Este texto foi originalmente escrito por Rui Miguel Tovar para o 1.º número da revista DDD – Dê de Delta.

A caderneta de cromos da 1.ª divisão, época 1998-99, desperta-lhe curiosidade. Folheia-a com relativa calma até encontrar as duas páginas do seu Campomaiorense. Recua no tempo. E desbobina três frases de espanto. “Grande equipa… Olha o Demétrios… O velho Sousa ainda cá estava.”

Ao rever a caderneta relativa à época 1998-1999, João Manuel Nabeiro sorriu e lembrou alguns craques da época, casos de Sousa e Demétrios.

João Manuel Nabeiro está finalmente pronto para a conversa. “Agora sim, já podemos falar.” É o mítico presidente do Campomaiorense. Vá, mítico e também inédito. Então porquê? Veja lá bem esta sequência. Nabeiro é o do título inédito da 2.ª divisão B, em 1992. O da subida inédita à 1.ª divisão, em 1995. O do título inédito de campeão da 2.ª divisão de Honra, em 1997. E o da inédita final da Taça de Portugal, em 1999. Quatro inéditos é muito inédito na vida de qualquer pessoa, ainda para mais alguém da terra, nascido e criado em Campo Maior há 65 anos.

João Manuel Nabeiro, presidente do Campomaiorense há 30 anos, sentado na bancada do Estádio Capitão César Correia. | Fotografia: EnricVives-Rubio

Recuemos até 21 de junho de 1954. “Nasci na rua de Badajoz, a 10 metros do campo de futebol”, numa referência ao Estádio Capitão César Correia, dono desses terrenos. “Toda a minha infância foi feita dentro daquele espaço, com amigos daquela zona, fossem vizinhos do lado ou de outros bairros. Brincávamos constantemente no campo, ainda pelado e com algumas covas lá pelo meio.” Cada frase acaba com um sorriso traquinas, como quem está a ir realmente atrás no tempo.

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“Nesses tempos, o Campomaiorense estava na 3.ª divisão nacional e havia o santo sacrifício do futebol aos domingos, de 15 em 15 dias. As nossas equipas sempre foram muito caseiras, formadas por campomaiorenses, quase todos jogadores-trabalhadores na Torrefação Camelo Lda”, empresa da família Nabeiro, tal como a Delta, a Qampo ou a Adega Mayor.

Os infantis do Campomaiorense equipados a rigor em 1927. O clube foi fundado um ano antes.

Dessas jornadas desportivas, João Manuel guarda a memória das rivalidades com as equipas de Elvas e Portalegre. “Às vezes, havia altercações muito fortes, com gritos à mistura. Parecia uma revolução social.” Entre os seus heróis de infância, saltam os nomes de Costal, Zé Mário e os irmãos Carapinha. “Eram personagens que nos deslumbravam pelos 90 minutos de pura dedicação, fizesse chuva ou sol, estivéssemos a ganhar ou a perder.”

O pai Rui dá o mote, futebolisticamente falando. Em 1990, o filho João Manuel assume a pasta da presidência do clube. “Como os meus companheiros de infância nunca me acharam com jeito para preencher as suas equipas nas futeboladas, assumi a presidência quando chegou a altura de ser presidente.” Nabeiro esboça o sorriso mais largo, consciente da qualidade de drible nesta jiga-joga do político-executivo. “Estávamos na 2.ª divisão B e acabámos em segundo lugar na zona sul.” A um ponto da Olhanense. Na época seguinte, em 1991-92, o Campomaiorense entra na zona centro. No plantel, saltam à vista o central João Manuel Pinto, ainda com 18 anos, e o médio Lito Vidigal, com 21. No banco, o treinador António Fidalgo. O arranque é assim-assim. No final da primeira volta, ao fim de 17 jornadas, o Campomaiorense está mais para lá do que para cá (10.º lugar).

Rui Nabeiro também chegou a presidir aos destinos do clube da terra. Aqui, entrega uma taça ao plantel de juniores, em 2000.

“Estive fora do país durante uns tempos, em trabalho. Quando voltei, disseram-me, ainda no aeroporto da Portela, que tinham despedido o treinador. Cheguei cá e perguntei o porquê dessa decisão sem me consultarem. Como não gostei da explicação nem do modus operandi, dei a volta ao assunto e readmiti o Fidalgo. A direção demitiu-se quase toda e fiquei sem quórum.” E agora? A pergunta impõe-se, a resposta nem se fala. “Acredite, instalou-se uma força qualquer entre nós e ficámos 20 jogos seguidos sem perder.” Ao todo, 17 vitórias (12 das quais consecutivas) e três empates. É obra.

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“Subimos de divisão, à 2.ª de Honra, e fomos discutir o título de campeão numa liguilha com o campeão da zona norte e sul.” Tanto Felgueiras como Amora são abalroados pela superioridade incontestável dos alentejanos. O Campomaiorense ganha os quatro jogos: 2-1 em Felgueiras, 2-0 em Amora, 1-0 em Felgueiras e 2-1 em Amora. É um festival sem igual. Só há um problema, relacionado com dinheiro. “Uma dívida de 17 contos à Federação Portuguesa de Futebol impede-nos de receber a taça.” Arghhhhhh. Seja, um digno campeão sem o correspondente troféu. Só mesmo em Portugal.

Siga a marinha. O primeiro ano na 2.ª divisão de Honra é sofrido. A concorrência é imensa e é tudo um mundo novo. A descida é evitada na última jornada, com um empate em casa frente ao campeão Estrela da Amadora. O golo de Juvenal garante a salvação e faz descer o Feirense. Segue-se a tranquilidade (9.º em 1993-94) e finalmente a festa da subida, sob o comando de Manuel Fernandes (2.º em 1994-95).

