Um homem negro de 40 anos foi espancado até à morte por dois seguranças num supermercado Carrefour em Porto Alegre, no estado brasileiro de Rio Grande do Sul. O crime ocorreu na noite de quinta-feira, véspera do Dia da Consciência Negra, que se celebra esta sexta-feira no Brasil. Os seguranças foram detidos.

A vítima — identificada como João Alberto Silveira Freitas, mais conhecido por Beto — terá sido levada para fora do estabelecimento comercial após uma discussão com a funcionária da caixa. A Brigada Militar afirma que “a vítima teria ameaçado bater na funcionária, que chamou a segurança”. Ao jornal brasileiro A Folha de São Paulo, Roberta Bertoldo, responsável pelo caso, indica que morte poderá ter sido causada por asfixia ou por um ataque cardíaco.

Os dois seguranças que agrediram ficaram em cima dele, aquilo dificultou a respiração dele. Quando falamos em asfixia não significa necessariamente estrangulamento, mas aquela forma de contenção de ficar em cima dele fez com que tivesse dificuldade de respirar e pode ter ocasionado um ataque cardíaco”, disse Bertoldo.

Em entrevista a uma rádio local, Milena Borges Alves, mulher de Beto, que estava presente no momento das agressões, afirma que “ele pediu ajuda” mas continuou imobilizado pelos seguranças. “Ele disse: ‘Milena me ajuda’, mas os seguranças não deixaram me aproximar. Seguiram com o pé em cima dele, e quando desmaiou, continuaram com o pé em cima dele“, afirmou. Beto acabou por morrer no local.

Os suspeitos — dois homens de 30 e 24 anos — foram detidos em flagrante delito. Um dos agressores é um polícia militar, que negou estar a trabalhar como segurança no local, algo que foi rapidamente desmentido pelas câmaras de segurança. A investigação está a ser tratada como um caso de homicídio qualificado.

Durante esta sexta-feira vários vídeos da agressão começaram a ser partilhados nas redes sociais. Num deles é possível ver os seguranças a dar vários murros na cabeça da vítima. No outro imobilizam a vítima já ensanguentada no chão. Os vídeos causaram indignação em todo o país, com políticos e ex-presidentes a reagir.

Dilma Rousseff, presidente do Brasil entre 2011 e 2016, recorreu ao Twitter para dizer que o “assassinato do jovem negro” no parque de estacionamento é “revoltante e mostra a persistência da violência escravocrata no Brasil”. “O Dia da Consciência Negra é, assim, dia de luta e de luta”, continuou noutra publicação.

Também no Twitter, Lula da Silva, presidente entre 2003 e 2011, afirma que “o racismo é a origem de todos os abismos” do Brasil e que é “urgente” interromper “esse ciclo.

“No Brasil não há racismo”, diz o vice-presidente atual

Quando questionado por jornalistas sobre a morte de João Alberto Silveira Freitas, o general Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil, afirmou que naquele país “não há racismo”.

“Lamentável isso aí [caso de assassinato]. Isso é lamentável. Em princípio, é segurança totalmente despreparada para a atividade que tem de fazer […] Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui”, afirmou. Para Mourão, no Brasil o que existe “é desigualdade” entre classes.

Até ao momento, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ainda não se pronunciou acerca da morte.

Carrefour lamenta “profundamente” o caso e termina contrato com a empresa de segurança

A cadeia de supermercados Carrefour recorreu às redes sociais para informar que “adotará as medidas cabíveis para responsabilizar” os envolvidos no “ato criminoso” e que “romperá o contrato com a empresa que responde pelos seguranças que cometeram a agressão”.

Brasileiros protestam junto de supermercados Carrefour. Veja algumas das imagens

Várias manifestações contra a morte de Beto foram marcadas para esta sexta-feira junto dos supermercados da cadeia no Brasil, depois de o youtuber Felipe Neto ter afirmado que “boicotar o Carrefour” só iria “tirar empregos” e “prejudicar trabalhadores inocentes”.

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