Em 2020, o Alkantara, que até aqui se deixava ver de dois em dois anos, cansa-se da espera e efetiva-se de forma anual, sempre neste tempo invernoso e que tão bem aquecido por estas propostas artísticas pode ser. Carla Nobre Sousa e David Cabecinha assumem a pasta deixada disponível pelo belga e ex-diretor artístico Thomas Walgrave. O festival, que ganhou dois dias e que vai apresentar alguns espectáculos pela matina devido às medidas de combate à Covid-19 apresentadas pelo Governo para os próximos dois fins-de-semana, propõe 19 espectáculos/projetos artísticos que se dividem pelo CCB, Culturgest, São Luiz, LuxFrágil (via Teatro do Bairro Alto) e Teatro Nacional D. Maria II. São nove estreias absolutas e quatro estreias nacionais, com as questões identitárias em destaque. Eis seis espectáculos que consideramos imperdíveis — e aconselhamos tudo o resto, se tiver tempo, saúde e carteira para tal.

Still Dance for Nothing (2020)

Culturgest, sexta 19h00, sábado e domingo 11h00, 6-12€.

“Still Dance for Nothing (2020)” é a série onde a criadora húngara convidará diferentes performers para pensar novas texturas a partir da fundação do solo de 2010

Em 2010, servindo-se da palestra de um dos mais influentes artistas (também filósofo) do século XX, John Cage, conhecida como Lecture on Nothing (1949), Eszter Salamon criou Dance for Nothing. Um solo onde a coreógrafa e artista visual partia da ideia de conferência para cumprir duas partituras simultaneamente: a primeira de cariz coreográfico e a segunda de cariz textual-musical (uma espécie de música das palavras). No fundo, dançar e falar no mesmo momento. Still Dance for Nothing (2020) é a série onde a criadora húngara convidará diferentes performers para pensar novas texturas a partir da fundação do solo de 2010. O primeiro capítulo dessa obra contínua acontece aqui, no Alkantara, com a performer portuguesa Vânia Doutel Vaz, que já conhecia Eszter Salamon de outras núpcias.

Heading Against the Wall

LuxFrágil, sexta e segunda 19h00, 6-12€

A companhia de Joana Dilão, Paula e Mariana Sá Nogueira volta a juntar-se a André Godinho

E aí vão sete. Os gatos têm sete vidas, Lisboa tem sete colinas e a união do Cão Solteiro e André Godinho tem sete espectáculos. Começaram em 2017 a explorar, cenicamente, as fronteiras entre teatro e cinema, adicionando-lhe bastantes vezes uma pitada de música, ironia à fartazana, loucura quanto baste. Basta pensar no recente Could Be Worse: The Musical, que ainda o ano passado nos atirou para uma espécie de reunião dos artistas anónimos. A companhia de Joana Dilão, Paula e Mariana Sá Nogueira, em conjunto com o realizador português, alegam partir de uma impossibilidade, talvez daí o título. Dão-nos dois objetos, um para ver em casa e um para ver ao vivo, no Lux (que nos próximos tempos acolhe as produções do Teatro do Bairro Alto). São diferentes, portanto é escolher.

Tafukft

São Luiz, terça (17 de nov) e quarta (18 de nov) 19h00, 6-15€

“Tafukt” é a primeira parte de uma trilogia que dialoga com a identidade do povo Imazighen, do Norte de África

Há gente que cuja companhia nunca é de mais. Radouan Mriziga é um desses casos, um já velho (ainda que seja novo, nasceu em 1985, em Marraquexe) conhecido do festival, que aqui apresentou 55 (em 2016) e 7 (em 2018), sempre explorando as dinâmicas de um pensamento arquitetónico aplicado à dança. O coreógrafo e bailarino marroquino guia-nos, desta vez, por Tafukt (estreia absoluta), a primeira parte de uma trilogia que dialoga com a identidade do povo Imazighen, do Norte de África. Um solo para a bailarina Maïté Jeannolin, que vestira a sabedoria da deusa Atena, nascida na Líbia, antes de ser adotada pelos gregos — parte sempre ignorada da história.

Farci.e

LuxFrágil, quinta (19 de nov) e sexta (20 de nov) 19h00, sábado (21 de nov) 11h00, 6-12€

“Farci.e” é um espectáculo que parte da língua persa, o farsi, para pensar a identidade

Artista autodidata iraniano, Sorour Darabi trocou Teerão por Montpellier para estudar coreografia. E é precisamente na sequência desses estudos que se decide a criar Farci.e, um espectáculo onde parte da língua persa, o farsi, para pensar a identidade. É que Sorour Darabi assume-se como alguém de género não binário — utiliza até o termo “s.he”, em inglês — e em farsi não se distingue “ele” de “ela”, é tudo igual. Ora fugindo ao preconceito existente no seu país em relação a artistas com corpos de trabalho como este — ousados, intensos, sem pudores nenhuns — Darabi foi à procura de refúgio no francês e no inglês, na Europa para onde veio aprofundar os seus conhecimentos e posicionamento, uma liberdade que não tinha. Farci.e é um monólogo onde as palavras viram dramaturgia corporal.

Cutlass Spring

LuxFrágil, quarta (25 de nov) e quinta (26 de nov) 19h00, 6-12€

“Cutlass Spring” é uma deambulação da artista de Montreal sobre diversas questões ligadas à sexualidade

Mais um bocado e estragavam-nos a coisa. Já não poderíamos dizer: esta é a primeira vez que a essencial e importantíssima coreógrafa canadiana Dana Michel apresenta o seu trabalho em Portugal. E isso não seria bonito. Nem encorajador. Assim sendo, está tudo bem. Cutlass Spring é uma deambulação da artista de Montreal sobre diversas questões ligadas à sexualidade. Por exemplo, tentar captar a sua identidade sexual a partir de vários ângulos, que são também personagens distintas da sua vida — intérprete, mãe, filha, amante, estranha. No fundo, o que pensa hoje Dana Michel sobre sexo, como se posiciona, como se deixa observar. É aquilo que a mesma chama de “arqueologia do desejo”. É Dana Michel, gente.

L’Homme rare

TNDMII, quinta (26 de nov) e sexta (27 de nov) 19h00, 4,5-16€

Se um homem fizer um twerk de alta intensidade, deixará de ser homem?

Foi na maior cidade da Costa do Marfim, Abidjan, em 1981, que Nadia Beugré nasceu e se aproximou da dança através da Dante Théâtre, companhia local que explora as formas tradicionais do seu país. Depois, estudou coreografia no Senegal e em Montpellier e começou a criar solos, aos quais se seguiram criações para grupos e trabalhos como intérprete com gente tão importante como Boris Charmatz ou Faustin Linyekula. Este L’Homme rare é Beugré a pensar as questões de género. Se um homem fizer um twerk de alta intensidade, deixará de ser homem? A artista costa-marfinense estreia-se em território português à boleia do Alkantara e logo no Teatro Nacional D. Maria II.