Os pneumologistas alertam para a diminuição do número de primeiras consultas em oncologia pneumológica e pedem aos doentes que não deixem de ir aos hospitais porque o risco de não tratar a doença é maior.

“Temos tido uma diminuição grande do número de primeiras consultas em oncologia pneumológica, o que é preocupante. Sabemos que este tipo de tumor [cancro do pulmão] habitualmente se diagnostica numa fase mais avançada e, se os doentes têm medo de ir às consultas e atrasam a procura de um médico, pode fazer com que [a doença] seja diagnosticado numa fase ainda mais avançada, em que as opções terapêuticas já são menores”, disse à agência Lusa Ana Figueiredo, do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão.

A pneumologista garante que os hospitais “estão preparados” para receber os doentes em segurança e sublinha: “o risco de ficar em casa para se proteger e não tratar uma doença destas é francamente maior do que o risco de ir ao hospital”.

A especialista do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra diz ainda que qualquer sintoma respiratório, como falta de ar, tosse e expetoração com sangue, ou mais geral, como o emagrecimento, a falta de apetite e um maior cansaço, devem ser sinais de alerta para que se procure um médico.

“E importante que não deixem de ir para se fazer um diagnóstico, seja ele qual for”, acrescenta.

Ana Figueiredo reconhece que a pandemia complicou estes diagnósticos pois ao medo do doente em ir ao hospital junta-se o facto de os exames agora demorarem mais tempo a fazer – pois os equipamentos têm de ser desinfetados após cada utilização – e de os doentes terem de fazer uma zaragatoa prévia para confirmar que estão negativos para o novo coronavírus.

A pneumologista, que fala nas vésperas do Dia Mundial do Não Fumador, que se assinala na terça-feira, frisou ainda a importância de desmistificar as novas formas de tabaco, muito usadas pelos mais jovens, lembrando: “Ainda não podemos ter certezas absolutas pois (…) são precisos anos de utilização [de tabaco] para que comecem a aparecer doenças”.

“Já foi assim com o tabaco convencional e vai ser a mesma coisa com estas novas formas de consumir tabaco”, afirmou.

Os últimos dados do “European School Survey Project on Alcohol and other Drugs (ESPAD)”, divulgados na sexta-feira, indicam que, entre 2015 e 2019, o consumo de tabaco convencional e de tabaco eletrónico entre os jovens baixou.

Este relatório, que permite acompanhar as tendências europeias no que diz respeito à evolução dos comportamentos aditivos entre jovens de 16 anos, refere ainda que Portugal é o segundo país com menos consumidores de cigarros eletrónicos.

Ainda assim, a pneumologista considera importante que os jovens saibam que “já foram identificadas substâncias ao nível do fumo que têm produtos tóxicos e que, em modelos animais, [conseguiu perceber-se que] pode haver o aparecimento de doenças oncológicas com a utilização deste tipo de tabaco”.

“Os mais jovens têm de estar atentos (…). É uma questão de moda, de publicidade, de produtos que são publicitados como sendo menos maléficos para a saúde, mas temos sempre de ter a noção de que não são inócuos”, disse.

“Nós não somos feitos para respirar seja o que for a não ser ar e todas estas substâncias [dos cigarros eletrónicos], mesmo que no limite não provocassem cancro, de certeza que provocariam irritação e podiam provocar alergias ou outro tipo de situações que seriam definitivamente lesivas para a nossa saúde”, acrescentou.

A especialista sublinhou ainda que os doentes que fumam “são mais sensíveis aos efeitos da covid-19” e lembra os fumadores dependentes que um dos gestos que se deve evitar por causa do contágio é levar a mão à boca, o que acontece dezenas de vezes sempre que se fuma um cigarro.

“O fundamental é não fumar e era por aí que devíamos ir. Mas é preciso entender que há fumadores dependentes e que não é nesta altura que vão deixar de fumar. Para estes, é importante deixar a chamada de atenção para que lavem sempre as mãos antes e depois de fumar”, alertou.

Em Portugal, o cancro do pulmão é o 4.º tipo de cancro mais comum — logo a seguir aos da mama, próstata e colorretal. Em 2018, foram registados 5.284 novos casos.