O Banco Central Europeu (BCE) está preocupado com um “risco de correção nos mercados de ativos tangíveis”, concretamente nos mercados de propriedades na área da habitação e do imobiliário comercial. Esse é um dos principais riscos para a estabilidade dos bancos da zona euro, que vão continuar a ter muitas dificuldades em melhorar a rentabilidade e, portanto, têm de fazer “esforços determinados para reduzir os custos” e “tomar medidas rapidamente”.

Estas são as duas principais ideias que constam do relatório semestral sobre Estabilidade Financeira na zona euro e, também, de uma entrevista que foi dada, nesse seguimento, pelo vice-governador do BCE, o espanhol Luis de Guindos.

No relatório, o BCE destaca que “os mercados de imobiliário habitacional têm-se mantido resilientes nesta pandemia, até ao momento, com o ambiente de taxas de juro baixas a suportar a procura ao mesmo tempo que as moratórias e os apoios ao emprego ajudaram a manter relativamente intacta a capacidade dos mutuários”.

Porém, mesmo assim, são crescentes os sinais de sobrevalorização na zona euro, como um todo”, avisa o BCE.

Em contraste, lê-se no mesmo relatório, “a pandemia levou a uma quebra abrupta e contínua na atividade dos mercados de imobiliário comercial, com uma quebra desproporcional na participação dos investidores estrangeiros mais fugidios”. Assim, diz o BCE, se houver um “choque económico com duração maior do que a prevista” e se, a par disso, houver uma mudança nas preferências do mercado [menor procura por espaços de escritórios, com a ascensão do trabalho remoto] então poderemos ter um declínio prolongado no mercado de imobiliário comercial”.

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Nem em 2022 os bancos vão recuperar rentabilidade pré-Covid

Estes são fatores que ameaçam a estabilidade dos bancos europeus, explicou Luis de Guindos no relatório, notando que a rentabilidade das instituições “deverá continuar a ser fraca”. Antes de 2022, pelo menos, não haverá um regresso à rentabilidade que existia antes da crise, o que não são boas notícias para a capacidade das instituições de emprestar às economias, de modo a dinamizar a retoma.

É por isso, disse De Guindos em entrevista à CNBC, que “os bancos têm de fazer um esforço determinado para reduzir os custos que têm atualmente, para melhorar o rácio entre custos e resultados [cost to income], portanto há medidas que têm de tomar rapidamente” nesse sentido.

Como nota a CNBC, as expectativas dos mercados financeiros neste momento são que este setor poderá ter em 2020 uma rentabilidade dos capitais próprios [return on equity, ou ROE] de 1,7% este ano, potencialmente subindo para 3,1% em 2021 e 5% em 2022. Mesmo aí, não chegará aos 6% que eram a média do ROE na banca europeia em 2019, segundo os dados do BCE.

A quebra no negócio associada à recessão, bem como as provisões que os bancos têm de fazer para precaver perdas nos créditos concedidos e que, em muitos casos, poderão não ser pagos na totalidade – estes são fatores que pesam muito na rentabilidade dos bancos, como já se viu nos números trimestrais que os bancos portugueses apresentaram nas últimas semanas.

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E, adianta o BCE, “o recente recrudescimento nas infeções [pelo novo coronavírus] e as novas medidas restritivas tornam provável que as projeções de rentabilidade sejam revistas em baixa, sabendo-se que também existe incerteza sobre quando é que uma vacina estará acessível para uma grande parte da população”.

O Banco de Portugal também vai apresentar na próxima semana, à imagem deste relatório para todo o Eurossistema, o seu relatório semestral sobre estabilidade financeira.