É quase garantido que, nos próximos quatro anos, muitas serão as vezes em que não estarão alinhados — gerir os destinos de uma das grandes potências mundiais é um desafio imenso e não faltarão momentos e dias em que, em privado, Joe Biden e Kalama Harris terão discordâncias sobre decisões, prioridades e reações.

Neste final de semana, porém, o futuro Presidente dos EUA e a sua vice foram à estação CNN dar uma entrevista onde se tentaram mostrar inteiramente alinhados e onde falaram de muita coisa, do uso de máscara à relação dos EUA com a China, da vacinação à presença ou não de Trump na tomada de posse.

Um dos momentos mais peculiares foi a reação do futuro Presidente dos Estados Unidos da América a uma pergunta do apresentador Jake Tapper. O pivô da CNN notava que Donald Trump ainda não dera pistas sobre se iria à tomada de posse do seu sucessor — ou sequer se reconhecerá realmente a vitória eleitoral de Biden, sem meias tintas — e perguntava-lhe se era importante para ele, Biden, que o antecessor estivesse presente. A câmara focou o entrevistado, que se ria (ver aqui, logo no arranque do vídeo) mas Biden lá se recompôs e falou a sério.

Acho que é importante só num sentido — não num sentido pessoal, mas porque seríamos capazes de demonstrar que é o fim de este caos que ele criou, que era possível haver uma transferência pacífica de poder com as duas partes presentes, a apertar as mãos e a seguirem em frente”, referiu Biden.

O futuro Presidente dos EUA mostrou-se ainda preocupado com a imagem do país face à tensão entre o ainda Presidente e o sucessor: “O resto do mundo seguia-nos não apenas pelo exemplo do nosso poder, mas pelo poder do nosso exemplo. E repare como nos situamos agora no mundo, como somos vistos. As pessoas pensam: meu Deus, este tipo de coisas acontece em ditaduras, não nos EUA. Acho que o protocolo de transferência de poder é importante, mas a decisão é inteiramente dele e não terá consequências pessoais para mim — acho que as teria para o país”.

Embalado pela relação com Trump, Biden falou sobre a forma como quer conquistar também os apoiantes do anterior Presidente para unir o país: “Não irei só ao encontro da comunidade que me apoiou, irei ao encontro também daqueles que não me apoiaram”.

Acho que muitas pessoas estão simplesmente assustadas e acho que se sentem deixadas para trás e esquecidas. Não vamos esquecer ninguém neste esforço”, prometeu.

O apelo: “Só cem dias, não é para sempre. E vamos ver uma significativa redução”

Joe Biden afirmou ainda que vai pedir aos norte-americanos para usarem máscara durante os seus primeiros 100 dias na Casa Branca. A revelação foi feita durante a entrevista: “Só 100 dias de máscara, não é para sempre. Cem dias. E acho que vamos ver uma significativa redução [do número de casos de Covid-19]”, afirmou o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, que tomará posse em janeiro.

Ou seja, Joe Biden pede um esforço suplementar na utilização de máscara até algures entre final de maio e início de junho, colocando um prazo para um regresso a uma maior normalidade nessa data.

Este é um apelo que marca uma posição contrária à de Donald Trump, que muitas vezes desvalorizou o uso da máscara e até gracejou com a frequência com que o rival, Joe Biden, utilizava máscara em público. Recorde-se que, depois de ter estado hospitalizado devido à Covid-19, na chegada à Casa Branca, o ainda presidente dos Estados Unidos tirou a máscara apesar de estar infetado.

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Faucci? “Pedi-lhe para permanecer e também para ser meu conselheiro”

Ainda na entrevista, Biden afirmou que pediu a Anthony Fauci, diretor do diretor do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, para continuar no cargo e revelou que o convidou a fazer parte da sua equipa de combate à Covid-19.

Pedi-lhe para permanecer no papel que desempenhou para muitos presidentes e pedi-lhe também para ser o meu principal conselheiro médico e para fazer parte da equipa Covid”, disse o presidente eleito.

Durante a campanha para as presidenciais, Trump chegou a admitir a hipótese de despedir Faucci depois das eleições.

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“A vacina será segura quando o Dr. Faucci disser”

À semelhança de antigos presidentes dos Estados Unidos, Biden também afirmou que iria tomar a vacina em público para demonstrar que confia nela. “Quando o Dr. Faucci disser que a vacina é segura será nessa altura que o direi publicamente”, afirmou na entrevista.

Temos de deixar claro aos americanos que a vacina será segura assim que for determinada a sua aprovação”, apontou Biden.

O próximo Presidente dos EUA explicou ainda que haverá um esforço especial para dar prioridade à vacinação não apenas de grupos que estão na primeira linha de combate à pandemia — como médicos e enfermeiros — como de grupos de risco e residentes em lares, mas também comunidades afroamericanas e latinas. E explicou porquê: “As pessoas que são afroamericanas e latinas são as primeiras a sofrer quando algo acontece e as últimas a recuperar. Pode ver as estatísticas, se apanharem Covid têm uma probabilidade de morrer três a quatro vezes superior”.

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Joe Biden deu ainda detalhes sobre a forma como lidará com a China quando for Presidente: “Já falei sobre isto e até já me reuni com o Xi [presidente chinês] mais do que qualquer outra pessoa quando estive no cargo [de vicepresidente]: a minha preocupação será sempre tornar claro à China que existem regras internacionais. Se agirem de acordo com elas, teremos relação, se não, não teremos. Há normas internacionais que têm de cumprir”.