A situação é, nas palavras de Luís Gusmão, um dos promotores da Concentração pelo Mundo Rural, “mais grave do que parece”. Os caçadores dizem não entender a decisão do Governo de proibir a prática de caça e pesca lúdica nos 121 concelhos de risco elevado devido à Covid-19 e pedem que se mude ideias já na reunião do Conselho de Ministros desta quinta-feira, integrando estas atividades como exceções previstas no estado de emergência. Se tudo continuar igual, haverá um protesto nas ruas de Lisboa.

“Se estamos ao ar livre, estamos a praticar uma atividade que tem um risco muito pequeno. Sinto-me muito mais protegido no campo, sozinho”, refere Luís Gusmão em entrevista à Rádio Observador, acrescentando que neste momento há “milhares de caçadores parados em Portugal” e que a situação pode ter consequências muito negativas não só para a caça mas para setores como a hotelaria e a restauração.

Concentração pela defesa do mundo rural lamenta disparidade nas regras: “Podemos ir ao supermercado, mas não podemos andar no campo”

Segundo dados citados pela agência Lusa, a caça representa em Portugal, anualmente, receitas de 450 milhões de euros, envolvendo 240 mil caçadores registados e cerca de 5.400 entidades concessionárias de zonas de caça, assim como milhares de postos de trabalhos permanentes e temporários, diretos e indiretos, em especial nas zonas rurais.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) publicou no domingo que, no seu entendimento, era proibido caçar nos 121 concelhos, mas deixou-nos a porta aberta, e muito bem, para praticarmos os controlos de densidade aos javalis, por causa da praga da peste suína, dos acidentes nas estradas e dos estragos que fazem à agricultura. Ora, se neste momento o Governo nos deixa fazer isso, entendemos que, sob as mesmas regras, nos deixem praticar o ato venatório em segurança e em total liberdade”, explica Luís Gusmão.

O Mundo Rural fala numa decisão “inexplicável” por parte do ICNF. “É inexplicável que o ICN, após tão árduo trabalho em cobrar milhões de euros em taxas, licenças, e que devia sobretudo defender e salvaguardar estas atividades, venha a ter uma atitude tão prejudicial com as mesmas, quando são estas, praticadas cumprindo com as regras da Direção Geral de Saúde [DGS] as que menos risco acarretam em termos de contágio de Covid-19”, refere a organização em comunicado.

“É uma injustiça parar a caça e a pesca”

O mesmo movimento diz ainda ser “chocante e leviana a total ausência de base científica para justificar esta proibição”, relembrando que foi celebrado um protocolo com a DGS para que tudo fosse realizado em segurança. Estas atividades, acrescenta, “são a alma, o sal da vida de milhares de portugueses que as praticam, para ganhar força para aguentar a semana seguinte de trabalho, ocupar os seus tempos livres, em claro benefício pessoal, físico e psicológico.

Iremos aguardar pelo conselho de ministros da próxima quinta feira, dia 12 de Novembro de 2020 e,  caso a proibição do ICNF não seja revogada e alvo de interpretação favorável ao exercício de toda a atividade venatória e pesca lúdica, considerando-as como atividades essenciais à economia das áreas desfavorecidas, que obedecem a recolhimento, no âmbito do Estado de Emergência, iremos organizar uma marcha lenta, em Lisboa, às 8h, em dia e local já determinado, que só será divulgado com 24h de antecedência para impedir que, ao abrigo de regras especiais de segurança, a mesma venha a ser impedida ou boicotada”, reforça o movimento Mundo Rural.

A expectativa, diz Luís Gusmão, é que a decisão seja alterada esta quinta-feira. Se isso não acontecer, e se a marcha lenta vier mesmo a acontecer, o responsável garante que serão cumpridas todas as regras de segurança. “Será um caçador, um manifestante por carro, devidamente protegido, como qualquer cidadão faz num dia normal de trabalho”, assegura. Para já, fica um pedido: “Apelo à boa vontade dos nossos governantes para que percebam que estou muito mais seguro sozinho, no campo, do que estarei num shopping qualquer de uma capital de distrito”.