14 de abril de 1946. Portugal recebeu França, em Lisboa, e ganhou por 2-1- António Araújo e Peyroteo marcaram os golos portugueses, Vaast respondeu do lado dos franceses. A Seleção Nacional, orientada por Tavares da Silva, tinha também Serafim, Artur Quaresma e Rogério Pipi e essa foi a terceira vez consecutiva que bateu os gauleses em casa. Foi também a última vez que Portugal venceu França em território português. Há 76 anos.

De lá para cá, tudo mudou. Os franceses ganharam em Portugal em 1947, em 1957, em 1983, em 1997 e em 2015. Este sábado, mais do que as contas do grupo da Liga das Nações, também essa contabilidade estava em jogo no Estádio da Luz. Depois da vitória na final do Europeu, há quatro anos e em Paris, nenhuma outra altura parecia melhor do que esta para a Seleção Nacional derrotar finalmente França no próprio território.

Ficha de jogo

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Portugal-França, 0-1

Fase de grupos da Liga das Nações

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Tobias Stieler (Alemanha)

Portugal: Rui Patrício, João Cancelo, José Fonte, Rúben Dias, Raphael Guerreiro, Danilo (Sérgio Oliveira, 85′), Bruno Fernandes (Moutinho, 71′), William Carvalho (Diogo Jota, 56′), Bernardo Silva (Trincão, 71′), João Félix (Paulinho, 85′), Cristiano Ronaldo

Suplentes não utilizados: Anthony Lopes, Rui Silva, Nélson Semedo, Rúben Semedo, Pedro Neto, Rúben Neves, Mário Rui

Treinador: Fernando Santos

França: Lloris, Pavard, Varane, Kimpembe, Lucas Hernández, Kanté, Rabiot, Pogba, Coman (Thuram, 59′), Martial (Giroud, 78′), Griezmann

Suplentes não utilizados: Mandanda, Maignan, Lenglet, Aguilar, Tolisso, Nzonzi, Sissoko, Zouma, Digne, Dubois

Treinador: Didier Deschamps

Golos: Kanté (53′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Danilo (31′), a Lloris (62′), a Kanté (79′), a Lucas Hernández (82′)

Depois da goleada imposta a Andorra, no particular da passada quarta-feira, a equipa liderada por Fernando Santos tinha este sábado um jogo decisivo para o apuramento para a final four da Liga das Nações. Com os mesmos 10 pontos que França no Grupo 3, uma vitória deixava Portugal apurado para a fase final da competição que conquistou em 2019; uma derrota, por outro lado, deixava os franceses com a possibilidade de poderem lutar por outro título depois do Mundial 2018. Um empate, tal como o de Paris há cerca de um mês, deixava tudo adiado para a última jornada.

Na antevisão, Fernando Santos garantia que a postura era de “respeito, mas não de subserviência”. “Os jogadores estão comigo há seis anos e sempre ouviram a minha proposta e a minha proposta é ganhar. E se queres ganhar, a primeira coisa que tens de fazer é marcar golos. Sem golos, quanto muito, empatas. É ter dinâmicas diferentes, criatividade, qualidade. Agora, sempre disse que estamos mais perto de ganhar quando não sofremos, mas isso é evidente, é a única verdade do futebol. O resto são conjunturas. O que é certo é: se não sofrer não perde. Mas, para nós, o objetivo claro é ganhar. Está lá sempre escrito no quadro. E depois diz: organização, concentração, paixão e confiança. Sempre disse isto desde o primeiro momento”, garantiu o selecionador nacional que, depois do jogo com Andorra, tinha sublinhado que não iria atuar com quatro avançados no onze: ou seja, que entre Bernardo, João Félix e Diogo Jota, um iria começar no banco.

E a balança caiu para o lado do avançado do Liverpool. Contra os franceses, Fernando Santos colocava em campo um onze muito semelhante ao último oficial, contra a Suécia, em outubro: trocava Pepe, que está lesionado, por José Fonte, e entrava Cristiano Ronaldo, que na altura estava infetado com Covid-19, para a saída precisamente de Diogo Jota. No meio-campo, de forma já habitual, estavam Danilo, William e Bruno Fernandes. Do outro lado, Didier Deschamps não podia contar com Mbappé, que ainda esteve com a comitiva e fez treino específico mas não recuperou a tempo da lesão, e com Ben Yedder, que testou positivo. Nas opções iniciais apareciam então Martial e Coman (e não Giroud) no ataque, apoiados por Griezmann, com Rabiot, Kanté e Pogba no meio-campo, apesar das críticas que quase todos os jornais franceses fizeram ao médio do Manchester United depois da derrota no particular com a Finlândia a meio da semana.

A primeira oportunidade do jogo até pertenceu a Portugal, com um remate de Cristiano Ronaldo que Lloris afastou (7′), mas a partida demorou a ganhar algum ritmo. João Félix tombava na esquerda, Bernardo no lado contrário, e Raphael Guerreiro tinha pela frente Kingsley Coman, o avançado que em agosto decidiu a final da Liga dos Campeões para o Bayern Munique — algo que acabou por revelar-se um dos grandes problemas para a seleção portuguesa este sábado. Coman obrigou Rui Patrício à primeira grande intervenção da noite com um remate forte depois de deixar o jogador do Borussia Dortmund fora do lance (11′) e viu o guarda-redes do Wolverhampton, logo depois, evitar o golo de Martial na sequência de um passe de rotura de Griezmann (12′).

