Um sentimento de missão “transversal a todos”, mas “intensas alterações emocionais”, alguma pressão social e estigma de vizinhos e profissionais que tiveram de ser medicados para a ansiedade e depressão. Estes são alguns dos resultados provisórios de um estudo desenvolvido pelo Núcleo de Investigação em Enfermagem (NIE) do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) que retrata as experiências vividas pelos profissionais de saúde deste hospital durante a pandemia de Covid-19.

O estudo, subordinado ao tema “Cuidar em Pandemia”, está a ser feito pelo Núcleo de Investigação em Enfermagem, juntamente com a Unidade de Psicologia Clínica do CHUC e a Health Sciences Research Unit: Nursing, contando com a participação de enfermeiros, médicos e assistentes operacionais do hospital que “cuidaram de pessoas infetadas ou que foram eles próprios infetados com a Covid-19”. A participação foi feita através de entrevistas realizadas entre maio e julho deste ano, sendo agora analisados quatro temas chave: a experiência a nível pessoal e profissional, a experiência com os outros, com a equipa e com a família.

Segundo António Marques, enfermeiro em funções de direção e coordenador do NIE, um dos aspetos que é “transversal a todos os profissionais entrevistados” é o sentimento de missão. “O cuidar dos outros foi encarado como um desígnio da profissão que escolheram, imbuídos de um forte espírito de equipa, que levou a que muitos se colocassem em risco para acautelar a proteção de colegas, cuja saúde era mais frágil. Amenizar a solidão dos doentes foi um dos principais focos de atenção dos profissionais”, refere, citado em comunicado.

No entanto, destacam-se as “intensas alterações emocionais” sofridas por médicos, enfermeiros e assistentes operacionais na linha da frente durante este período. Houve a “experiência de cuidar num ambiente de incerteza e de mudança constante, no qual reinava, no início, o medo, pouco depois seguido por um ambiente impregnado de ‘um silêncio de morte'”: “Havia um certo desespero de não conseguir dar resposta”.

Outro dos aspetos verificados nos resultados preliminares deste estudo foi “a pressão social e o estigma sentido por alguns profissionais, por parte dos vizinhos”, havendo vários profissionais de saúde que passaram a estar mais tempo em casa “para evitar olhares inquisidores e sentimentos incómodos”, refere o coordenador. Alguns, acrescenta, “chegaram mesmo a ser medicados para a ansiedade ou depressão”.

Tivemos pessoas que na primeira vaga, se viram forçadas a meses de isolamento em suas próprias casas, separados de todos, inclusivamente, da sua família”, referiu ainda António Marques, acrescentando que a “limitação inicial de recursos materiais e de equipamentos, nomeadamente de proteção” também “afetou a prestação de cuidados, nomeadamente o número de interações com os doentes”.

O uso de equipamento de proteção individual foi apontado como uma das maiores dificuldades, sobretudo por bloquear alguma comunicação entre profissionais e utentes. “Muitas vezes era preciso gritar para que os doentes nos ouvissem, o que nos levava ao esgotamento e a um sentimento de impotência de transmitir afeto pelas palavras”, acrescenta o responsável.

Áurea Andrade, enfermeira diretora do CHUC, diz reconhecer as dificuldades, mas salienta ainda que houve questões valorizadas pelos profissionais de saúde, “como a relacionada com a liderança e a gestão que se tornaram muito manifestas e preponderantes neste âmbito”. Pelo contrário, a dificuldade na testagem, sobretudo numa fase inicial da pandemia, e a forma de gestão da comunicação foram alguns dos problemas detetados.

“É certo que os desafios que tivemos de enfrentar foram enormes, mas, com trabalho em equipa e em articulação com o gabinete de crise fomos conseguindo dirimir as dificuldades que se nos apresentavam e antecipar os problemas”, sublinha Áurea Andrade.