A taxa de ocupação do equipamento ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorporal), uma técnica essencial aos doentes críticos, baixou esta terça-feira para os 80% no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) após ter ultrapassado os 90% no fim de semana.

“Nós tivemos uma situação, e facto, de grande pressão desse ponto de vista até ao fim de semana, com uma taxa de utilização dos nossos equipamentos acima dos 90% (…) mas ao dia de hoje [esta terça-feira] e à data desta conversa, estamos um pouco melhor, temos uma taxa de utilização que baixou para os 80%”, disse à Lusa o diretor do Serviço de Medicina Intensiva do CHULN, João Ribeiro.

Atualmente, o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte tem 14 equipamentos, disse João Ribeiro, explicando que a capacidade de implementar essa técnica de suporte de vida extracorporal em doentes com falência cardiovascular ou pulmonar é “muito dinâmica”.

Em determinado momento podemos ter todos os aparelhos ocupados e, enfim, numa fase subsequente, podemos ter doentes que ultrapassaram essa dependência e ‘libertar os equipamentos'”, adiantou, sublinhando que ao início da tarde de hoje [esta terça-feira] o CHULN ainda tem “alguma capacidade de resposta adicional de ECMO”.

“Efetivamente, houve doentes que ultrapassaram essa dependência e, portanto, temos dispositivos adicionais”, vincou, lembrando que esta técnica não é exclusiva para doentes Covid-19, sendo usada para muitas outras situações, existindo já há alguns anos nos hospitais de Santa Maria, São José, ambos em Lisboa, e no São João, no Porto.

Neste contexto, da pandemia Covid “temos disponibilizado esta técnica a doentes de vários hospitais. O Norte tem dado a resposta aos doentes que são identificados e que são referenciados na região norte, e o sul tem dado resposta aos doentes na região geográfica do sul, é o que está convencionado”, explicou.

No entanto, “houve nos últimos dias o relato de quatro situações que foi necessário transportar do Norte para Lisboa, mas isso, mais uma vez, é o regular funcionamento do sistema”, disse, sublinhando que é uma situação que demonstra “o limite da capacidade de resposta numa determinada área geográfica, e, portanto, acionou-se aquilo que são prerrogativas funcionais do sistema de funcionamento em rede e de resposta nacional”.

Em Santa Maria estão, neste momento, além dos doentes adultos, dois doentes em idade neonatal pediátrica com outras patologias sem ser Covid-19, exemplificou o médico intensivista.

Relativamente às unidades de cuidados intensivos, João Ferreira afirmou que “a capacidade base de medicina intensiva no país, em certa medida, já foi ultrapassada”.

“Todos sabemos e todos reconhecemos que a capacidade base, aquilo que era a capacidade do SNS em camas de medicina intensiva era das mais baixas da Europa, portanto, essa capacidade de base que nós tínhamos em fevereiro/março, já foi ultrapassada”, vincou.

João Ribeiro relatou que o que tem vindo a acontecer nos diversos hospitais é que tem estado a ser aumentado o número de camas dos serviços de medicina intensiva, por processos de reorganização do trabalho, de maior disponibilidade de tempo dos profissionais, nomeadamente desta área.

“Os profissionais de saúde da área da medicina intensiva, nomeadamente os médicos, duplicaram, ou até triplicaram, as horas semanais que passam no hospital, precisamente para poderemos tratar mais doentes em maior número de camas. É um processo, adaptativo e progressivo”, salientou.

Segundo o especialista, vão ter que ser ativadas “mais camas de medicina intensiva” no Serviço Nacional de Saúde, porque as taxas de ocupação nas principais unidades hospitalares do país são de cerca de 90%.

“É o caso do Hospital de S. João, do Hospital Santa Maria, temos taxas de ocupação que já ultrapassaram as taxas de ocupação recomendadas. Portanto, essa é uma imposição que todos, enfim, agentes que operam na área da saúde, temos”, sustentou.

Um trabalho que “começa logo na tutela, que tem de criar condições para que os profissionais possam ser resgatados ou recrutados para trabalhar nestas áreas de maior pressão assistencial, passa pelas ARS, passa pelas administrações hospitalares e passa pelos diretores médicos, como é evidente”.

“Temos essa responsabilidade, se esse trabalho não tivesse sido feito e não estivesse a ser feito, o número de camas nos cuidados intensivos já teria esgotado”, observou.

Segundo o João Ribeiro, o CHULN tem participado na resposta em rede e tem recebido doentes de outros hospitais, nomeadamente da área geográfica do Sul e também muito na dependência de referenciações para suporte extraordinário por circulação extracorporal (ECMO).