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À entrada para a última jornada da fase de grupos da Liga das Nações, esta quarta-feira, as contas eram caóticas no Grupo 1: logo à partida, três seleções tinham ainda possibilidades reais e palpáveis de chegar à final four. Itália liderava com nove pontos e só precisava de ganhar à Bósnia para garantir o apuramento; a Holanda estava em segundo, com oito pontos, e precisava de ganhar à Polónia e esperar que Itália escorregasse com a Bósnia; e a Polónia estava na terceira posição, com sete pontos, e precisava de ganhar à Holanda e esperar igualmente que a Itália não vencesse a Bósnia. Em teoria, os italianos partiam na pole-position. Mas ainda tudo poderia acontecer.

Depois de cair nos quartos de final do Euro 2016 e falhar o Mundial 2018, Itália tinha a possibilidade de regressar a uma fase final de uma grande competição e lutar por um título — o último foi em 2006, no Mundial da Alemanha e no último fôlego da geração que juntou o topo das carreiras de Buffon, Cannavaro, Pirlo, Totti e companhia. Uma vitória contra a já despromovida Bósnia e a consequente qualificação para a final four poderia muito bem ser o primeiro passo confiante de uma equipa que tenta reconstruir-se há alguns anos e que parece estar a voltar a um ritmo reconhecível. O golo de Berardi, no jogo anterior com a Polónia, apareceu depois de a bola ser trocada 30 vezes, a sequência mais longa de qualquer golo desta Liga das Nações e uma jogada que recorda a Itália de outrora.

À cabeça, enquanto grande líder desse projeto, está Roberto Mancini. O selecionador, que por estar infetado com Covid-19 não tem acompanhado a equipa nos últimos compromissos, pegou na seleção em maio de 2018 e desde aí deu a primeira internacionalização a um jogador a cada 70 minutos, o número mais reduzido em Itália desde 1970. Ainda assim, a notícia do dia no país não deixava de ser o alegado interesse do Manchester United no treinador de 55 anos, que já treinou o rival Manchester City e que podia assim regressar a Inglaterra para substituir Solskjaer. Deixando incompleto, provavelmente, o projeto de reconstrução na seleção.

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Uma história que não deixava de ter muitas semelhanças com o passado recente da Holanda. Ausente tanto do Euro 2016 como do Mundial 2018, a seleção holandesa regressou às fases finais no passado, precisamente na Liga das Nações, onde perdeu a final com Portugal em pleno Estádio do Dragão. Sob a batuta de Ronald Koeman e com uma geração entusiasmante que agrega Van Dijk, De Ligt, De Jong, Wijnaldum e muitos mais, a Holanda parecia encaminhar-se cada vez para uma fase de sucesso que recordava à dos anos 80, que foi campeã da Europa, e a da década passada, que chegou à final do Mundial da África do Sul.

No início da época, porém, Koeman saiu. Aceitou o convite do Barcelona, desenhado também em formato de reconstrução de uma equipa perdida na atmosfera, e deixou a seleção. Frank de Boer assumiu o comando da Holanda, com o objetivo de prosseguir o projeto, e tinha no apuramento para a final four o primeiro grande desafio.

Nos jogos em si, Itália acabou por ser mais forte. A seleção de Roberto Mancini fez a sua parte, a única que tinha de fazer, e venceu a Bósnia com golos de Belotti (22′) e Berardi (68′). Na Polónia, a Holanda também fez tudo o que podia e bateu a Polónia em formato reviravolta, com golos de Depay (77′)e Wijnaldum (84′) depois de Jozwiak abrir o marcador logo nos instantes iniciais (5′). A Itália carimbou o passaporte para a final four da Liga das Nações; a Holanda ficou fora da fase onde chegou na época passada. Foi uma luta entre dois projetos de reconstrução de casas que estiveram em ruínas: no fim, ganhou a que ainda tem arquiteto.