Foi a partir desta altura que França começou a impor o jogo que queria jogar. Na frente de ataque, Martial, Coman e Griezmann tinham uma mobilidade acima da média — algo intencional, que Deschamps quis fomentar ao lançar o avançado do Bayern ao invés de Giroud — e tornavam simples desbloquear uma defesa portuguesa que costuma ser sólida mas que este sábado estava descompensada. Rabiot também ficou perto de marcar, com um cabeceamento ao lado (18′), e Portugal só conseguia criar perigo de longe, com Bruno Fernandes a rematar de fora de área para uma defesa fácil de Lloris (20′).

Para além de frágil defensivamente, a Seleção Nacional estava demasiado longe do meio-campo adversário e tinha pouca bola — algo que prejudicava jogadores como Bernardo Silva, que não só não conseguia ter influência como estava sempre afastado do centro de ação, já que Portugal jogava principalmente pelo corredor esquerdo. A equipa portuguesa só conseguia atacar através de transições rápidas, que normalmente não tinham grandes consequências junto à baliza de Lloris, e tinha dificuldades na hora de recuar e bloquear as investidas francesas. Martial teve outras duas oportunidades importantes, com um remate à malha lateral (27′) e um cabeceamento à trave (31′), e Rui Patrício voltou a ser decisivo com uma defesa enorme a outra ocasião do avançado do Manchester United (41′).

A primeira ação de Portugal na área adversária apareceu aos 37 minutos, por intermédio de Danilo e na sequência de uma bola parada, e a melhor oportunidade surgiu mesmo em cima do intervalo, com um cabeceamento por cima de Ronaldo (45′) — dados que ilustravam a superioridade francesa na partida. No fim da primeira parte, a Seleção podia agradecer principalmente à enorme exibição de Rui Patrício e a uma pontinha de sorte por ainda não estar a perder, para além de que teria de subir muito a qualidade apresentada para procurar outro resultado.

No início da segunda parte, nenhum selecionador fez alterações — ainda que Fernando Santos tenha deixado clara a intenção de mexer assim que achasse pertinente, já que lançou Diogo Jota, João Moutinho e Sérgio Oliveira de imediato para exercícios de aquecimento. Portugal voltou melhor, com maior capacidade de retenção da posse de bola e a fechar os caminhos do ataque adversário. Principalmente de Griezmann, que tinha sido o grande dinamizador francês na primeira parte e que parecia ter menos espaço para desequilibrar na segunda. Ainda assim, e sem que a Seleção tivesse criado uma verdadeira oportunidade de golo, acabou por ser França a abrir o marcador.

Rabiot e Griezmann combinaram na esquerda, o médio da Juventus rematou cruzado e obrigou Rui Patrício a uma defesa apertada para a frente. Na recarga, sem oposição, Kanté apareceu a encostar para a baliza deserta (53′). Fernando Santos reagiu desde logo com uma alteração que deixava perceber que o selecionador nacional queria arriscar e lutar pela presença na final four da Liga das Nações, ao trocar William por Diogo Jota e passar a atuar com quatro avançados e apenas dois médios (ainda que Jota e Bernardo fechassem mais atrás, nas alas, no movimento defensivo). Nesta fase, José Fonte teve uma enorme oportunidade para empatar, com um cabeceamento ao poste na sequência de um lance de insistência de Portugal (60′), mas era França quem parecia continuar com o ascendente da partida e com muita facilidade em entrar no último terço adversário.

Fernando Santos ia pedindo que a equipa atuasse mais junta e parecia ser esse um dos grandes problemas de Portugal: os setores estavam afastados, totalmente partidos e desfasados, sem alcançar uma coesão que podia permitir não só maior organização ofensiva como também superior inteligência ofensiva. Depois apareciam — ou não apareciam — as individualidades. Ronaldo não teve muita bola, Bernardo e Félix quase não tiveram intervenção no jogo, Diogo Jota não teve impacto quando entrou, Bruno Fernandes estava desinspirado e João Cancelo ia cumprindo uma das exibições mais apagadas ao serviço da Seleção.

Trincão e Moutinho entraram a 20 minutos do apito final: o primeiro para oferecer ainda maior mobilidade ao ataque português, o segundo para dar consistência ao meio-campo. O médio do Wolverhampton entrou bem na partida e não só teve uma boa oportunidade nos pés, com um remate de longe que Lloris defendeu (75′), como catapultou a equipa para um dos seus melhores períodos, a passar grande parte do derradeiro quarto de hora instalada no último terço adversário e com lances muito perigosos para o guardião francês.

Paulinho e Sérgio Oliveira também foram opções mas o melhor período da seleção portuguesa chegou tarde. França conseguiu gerir até ao fim, apesar dos sustos já nos últimos minutos, venceu novamente em Portugal e garantiu a presença na final four da Liga das Nações. A Seleção Nacional não perdia há mais de um ano, desde a derrota com a Ucrânia na qualificação para o Europeu em outubro de 2019, e fica assim sem a possibilidade de defender o título que conquistou no Dragão em junho do ano passado. N’Golo Kanté, o homem que tem o golo no nome, foi o suficiente para derrotar uma equipa que esta noite não teve golo nas veias.