Portugal regista uma incidência cumulativa de 760 casos por cem mil habitantes a 14 dias de casos do novo coronavírus, um indicador que deixa o país em décimo lugar a nível europeu. Os números foram avançados na tarde desta sexta feira pela diretora geral de Saúde, Graça Freitas, numa conferência de imprensa que contou ainda com a presença de Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, e de André Peralta, diretor de serviços de Informação e Análise da DGS.

Há, como todos sabem, assimetrias regionais, a região norte, com 1304 casos por cem mil habitantes, é a mais afetada”, começou por explicar Graça Freitas, no dia em que foram finalmente divulgados os dados por concelhos que levaram o Governo a criar uma lista de risco com maiores e menores restrições há quinze dias.

A DGS reforçou ainda que, tendo em conta os dados mais recentes, os grupos etários com maior incidência são dos 20 aos 29 anos e dos 30 aos 39 anos.

E as assimetrias não se ficam por aqui, no que toca à taxa de mortalidade global esta situa-se atualmente em 1,6%, enquanto que a taxa de mortalidade em pessoas acima dos 70 se fixa nos 9,7%. Uma discrepância que vai ao encontro do que já se registava até então.

Na primeira conferência após a aplicação de medidas restritivas nos fins de semana, Graça Freitas salientou ainda que “de um modo geral tudo correu de forma expectável”: “Não me parece que tenha acontecido nenhuma situação que tenha colocado a população em risco”.

Em particular sobre as contestações dos últimos dias, a diretora-geral da Saúde deixou, porém, o alerta de que há liberdade para as pessoas se manifestarem, mas que era bom que tal liberdade “fosse exercida com segurança”.

Em Portugal não vai ser o preço a decidir a vacina

No dia em que foi anunciado que a vacina da Moderna tem quase 95% de eficácia, Graça Freitas disse que a existência de várias vacinas é um bom sinal, sem entrar em grandes euforias.

Quanto mais vacinas existirem no mercado, quer sejam seguras, eficazes e de qualidade, melhor será. Porque melhor oferta teremos e maior capacidade haverá para países ricos ou pobres comprarem vacinas. O que importa aqui é que os ensaios clínicos venham a dar bons frutos até ao fim”, disse.

A DGS alertou ainda que apesar disso, em Portugal não será “garantidamente” o preço a decidir a vacina que vamos utilizar: “Estamos em variadíssimos mecanismos para aquisição da vacina e ainda estamos em outros mecanismos para adquirir por nossa conta.” Graça Freitas recordou ainda a garantia do primeiro-ministro, de que a vacinação será “universal”: “Será administrada gratuitamente a todas as pessoas com indicação para o fazer.”

Portugal com transmissão comunitária do vírus

Questionado sobre quais os concelhos em que existe já transmissão comunitária — se é em todo o país ou só no Norte — André Peralta, o diretor de serviços de Informação e Análise da DGS, começou por explicar que se trata de um conceito difícil de definir, concluindo: “Com os níveis de infeção que Portugal regista, a multiplicidade de contextos em que existe a transmissão faz apontar para que exista transmissão comunitária”.

Tendo em conta a grande pressão a que estão expostas várias unidades de saúde, Graça Freitas voltou a insistir no funcionamento em rede do Serviço Nacional de Saúde, assim como na resposta que os privados podem acrescentar.

O Serviço Nacional de Saúde funciona em rede. Além deste, temos ainda o Sistema Nacional de Saúde [incorpora também os privados]”, disse a responsável, reforçando que até ao dia de hoje há já diversas transferências de doentes para unidades particulares. Sobre a colocação de hospitais de campanha, Graça Freitas lembra que estes também estão previstos no plano desenhado para os próximos meses: “Se for necessário o Ministério tomará essas medidas”.

Mais de dez mil telemóveis entregues às administrações regionais de saúde

Na conferência foi ainda abordada a distribuição de telefones aos profissionais de saúde que precisam de ter um contacto mais imediato com os doentes. Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, deu a garantia de que já foram distribuídos até ao momento às administrações regionais de saúde (ARS) 10.248 telemóveis. Adiantando que o processo de distribuição destes aparelhos aos profissionais de saúde dos cuidados primários está a decorrer a bom ritmo: “Sabemos que um número muito significativo já foi entregue”.

Goes Pinheiro afirmou igualmente que nas próximas semanas se prevê a conclusão da entrega do total de 30 mil telemóveis às ARS. Até agora, salienta, tem sido dada prioridade aos profissionais de saúde que mais necessitam de manter contacto com os utentes.

Dos boletins que são somatórios de fotografias estáticas ao novo sistema dinâmico

A diretora-geral de Saúde anunciou também esta segunda-feira a entrada em funcionamento do BI Sinave, uma plataforma mais evoluída do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (Sinave) — mais dinâmica e mais sensível.

Graça Freitas esclareceu que a plataforma resulta do trabalho conjunto da DGS e dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde e que constitui um melhoramento do atual Sinave Lab, a pensar já no futuro. Para justificar o investimento, a responsável lembrou que em todos os países estes sistemas estão atualmente sujeitos a uma enorme pressão fruto da pandemia — a título de exemplo, revelou, o Sinave conta já com mais de três milhões de notificações.

O novo sistema, que entra agora em funcionamento, o BI Sinave, permite recolher e analisar um maior volume de dados e comunicá-los com mais rapidez.

A nova plataforma possibilitará, ao contrário do que acontecia até agora, em que o boletim diário de situação era o somatório de fotografias estáticas, apresentar dados de forma dinâmica e mais sensível. Graça Freitas explicou mesmo que foi possível identificar desde o início da pandemia 225.672 casos e que destes 1,9% (4375 casos) foram completados e incluídos no novo sistema BISinave(o que levou a uma atualização do boletim desta segunda-feira). Eram casos que já estavam na base de dados, mas que não tinha sido possível incluir em boletins anteriores por informações incompletas. A maioria destes casos eram respeitantes ao início da pandemia, sublinhou.

É importante deixar claro que o novo sistema não acrescenta dados às bases de dados, limitando-se a inclui-los de forma mais correta e atempada e obter informação mais correta e atempada, que continuará a ser a fonte utilizada no boletim diário”, disse Graça Freitas esta tarde, adiantado que a base de dados da nova plataforma vai ficar disponível para estudos da Academia.

INSA está atento a mutações registadas em outros países

Questionada ainda sobre as implicações relativas à mutação da Sars-Cov-2 detetada na Dinamarca, a diretora-geral da Saúde limitou-se a afirmar que em Portugal cabe ao Instituto Nacional de Saúde (INSA) Doutor Ricardo Jorge estudar as variações e as mutações no vírus, assim como as mudanças na doença, não havendo ainda nada digno de registo.