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O que leva um pintor a pintar é o mesmo impulso que o leva a escrever? Se for escrever sobre pintura, se for escrever sobre o acto de pintar, se for escrever sobre a sua própria pintura, sobre aquilo que o leva a pintar, talvez a resposta possa ser sim, embora Jorge Martins nos diga que, se sabe porque escreve, não sabe porque desenha.

E o que é certo, na obra que aqui apresentamos, é que Jorge Martins escreve, essencialmente, como muitos antes dele o fizeram (desde o Renascimento), para perceber a sua arte, para a perceber no contexto restrito da arte dos outros e no contexto alargado de todos os discursos (literários, míticos, científicos) em que se insere; para, finalmente, perceber as suas motivações como artista, perceber o seu destino.

Com uma carreira longa e vasta, de exposições nacionais e internacionais, Jorge Martins sofre, como a generalidade dos seus conterrâneos artistas, da inexistência de mercado e crítica para acolher a arte portuguesa no panorama internacional. A sua obra divide-se, essencialmente, entre desenho e pintura, mostrando uma forte inventividade de formas e técnicas, sempre desenvolvidas em redor de temáticas absolutamente concretas (o corpo, o corpo feminino, o corpo erótico; objectos do mundo, aviões ou lanternas eléctricas; e encenações fragmentares do quotidiano) e em redor de formas/cores capazes de definir espaços ilusórios (mais ilusórios ainda do que é a ilusão esperada da pintura, diríamos) onde Jorge Martins situa esses corpos, esses objectos e essas cenas — porque o espaço (como o tempo) é obsessão maior na sua obra e na sua reflexão sobre a vida e a arte.

A capa de “Cadernos”, de Jorge Martins, edição do MARCO e da Documenta

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