fatura emitida pela empresa JM Beyond Interiores (e sem contar com o valor do IVA) a decoração do edifício dos Paços do Concelho custou 1.300 euros, da Biblioteca Municipal 400 euros, da Casa da Baía 750 euros, do Fórum Municipal Luísa Todi 350 euros, do Moinho da Maré da Mourisca 300 euros, do Edifício Sado e Praça do Brasil 200 euros cada, do Forte de São Filipe 500 euros, da Casa da Cultura 300 euros, do Museu do Trabalho 400 euros e da Pousada da Juventude 500 euros. Tudo somado, em 2018 a autarquia gastou na decoração dos vários espaços municipais com a empresa JM Beyond Interiores pelo menos 5.200 euros. Mas gastou 1.300 com o edifício principal, menos do que os 3.000 gastos neste ano de crise.

Mas voltando ao Natal deste ano, não é apenas na decoração dos edifícios que a autarquia optou por investir. De acordo com os contratos já publicados no portal Base, com duas empresas (Ilmex e Plurianima) a autarquia já fechou contratos que ultrapassam os 200 mil euros para as iluminações de Natal no âmbito da iniciativa “Setúbal Christmas Fest 2020”.

Só a empresa Ilmex – Iluminação Portugal Unipessoal, Lda conseguiu dois contratos no valor total de 149.899 euros. Um dos contratos para a “iluminação da periferia da cidade” com um valor de 74.999 euros e outro para a “baixa e zona ribeirinha” de valor ligeiramente inferior: 74.900 euros. Ambos os contratos foram fechados na terça-feira e publicados esta quarta-feira, tendo um prazo máximo de execução de 60 dias.

Mas também a empresa Plurianima é responsável pelo “fornecimento e montagem de iluminação decorativa de Natal”, num contrato celebrado na última sexta-feira, com um prazo de execução de apenas 25 dias e um valor total de 53 mil euros.

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Mas não é só no que diz respeito à decoração dos edifícios a propósito da quadra natalícia que a empresa JM Beyond Interiores é escolhida. Desde 2017 que a empresa fechou 13 contratos com a autarquia de Setúbal tendo em vista o planeamento e decoração dos espaços do concelho. Sete dos contratos são deste ano e preveem a execução do projeto de decoração do Arquivo Municipal, da Casa das Quatro Cabeças, da baixa da cidade de Setúbal, da receção do Edifício dos Ciprestes, da zona de atendimento do Edifício Sado e do Clube de Oficiais. Dos cerca de 184 mil euros que a empresa já ganhou com a decoração e design de espaços da autarquia, mais de 100 mil são do corrente ano, sem contabilizar ainda os contratos para a decoração de Natal.

Em relação ao investimento feito na decoração dos edifícios. Em resposta ao Observador, a autarquia diz que encara a iniciativa como “um investimento” que “atraiu ao edifício mais de dez mil pessoas em cada ano”. Mas o fluxo de visitantes este ano terá que ser naturalmente menor, atendendo aos constrangimentos decorrentes das regras impostas para controlar a propagação da Covid-19. Será pouco expectável que, este ano à semelhança de anos anteriores, “muitas pessoas se desloquem propositadamente ao edifício ou venham de outras regiões do país”, como a autarquia frisa ter acontecido em anos anteriores.

Sobre a polémica em torno do valor gasto e no apoio que podia ser canalizado para outros problemas decorrentes da Covid-19, a autarquia setubalense argumenta que “os problemas sociais existentes em Setúbal não são diferentes dos que existem noutras cidades” e que “entre março e maio deste ano nunca deixou de apoiar das mais variadas formas os que necessitavam de ajuda, nomeadamente fornecendo apoio alimentar, além de outros apoios e isenções em taxas que representaram uma despesa de várias centenas de milhares de euros”.