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Lourenço Crespo e a feliz sorte de cantar o dom para a tristeza /premium

Depois de Nove Canções (2016) um dos fundadores da Cafetra e metade de Iguanas chega ao segundo e homónimo disco em grande estilo — entre a melancolia e o humor. E divide a produção com B Fachada.

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Ao longo das novas canções, Lourenço Crespo nunca perde um certo humor atual e urbano, mas depressa explica que vai mais longe e mais fundo

Adriana Proganó

Ao longo das novas canções, Lourenço Crespo nunca perde um certo humor atual e urbano, mas depressa explica que vai mais longe e mais fundo

Adriana Proganó

“Eras tu de certeza”, canção inaugural do novo e homónimo disco de Lourenço Crespo, é uma espécie de encontro casual, aquela interceção meio fugidia, talvez até em lados diferentes da mesma rua, onde se costuma perguntar pelo trabalho e pelo concerto da última quinta-feira. Onde também pode haver espaço para dizer que no outro dia vimos aquele a quem agora nos dirigimos, mas que ele não reparou — “eras tu de certeza tavas com um cão bué querido uma miúda ao ombro aquelas malas de campismo enormes tás a ver?”.

Assim se abre a porta de um disco que nunca perderá um certo humor atual e urbano, mas que depressa explica que vai mais longe e mais fundo, que é um abanão melancólico e enternecedor — em “Pelo pêlo”, canta-se “saquei do meu dom para a tristeza”, enquanto o suporte musical pede manta e sofá ou uma viagem de barco introspetiva. Lourenço Crespo é um dos fundadores da Cafetra, começou nisto da música por volta dos 12/13 anos, a tocar com o amigo de infância João Dória (guitarrista de Passos em Volta e de Putas Bêbadas, dois projetos da editora lisboeta) e com Maria Reis (sua prima, membro das Pega Monstro e autora de composições em nome próprio). Na escola secundária, conheceu o trio — Leonardo Bindilatti, Hugo Cortez e Francisco Correia — com quem viria a formar os Kimo Ameba, outra das formações do catálogo da Cafetra.

Partilha, com Maria Reis, os 100 Leio (que em 2013 gravaram, com produção de B Fachada, Gang$tar), é meia parte dos Iguanas (que se completa com Leonardo Bindilatti), toca teclados para Éme e para a namorada Sallim (bem como baixo e guitarra) — pelo menos assim o fez nos últimos discos de cada um. Isto tudo para dizer que Lourenço Crespo é um dos mais prolíficos membros do coletivo lisboeta e que chega ao segundo disco quatro anos após Nove Canções — um já brilhante edital indie-pop — e depois de um 2018 onde fez arranjos para Domingo à Tarde (2018) de Éme enquanto fazia Lua Cheia, dos Iguanas, e de um 2019 onde trabalhou com Sallim no seu A Ver o que Acontece.

“Este disco vem a seguir a isso tudo e, principalmente, vem a seguir ao da Sallim, onde fiz uns arranjos à guitarra, esse e o Domingo à Tarde foram-me dando ideias para o que o meu disco podia ser. E depois fui dizer ao B Fechada que queria fazer o disco com ele”, explica.

O autor do perfeito e recente Rapazes e Raposas — que tem sido um apoio imprescindível para vários projetos da Cafetra, como mentor, como quem sugere o caminho — tem uma enorme importância neste Lourenço Crespo, o disco. Para já, porque se no primeiro disco Lourenço foi para Lagos com Maria Reis e Leonardo Bindilatti e gravou tudo durante três dias, desta vez esteve um mês na casa de B Fachada, isto é, com mais tempo, a deixar maturar as coisas e os sons, para perceber se era de facto por ali ou nem por isso.

[ouça aqui o novo álbum de Lourenço Crespo, através do Bandcamp:]

Depois, porque partilhando a produção com Lourenço, foi alguém constante ao longo de um processo que se distingue daquele realizado para o Nove Canções, não apenas pela questão temporal, mas por uma questão de maturidade, de libertação das expectativas (interiores e exteriores).

“O processo foi igual ao do Nove Canções, mas com uma pessoa a ajudar-me mais, que foi o B Fachada. Isto na pré-produção, ajudou-me muito nesse sentido. No disco anterior estava muito numa de provar que conseguia fazer isto sozinho. Não foi bem sozinho, porque tinha o Léo [Leonardo Bindilatti] e a Maria [Reis] comigo, mas eram tudo canções minhas, cantei tudo e toquei tudo em três dias e queria provar que resultava. Mas agora quis fazer isto com outras pessoas, por isso é que também entra o Pedro Sousa, o João Dória, a Sallim e o B Fachada, para fazer um disco mais cheio, colorido, variado, com mais ideias de arranjo e com um cuidado muito maior na voz”, conta-nos.

Demos-lhe razão. As vozes — onde é muitíssimo bem apoiado por Sallim — são feitas de rigor. Quanto à escrita, ou ao ambiente que do disco emerge, Lourenço confirma não é a primeira vez que lhe dizem que as canções estão imbuídas de uma melancolia com alguma envergadura:

“Escrever, para mim, é um processo de deitar coisas fora, escrever muito e estar sempre a descartar até gostar de tudo. E sim, várias pessoas estão a achar que o disco está muito em baixo, está um disco triste, eu percebo, mas acho que é um disco que também tem muito humor. Mas depois as pessoas corrigem logo e dizem: ‘Não, é mais agridoce, não é só uma emoção’. E acho que sim, que são várias coisas, que é verdade e que isso tem que ver com o trabalho que dou às letras e de querer que sejam especiais, eu quero que aquilo bata. E quero que se perceba o que estou a dizer. Não preciso que seja direto, mas é bom que seja percetível”, afirma.

