O Centro de Reabilitação do Norte (CRN), em Vila Nova de Gaia, que recebeu desde maio 22 doentes pós-infeção por Covid-19, junta agora à missão de reabilitar a de retirar pressão aos hospitais, descreve a diretora, Sofia Viamonte.

Em entrevista à agência Lusa, a diretora, Sofia Viamonte, descreve como tem vindo a conciliar as exigências de sempre com uma pandemia que trouxe desafios novos e acrescentou pacientes também novos.

“Os utentes exigem um programa abrangente e multidisciplinar. As principais sequelas associam-se ao facto de terem tido um internamente prolongado e traduzem-se no descondicionamento físico, na atrofia muscular (…). Além das sequelas do ponto de vista neuromotor e respiratórias, alguns apresentam alterações cognitivas (…). A componente psicoemocional também está descrita como uma das sequelas da Covid-19”, descreve Sofia Viamonte.

O CRN tem quatro unidades funcionais: Reabilitação do AVC (acidente vascular cerebral), reabilitação de lesionados medulares, reabilitação pediátrica e de traumatismo cranioencefálico e reabilitação de agudos e outras doenças neurológicas, sendo esta quarta que acolhe pacientes pós-infeção por Covid-19.

A pandemia que já provocou mais de 1,3 milhões de mortos no mundo desde dezembro do ano passado, incluindo 3.632 em Portugal, obrigou o CRN a reorganizar-se ao nível quer das equipas quer de espaços.

“Este não é um hospital de agudos em que os doentes ficam confinados ao quarto e no leito. Sendo um centro de reabilitação, os doentes têm de circular. Tivemos de reestruturar tudo e evitar cruzamentos entre enfermarias distintas”, explica a diretora.

Além do internamento, o CRN também recebe doentes em regime de ambulatório, ou seja para sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala e neuropsicologia diárias ou semanais, de acordo com o tipo de casos.

Mas essa valência, onde atualmente são seguidos entre 200 e 250 doentes, esteve encerrada de março a maio devido às contingências da pandemia.

Questionada sobre se começam a ser notórios reflexos do que pode ter sido deixado para trás, Sofia Viamonte admite que “terá havido algum prejuízo”, mas garante que “está a ser feito um esforço para retomar a normalidade”.

“Aqueles doentes que tinham situações menos graves, que não necessitavam de internamento e só necessitavam de um programa em regime de ambulatório, aí obviamente houve algum prejuízo. Todos os serviços de ambulatório dos hospitais de agudos e todas as clínicas fisiátricas fecharam. Mas todos fizeram um esforço para rapidamente se reorganizarem e rapidamente voltarem a dar resposta. Estou convencida de que a maioria das situações já foi tratada”, refere a diretora do CRN.

Recordando que os doentes “não Covid” continuaram a existir, nomeadamente os traumatizados medulares e os doentes que sofreram AVC, Sofia Viamonte garante que “todos os que necessitaram de programa intensivo tiveram acesso como em qualquer outra época”.

Já “a referenciação diminuiu um bocadinho porque os acidentes de viação e de trabalho também diminuíram na primeira vaga” da pandemia, conta a diretora, admitindo que essa diminuição se deveu ao confinamento.

Outras das diferenças de um CRN pré-Covid face ao que acontece atualmente espelha-se no setor da hidroterapia, que só está a dar resposta ao internamento, uma vez que “é mais difícil dentro de água garantir as medidas de proteção, nomeadamente o uso da máscara”.

“Focamos a nossa resposta nos agudos e nos doentes que não têm resposta na comunidade, nas clínicas de reabilitação. Por exemplo, a terapia da fala está mais deficitária na comunidade, logo essa área foi priorizada quando reabrimos o ambulatório. Acreditamos que podemos ter um papel no colmatar das lacunas de outras estruturas”, apontou.

A médica fisiatra acrescenta que outro dos papéis do CRN está “no esforço global” para “retirar doentes de hospitais de agudos o mais rapidamente possível pela necessidade que esses hospitais têm das camas”.

“Reintegramos o mais possível quem cá estava no seu domicílio, para darmos lugar a doentes que estavam internados nos hospitais de agudos. Essa necessidade tem-se feito sentir bastante nas duas/três últimas semanas”, especificou.

Para atender a esse esforço, a unidade de reabilitação pediátrica do CRN, que tem capacidade para 10 utentes, foi já dividida para poder “emprestar” camas a doentes adultos, uma vez que “as referenciações de agudos na população pediátrica são mais residuais”.

A demora média de internamento — que se situa no CRN nos 45 a 50 dias — também tem vindo a ser diminuída, mas “sem prejudicar os doentes”, salvaguarda a diretora, contando que na semana passada ocorreram 22 admissões, enquanto em período homologo de outros anos não ultrapassaria as 15.

Quanto aos profissionais, Sofia Viamonte fala em “meia dúzia” de um universo de 200 que cumpre isolamento profilático por contextos familiares.