O líder opositor e presidente da Assembleia Nacional (parlamento) da Venezuela, Juan Guaidó, disse esta segunda-feira que a “fraude foi consumada” nas legislativas de domingo e anunciou que o parlamento continuará em funções até conseguir eleições presidenciais e parlamentares livres.

“A fraude foi consumada e a rejeição maioritária do povo da Venezuela foi evidente. Apesar da censura e da hegemonia comunicacional, a verdade não pôde ser escondida, a maioria da Venezuela virou as costas a Maduro (Presidente da Venezuela) e à sua fraude”, disse.

Numa mensagem ao país, divulgada em vídeo pela Internet, Guaidó defendeu que “só fazem fraude os que temem o povo, e Maduro, e o seu regime, perderam todo o apoio popular”.

Nós, os que queremos mudanças na Venezuela, somos uma ampla maioria, e por isso não se atrevem a convocar eleições livres, por isso têm de controlar o árbitro (eleitoral), escolher os seus adversários, negar a observação internacional, extorquir um povo com fome e necessidade, dizendo que quem não vote, não come”, afirmou.

Segundo o líder opositor, as forças que apoiam a revolução bolivariana “sabem que nunca ganhariam uma eleição livre”.

“Todos nós sabemos que os resultados foram preparados com dias de antecedência, com um falso Conselho Nacional Eleitoral, falsos candidatos [e] falsos opositores”, disse.

“Sabemos que na Venezuela de Maduro a fraude também não é novidade, vimos isso em 2017 com a falsa [Assembleia] Constituinte, com o roubo das eleições regionais e em 2018 com a fraude presidencial”, frisou.

No seu entender, nenhuma fraude “serviu a Venezuela, pelo contrário, só trouxe mais crise e sofrimento para o povo, mas também não serviu para resolver os problemas da ditadura nem para diminuir a pressão que hoje [esta segunda-feira] existe contra eles”.

“A cada fraude que cometeram, a crise, a pressão e o isolamento nacional e internacional contra os que hoje [esta segunda-feira] cometem fraudes têm aumentado”, apontou.

Guaidó recordou que nos últimos três anos se geraram ações contra o regime, afirmando que, por essa razão, esta segunda-feira os seus membros estão “acusados de crimes que lesam a humanidade, de tráfico de drogas […], e há mais de 60 países que reconhecem” a oposição como “legítima representante da Venezuela”.

“Quem hoje [esta segunda-feira] apoia e acompanha Maduro na sua loucura de manter o poder a todo custo, deve saber que é insustentável, que não haverá solução enquanto Maduro continuar a usurpar funções”, disse.

Por outro lado, instou os venezuelanos a “salvar e resgatar” a Venezuela e advertiu que em 5 de janeiro (data de início de funções do novo parlamento), os apoiantes de Maduro “vão tentar retomar o palácio legislativo, como já o tentaram em janeiro de 2020 e também após a fraude da (Assembleia) Constituinte”, “com armas, com paramilitares”.

“Não se surpreendam se tentarem avançar com esse ataque nos próximos dias […]. Eles poderão forçar a imprensa a transmitir a farsa do dia 5 de janeiro, tentarão, com perseguição, ocultar a representação legítima da Venezuela, mas não poderão suspender nenhuma das medidas de pressão. Não conseguirão aliviar a crise até que haja democracia”, acrescentou.

Guaidó explicou ainda que o foco da ação opositora é “conseguir uma solução através de eleições presidenciais e parlamentares livres, mobilizar o povo venezuelano através da consulta popular [que decorre de 7 a 12 de dezembro], para poder construir alternativas” e pedir “ajuda internacional para resgatar a democracia, responder à crise humanitária e acabar com os crimes que lesam a humanidade”.

“Não nos deteremos, vamos permanecer firmes e em funções para cumprir o nosso mandato constitucional (…). A Assembleia Nacional continuará em funções para conseguir eleições presidenciais e parlamentares livres que permitam a reconstrução do país e acabar com o sofrimento de nosso povo”, frisou.

Mais de 20,7 milhões de venezuelanos foram no domingo chamados às urnas para eleger os 277 deputados que vão compor a nova Assembleia Nacional.

O novo parlamento entrará em funções em 5 de janeiro de 2021, dois anos depois de o líder opositor Juan Guaidó se ter autoproclamado Presidente interino da Venezuela, prometendo convocar um governo de transição e marcar eleições livres e democráticas no país.

Começa esta segunda-feira consulta popular sobre validade da eleição de domingo

Os venezuelanos irão pronunciar-se em consulta popular, desde esta segunda-feira até sábado, sobre se rejeitam as eleições do passado domingo organizadas pelo regime de Nicolas Maduro, numa iniciativa da oposição liderada por Juan Guaidó.

A oposição a Maduro considera que as eleições de domingo não respeitam as condições mínimas de transparência, dizendo que são uma “fraude” organizada pelo Presidente eleito Nicolas Maduro.

Na sexta-feira, Juan Guaidó apresentou as alternativas de voto para a consulta popular que quer levar a cabo e que se inicia esta segunda-feira e decorre até sábado, propondo quatro meios através dos quais os venezuelanos poderão dizer se rejeitam a validade da eleição de domingo.

A oposição propôs a utilização de duas aplicações digitais para telemóvel (como o Telegram e o Voatz), a possibilidade de voto através de um site na Internet ou a participação feita por voto presencial em 7.000 mesas espalhadas pelo país.

Nesta consulta, a oposição venezuelana também interroga os cidadãos sobre se querem “a cessação da usurpação da presidência por Nicolas Maduro”, pedindo, em alternativa, eleições presidenciais e parlamentares “livres, justas e verificáveis”.

Finalmente, os venezuelanos são questionados sobre se “ordenam” que se tomem “as medidas necessárias perante a comunidade internacional para ativar a cooperação, o acompanhamento e a assistência que nos permitam resgatar a nossa democracia, enfrentar a crise humanitária e proteger as pessoas dos crimes contra a humanidade”.

Estas três questões foram aprovadas na quinta-feira pela maioria da oposição a Maduro no Parlamento, devendo os venezuelanos responder apenas “sim” ou “não”.

Os líderes da oposição não deram mais dados sobre os modelos de votação ou sobre as medidas de segurança que serão tomadas para evitar erros e assegurar o sigilo das respostas dadas através das aplicações digitais ou pelo ‘site’ na Internet.