O Sporting (Clube de Portugal) entrega as faixas de campeão da 2.ª Divisão de Honra ao Sporting (Clube Campomaiorense).

O momento é celebrado na Madeira, com outro empate a um golo. Desta vez, é Rudi quem faz o 1-1 e segura matematicamente a promoção. “Campo Maior é conhecida pela festa das flores e também pelas festas sucessivas no futebol. Subimos duas vezes de divisão e atingimos o escalão mais alto, foi uma alegria enorme, gigantesca.”

Na primeira época entre os grandes, o Campomaiorense dá-se mal. A culpa é de uma campanha fora de casa sem honra nem glória, com 16 derrotas seguidas e apenas dois pontos em 51 possíveis. “Sabe uma coisa? A maior novidade dessa época foi o sorriso nos lábios. Mesmo na amargura da derrota, recebíamos e despedíamo-nos dos nossos adversários com um sorriso nos lábios e isso foi uma marca da nossa terra, uma mostra da cultura social, desportiva e cultural de Campo Maior.” O regresso à 2.ª de Honra é uma inevitabilidade. Pelo meio, salvo seja, mostra ao mundo um senhor jogador chamado Jerrel Floyd Hasselbaink, mais conhecido por Jimmy.

Contratado pela dupla Nabeiro (presidente) e Manuel Fernandes (treinador), o avançado é o melhor marcador da equipa, à conta de 12 golos. Logo ele que chegara a Campo Maior para um período de experiência por cinco dias, via equipa da 3.ª divisão holandesa chamada SLTO. Ao fim do segundo dia, Manuel Fernandes já dera o sim para a contratação de Jimmy, alcunhado pelos colegas de Pato Donald, pelo andar às dez para as duas. Pois bem, Jimmy faz furor em Campo Maior antes de se transferir para o Boavista. Daí salta para Inglaterra (Leeds) e é convocado pela Holanda para o Mundial-98. As vidas que a vida dá. A frase também serve para o Campomaiorense.

Monumento alusivo à fundação do Sporting Clube Campomaiorense, a 1 de julho de 1926.

O convívio na 2.ª de Honra em 1996-97 é saudável e chega-se ao título de campeão na penúltima jornada, num final à Hitchcock com o 3-2 de Stoilov nos descontos vs Académico de Viseu, em Campo Maior. É o delírio da massa associativa. Mesmo. Mais uma festa. João Manuel tem uma ideia para refrescar o verão de 1997. Vai daí, abandona a referência explícita do leão, pertença do Sporting Clube de Portugal, e adota o galgo como símbolo do clube.

Alguns sócios barafustam, outros galvanizam-se. A moção avança e ganha mais adeptos que nunca.

No arranque da segunda época na 1.ª divisão, o Campomaiorense dá espectáculo e comete a proeza de pontuar sempre em casa na primeira volta. Na segunda, rouba pontos ao futuro tetracampeão FC Porto com um imperdível 2-2. Um dos golos é de Isaías, o brasileiro de peito para a frente, ex-Benfica e contratado ao Coventry, de Inglaterra. Ao seu lado, Demétrios. Outro brasileiro, o tal chamado à atenção por Nabeiro no início deste texto. Seria Demétrios o autor do hat-trick mais inexpressivo de sempre, numa noite em que o Sporting vira de 1-3 para 5-3 em Campo Maior.

Isaías, a grande figura do Campomaiorense nessa época de glória, recebe a medalha de participação na final da Taça de Portugal.

O 11.º lugar abre boas expectativas para a época seguinte, a mais sensacional da sua história. Nem tanto pela 9.ª posição, mais pela presença no Jamor. “Já conhecia o Jamor de trás para a frente, porque vivi em Lisboa dos 9 anos aos 30 anos de idade e, às vezes, praticava desporto naquela zona. Agora a festa do Jamor é uma situação completamente diferente. E aquela festa em específico foi a mais especial da minha vida e também a do Alentejo, porque convocámos toda uma região para preencher todos os metros quadrados da mata do Jamor, primeiro, e do estádio, depois. Foi mesmo a festa da Taça.” Nem mais.

Foi a última final, aliás, sem qualquer grande metido ao barulho. Nem Sporting, nem Porto, muito menos Benfica. O Jamor é da classe média: Beira-Mar e Campomaiorense. No dia 19 de junho de 1999, o futebol português celebra uma final inédita. “As pessoas queriam era ir ao Jamor e conviver juntas. Fomos felizes durante a festa, pena o resultado.” Pois é, um golo de Ricardo Sousa dá a Taça ao Beira-Mar, curiosamente já despromovido à 2.ª divisão.

Onde é que João Nabeiro vê a final? “Do banco de suplentes, ao lado do treinador José Pereira. Durante os 12 anos de presidência, acompanhei 90% dos jogos do Campomaiorense do banco, embora percebesse pouco o que se passava em campo, tanto pela corrida desenfreada dos jogadores como pela velocidade do jogo. Quando gritava, já estava fora de tempo.”

O plantel de 2000-2001, a última época em que o clube competiu no principal escalão do futebol nacional.

A viagem está a chegar ao fim. O Campomaiorense desinveste no futebol e desce à 2.ª de Honra em 2001. “Descemos quando quisemos descer, já havia demasiado dinheiro envolvido e o retorno era escasso ou mesmo nenhum para tanto investimento.” Para a despedida em Campo Maior, 1-0 ao Sporting. Golo de Poejo. É o ponto final de uma história bonita. João Manuel pede um momento, saca do telemóvel e tira uma fotografia das duas páginas do Campomaiorense na coleção de cromos. A recordação é eterna.