Título: Uma História Radical do Mundo
Autor: Neil Faulkner
Editora: Edições 70
Páginas: 652
Preço: 29,90

A capa de “Uma História Radical Do Mundo”, de Neil Faulkner (Edições 70)

Radical tanto pode significar extremada, como pura (no sentido de raiz), como perigosa. Tanto poderia ser uma História do Mundo radical, dos movimentos de massas e dos ímpetos revolucionários, como uma interpretação da História mundial que devolvesse a Humanidade à sua pureza, como uma coleção de opiniões tão imprevistas que pusessem em perigo a saúde do autor.

Nada nos prepara, então, para que a palavra “radical”, numa guinada semântica própria das grandes manobras, radicais, passasse a significar apenas uma imensa estopada, escolar e facciosa.

Como o próprio autor admite, não há nesta História nada de novo, nem há grande cuidado com o rigor da informação. O autor é “um generalista” mais preocupado com a interpretação da História do que com a exímia correção fatual. Se os erros minassem as teses, estaria preocupado; caso não minem, não serão os pecadilhos académicos a preocupá-lo.

Perceberíamos a ideia, se a interpretação fosse de facto tão radicalmente nova que justificasse a sobreposição das teses aos acontecimentos. No entanto, as teses não sequer a reciclagem da doutrina marxista mais clássica; o autor limitou-se a ir ao cesto dos papéis, esticar o lixo amarfanhado e a ordenar à tipografia que reproduzisse em massa as velhas teses.

Para o autor, há três motores da História e duas formas de desenvolvimento. O desenvolvimento da técnica, as lutas dentro da classe dominante e as lutas de classes são os motores da História, História essa em que há ciclos e vetores, em que a História se repete ou em que avança de maneira linear. É da articulação destes aspetos que nascem os períodos históricos que conhecemos, e nem a importância destes períodos foge àquilo que já Marx nos deixou. Há um tempo de comunismo primitivo no paleolítico (que Marx baseava nos estudos de Lewis Morgan, mas a Antropologia já avançou um pouco desde Morgan, com antropólogos tão insuspeitos como Sahlins ou David Graeber que não admitem este período pré-hierarquia nos bandos de caçadores-recolectores), a que se segue a revolução agrícola que, com a produção de excedentes, dará origem à propriedade, às guerras, à religião (tudo farinha do mesmo recém-descoberto saco) e, consequentemente, à exploração.

Isto porque toda a exploração surge do controlo dos excedentes. É por ser o Homem a controlar o excedente que se opera a revolução patriarcal, será o controlo sobre os excedentes a formar as classes superiores, e será o poder dado pelos excedentes que levará os gananciosos a aumentarem o poder, guardando para eles não só os excedentes como tudo o que permitir mantê-los no poder.

As fases da História a que o autor dá importância são aquelas que já vêm nos estudos Históricos de Marx (Revolução agrícola – feudalismo – capitalismo – socialismo) e as explicações para as grandes mudanças históricas são sempre as mesmas: as elites conservadoras opõem-se ao desenvolvimento ou estão de tal modo embrenhadas nas suas lutas internas que consomem todos os recursos em lutas autodestrutivas. Ser “altamente conservador e explorador” serve para explicar a queda do Império Romano do Oriente, que só durou 750 anos. Seria normal perguntarmo-nos o que é que o manteve, então, durante esses anos, mas o autor, por estar interessado apenas no lado revolucionário, nunca se interessa pelas classes dominantes. Na Idade do Bronze o grande avanço, a siderurgia, surge do trabalho das periferias e não das elites, opostas ao progresso; mesmo quando, no Egito, ou noutras cidades do Mediterrâneo, as classes dominantes inventam “o vidro, a contabilidade, o alfabeto”, estas invenções são reduzidas a “um bem de luxo, uma forma de medir a riqueza, uma escrita para a registar”, isto é, são pouco úteis para a criação de riqueza, dizem respeito “ao consumo e controlo de riqueza, não à sua criação”.

Seria normal que, se o autor reciclasse uma tese, o fizesse para a pôr à prova. É possível fazer um livro a partir da ideia de História tal como Hegel a concebe, para aumentar o grau de dificuldade das suas interpretações, encontrar casos mais difíceis de explicar ou que aparentemente contradizem as teses; o que Neil Faulkner faz, porém, é recorrer aos mesmos exemplos típicos, usar os mesmos períodos, trazer novamente a Revolução Industrial e o capitalismo industrial, para repetir aquilo que já está em Marx. É certo que acrescenta uns fumos pós-modernos, ao tentar ampliar o seu olhar “eurocêntrico” e ao usar a ideia de que a família nuclear é a estrutura típica do capitalismo para legitimar as reivindicações fraturantes das sociedades contemporâneas, mas de resto é em tudo igual a Marx: os mesmos exemplos, as mesmas ideias, os mesmos pontos-chave, embora ligeiramente mais dissimulados.

Ora, é essa dissimulação que torna o livro mais cómico. Quando se faz uma História generalista, há um número limitado de acontecimentos que se podem escolher. Embora o equilíbrio do livro (200 páginas para 24 mil e oitocentos anos, quinhentas para os últimos duzentos anos) mostre o empenho do autor em exaltar todas as conquistas e revoluções sociais, a verdade é que os grandes momentos da História já estão definidos, pelo que qualquer livro pode parecer minimamente honesto. Mesmo um autor que que define assim as duas guerras mundiais – “foram essencialmente guerras entre blocos nacionais capitalistas ricos”, mais ou menos como dizer que a segunda guerra foi essencialmente uma guerra entre homens de bigode e homens de charuto – está, na maior parte do tempo, a dar informação razoável.

Seria perfeitamente possível conseguir um livro com uma aparência sensata, entregue apenas às subtilezas de linguagem, típicas de Hobsbawm ou Thompson, por exemplo, que passam por chamar “classes avançadas” aos que defendem aquilo com que os autores concordam e “retrógrados” aos que se lhes opõem; Faulkner, porém, entusiasma-se e torna as suas ideias a própria explicação da História.

Os maus, os poderosos, param o progresso e querem manter as massas ignorantes, mas estas, intrépidas e cumprindo o destino do homo sapiens, vão progredindo e desenvolvendo técnicas que as tornam mais capazes, mais expeditas, mais probas, mais forte e incompreensivelmente mais pobre e mais dominadas do que os seus exploradores. Como num mau policial, este livro esquece-se de que não basta apresentar um sentido para a História – é preciso mostrar que os outros não servem. A História da reação e da sua resistência, o eterno retorno dos exploradores, tudo isso fazia falta a uma história que, mesmo que quisesse manter os pressupostos marxistas, pretendesse ser séria. Assim, fica só mais um livro, mais do que parcial, tendencioso.