O ex-ministro da Saúde Correia de Campos traçou esta quinta-feira um quadro crítico da gestão social da pandemia, atirando à “proliferação de cientistas” e às críticas a uma falta de planeamento da segunda vaga, que considerou “irrelevante” num “quotidiano mutante”.

Na conferência online intitulada “Covid-19: O Regresso da Peste?”, que reuniu académicos e especialistas da área de saúde, o ex-ministro da Saúde do governo de José Sócrates e professor catedrático jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública, traçou um quadro de “doenças sociais e comorbilidades sociais” associadas à Covid-19, instigadas por ignorância, inconsciência, medo e revolta.

Sobre as críticas à falta de planeamento para uma segunda vaga da pandemia, “esperada em janeiro e que chegou em setembro”, Correia de Campos reconheceu que ela existe, mas defendeu que “caem no vazio as acusações de falta de plano entre ondas pandémicas”, algo “impossível quando todos os dias a mente está concentrada em apagar fogos”, num contexto de alterações constantes, pelo que a “preguiça planeadora foi irrelevante”.

O comentário mais comum hoje é a crítica à suposta falta da planeamento da segunda vaga, como se fosse possível planear o imprevisto, o quotidiano mutante, disciplinar o vírus a atuar apenas nos dias ímpares ou fazer surgir da noite para o dia profissionais cuja gestação exige dez anos. Em circunstâncias normais os políticos lideram as opiniões, agora são as opiniões avulsas e erráticas que pretendem liderar os políticos, disse Correia de Campos, que se mostrou crítico da “proliferação de cientistas” e especialistas nos media.

“Do nada surgem dezenas de cérebros privilegiados”, disse o ex-ministro, que, adaptando os versos de Luís Vaz de Camões, ironizou: “Ditosa pátria que tantos e tão bons filhos tem”.

Para Correia de Campos “esta ‘overdose’ mais opinativa do que analítica começa a cansar”, sendo precisamente de cansaço mediático, defendeu, que sofrem a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, e a ministra da Saúde, Marta Temido, “elevadas aos píncaros da popularidade”, que depois da “subida ao céu mediático”, conhecem agora a “descida ao inferno opinativo”.

“Temos comentadores a pedir semanalmente a cabeça da ministra da Saúde e ela resiste incólume, os mercantilistas a exigirem mercado sem realmente o oferecerem e este a fugir-lhes para o público, os privados a clamarem pelo banquete e afinal a comida é-lhes distribuída com parcimónia. As cassandras a anunciarem que para a semana será a rotura — dos hospitais, do material – e, todavia, os hospitais teimam em resistir”, disse.

O país, “em vez de unir-se está a tender a dividir-se”, está “mais áspero”, afirmou Correia de Campos, que em termos políticos, no entanto, vê um Governo com união e colaboração do Presidente da República, “sempre ao seu lado ou até mesmo à sua frente, oferecendo o peito a balas” e uma oposição “entre o cooperante e o construtiva, que muitos até consideravam dócil demais”.

À gestão da pandemia faltam recursos humanos, que levam anos a formar e que o país perde para a emigração ou para o setor privado, falta uma maior ligação entre Saúde e Segurança Social, e “insuflar energia às tropas”, defendeu Correia de Campos, que apontou “comandantes cansados e polarizados na informação que julgam a pedra filosofal da sua sobrevivência, generais com baixa moral, apesar de respeitados, quadros médios esquecidos e executantes remunerados com palmas e loas”. “Substituí-los será erro maior, é forçoso criar um espírito de corpo, um afago de camisola para penetrar o ego, passar do simbólico ao efetivo”, acrescentou.

Defendeu ainda que não falta disciplina aos cidadãos, que, “aprende-se na tropa, tem que ser consentida e não imposta”. “Consentimento implica informação, sem ela há apenas subserviência. Boa informação, não excessiva nem repetitiva, exige comunicação de alta qualidade, os tempos que correm são exigentes”, concluiu.

Portugal contabiliza pelo menos 3.181 mortos associados à Covid-19 em 198.011 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).