A história

O desafio pode ter sido lançado ao chef Vítor Sobral, mas foi Hugo Banha quem começou a cozinhar a ideia de abrir um restaurante de ambiente noturno a dois passos da artéria que é emblema nacional do luxo. Quarteirões que o empresário conhece bem. Há cerca de cinco anos, abriu o primeiro espaço da marca OTRO, uma perfumaria com produtos de nicho e que fez do brilho do ouro o principal cartão de visita. Aventurou-se, mais tarde, no private tayloring. Pouco divulgado, o espaço funciona de forma restrita, não são permitidas fotografias e o acesso é feito única e exclusivamente por convite.

O projeto de fazer crescer a marca levou-o a abrir ainda um gabinete de design e arquitetura e, mais recentemente, uma segunda loja de perfumes, dentro do hotel Fontecruz, na Avenida da Liberdade, precisamente. A ideia de abrir um restaurante sob o mesmo conceito estava há anos a marinar. O OTRO começou a servir jantares há cerca de um mês. Aqui, Hugo reúne as restantes vertentes do negócio — as fardas foram desenhadas na casa, alguns dos perfumes podem ser experimentado na casa de banho (e também estão à venda) e nem os interiores foram deixados por mãos alheias.

Vítor Sobral e Hugo Banha © Jorge Simão

O espaço

Há um corredor que separa a sala principal da câmara inicial, equipada para receber clientes e com um bar pronto a servir o primeiro refresco da noite (o restaurante tem uma generosa carta de cocktails, com preços entre os nove e os 18 euros). Uma garantia de recato e privacidade que, juntamente com a luz de intensidade média, faz do OTRO o local perfeito para jantar numa atmosfera de conforto. O projeto, assinado pelos arquitetos de Hugo Banha, certifica-se disso — assentos estofados em veludo, mesas em mármore preto, telas nas paredes, um jogo de espelhos e uma janela aberta para a cozinha. A luz dourada, harmonizada com várias peças de latoaria, embrulha o ambiente.

Discrição é um dos lemas da casa, afinal falamos de um restaurante que, quando abriu portas, reservava dois dias da semana — o domingo e a segunda-feira — a eventos privados. Na sala, preenchida com 46 lugares, a música é outro dos elementos chave. Sim, o OTRO é um daqueles lugares para quem gosta de jantar com uma batida ao fundo e pode mesmo dizer-se que, com o avançar da noite, aumentam o volume e a energia da banda sonora.

O interior do restaurante © Jorge Simão

Nas casas de banho, Hugo criou uma montra do que as perfumarias OTRO têm para sugerir aos seus clientes — todos os funcionários do restaurante, assegura o proprietário, passaram por uma experiência de entendimento nas lojas. Para o novo espaço trouxe seleção de fórmulas que podem ser experimentadas na própria pele e levadas para casa, após uma aparatosa cerimónia. Não são apenas os pratos concebidos por Vítor Sobral que são servidos na mesa. Num momento que roça o ritual místico, os perfumes comprados chegam dentro de uma campânula e envoltos em fumo verde.

A comida

Chef e proprietário reuniram-se numa sintonia de ideias quase total. Na base das receitas elaboradas por Vítor Sobral para o OTRO está a cozinha tradicional portuguesa, embora os sabores se misturem com o de paragens tão distantes como África, América Latina e Macau. Antes de qualquer experimentalismo gastronómico é no imperativo de comer bem que Hugo e o chef fizeram assentar a ementa, que por estes dias é servida também ao almoço, depois da últimas regras decretadas pelo Governo.

O cruzamento de cozinhas é flagrante logo nas entradas, que surgem na carta como “primeiras impressões” e “notas quentes” — o foie gras é servido com figos secos confitados, cebolinhas e cássis (24 euros), o carpaccio de novilho, outra das estrelas do menu, vem com legumes marinados, vinagrete de trufas e cogumelos (19,50 euros), as vieiras são servidas coradas, com manga e coco, e temperadas com poejo (18,50 euros), a moqueca de línguas da bacalhau traz malagueta fresca, gengibre e lima (16 euros).

Carpaccio de novilho © Jorge Simão

Do lado dos pratos principais, o bacalhau é rei, seja fresco confitado com foie gras, puré de batata e trufas (25 euros), no forno com lavagante, madioca, coco e especiarias (35 euros) ou simplesmente com todos (25 euros), como manda a tradição. Destaque ainda para o arroz de carabineiros (38 euros) e para o caril de camarão (29,50 euros). Nas carnes, sobra espaço para uma única protagonista — a posta de Rúbia Galega é servida após 45 dias de maturação, acompanhada de pickles de cogumelo, abóbora e beterraba e, claro, de batas fritas (34 euros).

Na lista de sobremesas, destaque para o pudim de chá verde, com creme de maracujá e gengibre (7,50 euros) e para o creme queimado (8,50 euros), um leite-creme à moda do chef, com um travo a champanhe. Veja alguns dos pratos e os interiores do novo OTRO Restaurante na fotogaleria.

O que interessa saber

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Nome: OTRO Restaurante
Abriu em: outubro de 2020
Onde fica: Rua Rodrigues Sampaio, 94, Lisboa
O que é: um novo restaurante para quem gosta de pouca luz e música alta
Quem manda: Hugo Banha; a carta é assinada por Vítor Sobral
Quanto custa: em média, 50 euros por pessoa
Uma dica: aproveitar uma ida à casa de banho para experimentar um novo perfume
Contacto: 96 362 0129 e bookatable@otrorestaurante.com
Horário: das 12h30h às 15h30 e das 19h às 22h, de segunda a sexta-feira
Links importantes: Instagram e Facebook

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes.