Entre a realidade e alguns apontamentos de ficção, do perene glamour da vida na corte à fúria nas ruas da era Thatcher, são muitas as zonas sombrias para as quais os holofotes apontam em The Crown e a quarta temporada, recém estreada na Netflix, parece abrir em definitivo a porta ao “lado negro” da coroa. Alerta spoiler: conte com assassinatos, casamentos onde os níveis de euforia rivalizam com os dos funerais, perigosas relações extraconjugais e muita liderança no feminino — e ainda com sumarentos detalhes à margem do coração da trama.

Se a terceira temporada da série recuperava a incrível história de Alice de Battenberg, a sogra de Isabel II, princesa que nasceu na presença da rainha Vitória, foi tratada por Freud, ajudou a esconder judeus no Holocausto e fundou um convento, aqui chegados eis a fórmula composta por uma rainha, uma princesa adorada pelo povo e uma primeira-ministra para a posteridade. E, mais uma vez, à margem das figuras-chave do elenco, outros nomes mais discretos, que gravitam em redor do clã real, abandonam momentaneamente o baú do passado.

O período compreendido entre 1979 e 1990 é pretexto para reabilitar episódios bizarros como a do intruso Michael Fagan, e permite de igual forma resgatar o tema da saúde mental — e o controverso destino de Nerissa e Katherine Bowes-Lyon, as duas primas esquecidas de Isabel II, naquele que é mais um retrato desconfortável para a família real mas sobretudo uma recordação funesta de um estigma e de uma sociedade exigente com a pureza da linhagem e a reputação.

Nerissa e Katherine: os nomes que a história quis enterrar antes do tempo

Nerissa (n. 1919) e Katherine (n. 1926) foram, respetivamente, a terceira e a quinta filhas de Fenella e John Bowes-Lyon, irmão de Elizabeth, mais conhecida como a Rainha Mãe. Primas de Isabel II, nasceram com severas dificuldades de aprendizagem e contaram com a escassa tolerância à diferença que pautava a época, que não demorou a catalogá-las de “imbecis” ou “retardadas”.

Corria o ano de 1941 quando Nerissa, então com 22 anos, e Katherine, com 15, foram encaminhadas para uma instituição de saúde mental, o Royal Earlswood Hospital, em Redhill, Surrey. E por ali terão permanecido, votadas ao esquecimento por parte da família, apesar de inúmeras contradições na sua história e no próprio desfecho de cada uma delas.

Imagens divulgadas pela Netflix

De resto, segundo o Burke’s Peerage, que compila dados genealógicos (uma espécie de Facebook da aristocracia britânica), em 1962 tanto Katherine como Nerissa estariam já mortas, dado que até hoje permanece um enigma por resolver: mero lapso ou tentativa de encobrimento do seu paradeiro por parte da mãe? “Ela muitas vezes não preenchia os formulários completos que o Burke’s Peerage lhe enviava”, defendeu em 1987, ao The Guardian, Elizabeth Anson, neta de Fenella, assumindo que os responsáveis pelos registos terão assumido que as irmãs estavam mortas. À Associated Press, posteriormente, o responsável pelo Burke’s Peerage mostrou-se “extremamente chocado” pela revelação.

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Foi preciso esperar até 1987 para assistirmos a uma viragem no enredo: a dupla, que nunca aprendera a falar, continuou afinal a viver para lá dessa data no Royal Earlswood, fundado como asilo em 1853.

Nerissa morrera um ano antes desta revelação, em 1986, aos 66 anos — ao seu funeral terão assistido apenas funcionários do hospital. Foi enterrada no cemitério de Redhill Cemetery e só quando o caso se tornou público a família terá concedido alguma dignidade à campa, até então marcada apenas com um número de série e uma etiqueta em plástico. Quanto a Katherine, morreu em 2014, com 87 anos. A sugestão é que, excluindo o valor da sua residência, não terão recebido qualquer outro apoio do clã Bowes-Lyon.

Queen Mother At 90

A Rainha Mãe em 1990, quando celebrou os seus 90 anos © Getty Images

Segundo um polémico documentário do Channel 4, de 2011, não há qualquer registo ao longo das décadas de uma visita do clã às irmãs, lacuna que se torna ainda mais gritante face ao estatuto da Rainha Mãe, patrona da causa MENCAP, uma organização focada na saúde mental e no combate ao abandono e negligência dos portadores de deficiências.

Em 1996, o Daily Express assegurava que a Rainha Mãe soubera apenas em 1982 que as sobrinhas se encontravam internadas, quando a liga dos amigos do hospital lhe escreveu — mas nem essa informação terá motivado uma revisão da postura da tia, que terá passado apenas a contribuir com uma soma anual para garantir presentes de aniversário e Natal às duas irmãs.

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Nem tudo no entanto é fidedigno no documentário, que alega que John Bowes-Lyon, à semelhança dos demais, abandonara as filhas. Faltou acrescentar que o corretor da City morreu em 1930. Para mais, apontava o The Guardian à data da sua estreia, o conteúdo tem não só pouco de novidade como termina sem desvendar o único mistério que sobrevive até hoje: o que levou realmente a família a internar as jovens, então já com 15 e 22 anos?

Certo é que a trama que ocupou amplamente os tabloides em 1987 tem voltado em força por estes dias aos títulos dos jornais. Eis a “trágica história da primas da rainha”, resume o The Telegraph.

Royal Earlswood: do século XIX a The Crown

Com um processo de desinstitualização em marcha no país, o The Royal Earlswood Hospital fechou as suas portas em 1997, depois de um longo trajeto cujas origens nos devolvem ao século XIX. A sua inauguração oficial decorreu em 5 de julho de 1855 e contou com a presença do príncipe Alberto, o marido da rainha Vitória. John Langdon Down (que daria o nome ao conhecido síndroma) foi um dos médicos na casa até 1868, numa fase em que a tuberculose era a principal causa de morte entre os pacientes. Em junho de 1929 o asilo foi rebatizado como Instituto Royal Earlswood para os Deficientes Mentais.

Nerissa e Katherine, que foram internadas em tempo de II Guerra Mundial, não foram as únicas do clã Bowes-Lyon a frequentar a instituição de Asylum Arch Road — a elas se juntariam outras três primas: Idonea, Ethelreda e Rosemary Fane, reforçando uma convicção que se perdia no tempo, a de que a loucura corria no sangue da família há séculos.

Bowes-Lyon Brothers

John Bowes-Lyon, o pai de Katherine e Nerissa, e um dos irmãos da Rainha-Mãe © Getty Images

Um dos rumores mais persistentes é o de que um dos herdeiros teria nascido deformado, e que o clã fingira que morrera, acabando por enclausurá-lo no castelo de Glamis, onde viveu 100 anos. E se alguns defendem que o casamento da mãe de Isabel II teria precipitado a reclusão das duas irmãs, em 1941, é difícil fazer uma associação direta, já que Elizabeth e o rei George VI trocaram alianças muitos anos antes, em 1923.

Saltando para os anos 80 do século XX, e para o enredo de The Crown, as irmãs surgem na casa dos 60 anos e a assistir na TV à imagem da prima, a soberana, erguendo-se quando se escuta o hino. É a princesa Margaret, personagem interpretada por Helena Bonham Carter, quem expressa o seu desagrado pela forma como Nerissa e Katherine foram isoladas, dirigindo-se, inconformada à Rainha Mãe: “Enclausuradas e esquecidas. São suas sobrinhas, filhas do seu irmão preferido”. “Eu passei de mulher do duque de York, que tinha uma vida relativamente normal, a rainha. Consegues imaginar as manchetes se isto se soubesse?”, justifica-se, na ficção, Elizabeth.

Ao longo dos anos, várias foram as tentativas de destapar o escândalo por parte de imprensa, como o dia em que uma equipa de reportagem americana conseguiu entrar em Royal Earlswood e captar algumas imagens em vídeo. Pouco antes da morte de Katherine, um outro homem fez-se passar por familiar e visitou-a em Surrey. Na verdade, trabalhava para um jornal e não só tirou uma fotografia à mulher que se encontrava sentada numa cadeira, como aquela imagem acabaria na manhã seguinte na primeira página do The Sun, com o implacável título: “Prima da rainha presa num manicómio”. Buckingham recusou comentar a “falta de humanidade” de que foi acusado, argumentando que este era um assunto privado do ramo Bowes-Lyon.

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Segundo a versão do autor da série, Peter Morgan, Elizabeth não só estaria a par da decisão como terá estado envolvida na própria orquestração. “A ideia de que apenas uma família tenha automaticamente direito por nascença à coroa já é tão difícil de justificar”, diz a Margaret. “Era preciso que os genes da família tivessem 100% de pureza”, continua. As jovens foram enviadas para Earlswood quatro anos depois da abdicação de Eduardo VIII, que colocava os descendentes Bowes-Lyon em linha direta de sucessão ao trono.

Evocando outros casos em que a pureza não estava assegurada, e para explicar as motivações do clã, a Rainha Mãe menciona ainda o caso do príncipe John, o filho mais novo de George V, irmão de George VI e de Edward VIII, diagnosticado com epilepsia aos 3 anos e que passou a vida aos cuidados de uma ama, protegido dos olhos do público, e da família, num canto da propriedade de Sandrigham. De acordo com a Rainha Mãe, o lado dos Windsor tinha já devida quota de “exemplos” capazes de alarmar as pessoas.