E lá nisso, mais uma vez, de acordo. Uma coisa nunca é só uma coisa, não é verdade? Como fica bem evidente no oitavo tema do disco “Medo de Mudar”:

“Tu vê lá
Queres ajuda eu dou
Companhia eu vou 
Ao cimo
Sair do limbo 
Também estou a conter
Ando a viver
com medo de mudar”

E diga-se que esta é provavelmente umas das questões que nos importuna a todos, quando dialogamos internamente, muito provocada, provavelmente, por uma espécie de inquisição social que espera que sejamos coerentes e continuados durante longos períodos temporais.

“Essa inquisição relaciona-se com o medo que tu tens de ter de mudar. É bom, não é… a mudança é aquele cliché que é a única constante e é verdade. Normalmente mudar é uma coisa positiva. Na canção, relaciona-se mais com a ideia de que a mudança devia ser mais proposta, devia acontecer mais. Também há pessoas que mudam para pior, há tantas pessoas que de repente ficam caretas, tu antes eras um gajo que parecias melhor contigo, essas cenas. Quando digo careta, imagino um tipo de pessoas mesmo seca, que não consegue divertir-se, não consegue estar despreocupado e não faz nada de minimamente arriscado”, desabafa.

"Várias pessoas estão a achar que o disco está muito em baixo, está um disco triste, eu percebo, mas acho que é um disco que também tem muito humor"

Amor — em diversas formas, mais simples ou complexas — é outro dos ingredientes que não falta em Lourenço Crespo. Em “O Teu Nome” diz: “é suposto viver com quem, se não for ela”. A última faixa do disco, “Amor Não Te Vou Largar”, é simplesmente isto, ao piano:

“Dorme bem
sente a terra tremer
ninguém pertence a ti 
ninguém pertence aqui 
no calor apaixonado 
deixou recado 
amor já cá estou não te vou largar”

A cumplicidade que Sallim e Lourenço partilham em disco, nas vozes, nos arranjos, já vem de A Ver o Que Acontece e de uma vida a dois que passa também, muitas vezes, por ser um trabalho a dois. E aqui, como Lourenço esclarece, não há cá aquelas máximas de que marido e mulher o melhor é não trabalharem juntos ou vai dar azar:

“Tinha esse receio ao início, obviamente. Mas no nosso caso não fazia sentido não o fazermos, separar a nossa vida profissional da nossa vida pessoal ia ser estranho, aliás, isso é que ia causar o desconforto, não partilharmos esse lado também. E isto veio de uma maneira muito natural”.

Natural também é a vertente cómica sugerida por Lourenço Crespo acima e que é notória no disco, como contraponto para uma zona mais triste ou reflexiva — perante a impossibilidade, perante a resignação, uma pitada de comicidade para seguirmos vivos e de pé. Está profundamente exposta na sétima canção — “Férias Escondido” —, que tem um diálogo para duas vozes durante quase toda a faixa e que fala de um verão por completar, de estadias em Cabanas de Tavira e do quão bom é beber sozinho. Mais uma dica de Bernardo Fachada:

“Foi o B [Fachada] que sugeriu esse diálogo. Estávamos a ouvir a música e ele achou que podia ficar bem uma conversa lá atrás, já estava decidido que essa ia ser a malha que ia dividir o disco, que era uma malha com texturas e era bom acrescentar uma última textura que seria uma conversa de verão, mesmo banal, normalíssima, sem consequência. E é uma conversa que tem palavras-chave que combinam com a letra da canção, só porque está lá atrás não quer dizer que não faça sentido. É importante ter coisas que façam sentido”, diz Lourenço.

E se é a falar que a gente se entende voltemos ao início, a “Eras Tu De Certeza”, onde se ouve: “Tu até tinhas dito ‘bora beber uma um dia destes? O que é que andas a fazer assim de tão especial?” E esta verdade que provoca riso espontâneo de desencontros com desculpas esfarrapadas — “mano, desculpa, hoje não vai mesmo dar para ir, estou mesmo no lodo” ou “bro, não me leves a mal, mas estou muito ocupado hoje, não consigo” — vem diretamente, como Lourenço Crespo explica, do seu parceiro em Iguanas, Leonardo Bindilatti:

“Isso é literalmente uma cena que o Leo me diz, a brincar, claro, mas sempre que me convida para beber um copo ou assim, e eu não lhe respondo imediatamente, atira essa pergunta, ‘o que é que andas a fazer assim de tão importante para não poderes ir beber uma connosco? Que parvoíce’. É uma coisa que te põe em xeque e tu vais a ver e não estás assim tão ocupado, às vezes estás, mas podem nem ser coisas especiais.” Se se perderam cervejas para fazer um disco tão bom quanto este, deixamos aqui o nosso pedido para que sejam perdoadas. Há valores maiores que se levantam.

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