O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) classificou esta quinta-feira de “arriscada e irresponsável” a inclusão de médicos internos, ainda em formação, nas equipas de Cuidados Intensivos de hospitais de Santa Maria da Feira e Lisboa.

Em declarações à Lusa, o secretário-geral do SIM disse estar em causa a inclusão desses formandos nas equipas que acompanham os casos mais graves de internamento por Covid-19 no Hospital São Sebastião, localizado na Feira, no distrito de Aveiro, e também “em muitos outros locais do país”, entre os quais realça o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central.

Sabemos muito bem que isto é uma medida para fazer face à pandemia, mas é uma opção arriscada e irresponsável porque os médicos internos não têm capacidade, nem competências, nem a obrigação de estarem escalados para equipas de Cuidados Intensivos. Muitos deles – como os de Neurologia ou Reumatologia – nem sequer têm no seu plano curricular a obrigação de fazer Urgência Geral, portanto muito menos Cuidados Intensivo”, explicou Jorge Roque Cunha.

O dirigente acrescenta que os médicos internos “estão nos hospitais para aprender, têm sido muito corajosos e vêm fazendo mais do que lhes compete”, pelo que, “mesmo estando acompanhados por profissionais mais experientes” nas equipas de cuidados intensivos, não se lhes pode exigir um trabalho adicional que os faz “arriscar a vida e a sua sanidade mental, e nem sequer conta como tempo de formação”.

Defendendo que os hospitais não podem ser desresponsabilizados pela “situação de risco profissional e legal em que estão a colocar esses internos, mais sujeitos a pressões hierárquicas pela sua posição de formandos”, Jorge Roque Cunha diz que a culpa maior é do Governo, que “faz de conta que o Sistema Nacional de Saúde é o ‘País das Maravilhas’ quando a realidade é totalmente diferente”.

“Ainda hoje o Governo prepara mais decisões quanto à mobilidade das pessoas, mas não pensa tomar medidas quanto à luz vermelha que a falta de médicos está a fazer acender nos hospitais, que não têm condições para contratar profissionais e, em alguns casos, como o de Lisboa, ainda disfarçam o problema para não terem que assumir essa incapacidade”, diz o dirigente do SIM.

Para Jorge Roque Cunha, a inclusão dos internos nas equipas de intensivismo reflete “uma atitude totalmente inqualificável” e o problema ainda é acentuado quando um diretor clínico como Pedro Soares Branco, do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, “faz uma distinção entre médicos voluntários e médicos compulsivamente voluntários, o que teria graça num espetáculo de ‘stand-up comedy’ se não fosse tão grave”.

O secretário-geral do SIM defende, por isso, que direções hospitalares e Ministério da Saúde precisam convencer-se que, “se houver um problema nessas equipas, a responsabilidade terá que ser imputada aos conselhos administrativos” das respetivas unidades.

“Não é com internos que isto se resolve. A única solução é contratar médicos e não é pagando-lhes 18 euros brutos à hora, como aconteceu ainda recentemente em Penafiel, que o Governo vai conseguir arranjar os profissionais de que precisa. Por esse preço, claro que todos eles preferem ir trabalhar para o estrangeiro ou para o setor privado, onde são bem tratados, lhes falam com respeito e ainda lhes reconhecem o esforço”, afirma.

O administrador do Centro Hospitalar do Entre Douro e Vouga, por sua vez admite que o recurso a médicos internos nas equipas de cuidados intensivos do Hospital São Sebastião é uma forma de contornar a incapacidade de contratar mais profissionais, “até porque não há gente disponível no mercado”, mas nota que esses formandos “só estão a ser chamados para horários diurnos” e vêm sendo afetos sobretudo a “tarefas de apoio”.

“Até aqui os doentes-covid em Cuidados Intensivos eram acompanhados por um médico especialista em Medicina Intensiva e outro em fase de especialização também em Medicina Intensiva. Mas como os casos de internamento têm aumentado muito, entendemos por bem reforçar essas equipas de dois médicos com um terceiro elemento, dos internos, para eles ajudarem durante o dia – que é quando há mais serviço – em coisas relativamente mais simples, como registos”, explica Miguel Paiva.

Do leque de formandos a considerar para esse reforço estão a ser escolhidos “os mais experientes entre os médicos internos, que são os que já estão a fazer a especialidade”. Em todo o caso, o administrador do São Sebastião insiste que esta é “uma medida de recurso por se estar numa pandemia”.

Antes da Covid-19 tínhamos 11 camas de cuidados intensivos e, fruto das necessidades da região, agora temos 28. Não se podia fazer face a este crescimento com as mesmas equipas e tivemos que nos reinventar”, conclui Miguel Paiva. Contactado pela Lusa, o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central não quis comentar o assunto.