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Melhores ligações rodoviárias aos países mais ricos da Europa e uma situação epidemiológica aparentemente mais controlada terão permitido a Itália “roubar” muitos turistas que poderiam ter ido para outros países do sul europeu, incluindo Portugal. Esta é uma das principais conclusões de um estudo da agência de rating DBRS que, olhando para a frente, antecipa que a recuperação do turismo não será rápida – e será ainda menos rápida em países mais dependentes do turismo estrangeiro, como é o caso de Portugal.

“O desenvolvimento de vacinas com índices de proteção potencialmente elevados é encorajador para a saúde pública e, consequentemente, para o setor do turismo e lazer. Porém, mesmo que a produção, a distribuição e a recetividade da vacina corram bem, poderá demorar muitos meses, no mínimo, até que se atinja um nível suficiente de imunização“, avisa a agência de rating. Isso fará com que as medidas de restrição às viagens devam continuar a existir nos próximos meses, embora haja indicações de que poderá haver uma recuperação do turismo sobretudo no terceiro trimestre do ano – entre julho e setembro.

Assim, diz a DBRS, “os países com mercados turísticos domésticos comparativamente maiores, como Itália e Espanha, irão sentir uma quebra menos severa“. Dados do Eurostat indicam que em Itália 76% dos gastos turísticos são feitos por cidadãos italianos e em Espanha a percentagem é de 44%, contrastando com os apenas 30% em Portugal e os 32% da Grécia.

Por outro lado, Itália deverá beneficiar do facto de mais de metade das deslocações turísticas nesse país (por cidadãos italianos ou por estrangeiros) serem feitas não de avião mas, sim, através de alternativas como a viagem rodoviária. Em Itália apenas 41% dos turistas chegam aos seus destinos de férias fazendo a maior parte da viagem de avião, o que compara com 70% em Portugal, 76% em Espanha e 88% na Grécia.

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A perceção de maior segurança associada à viagem em automóvel individual, em oposição aos voos ou outros transportes públicos, tenderá a ajudar Itália na fase da recuperação no setor turístico. “O setor turístico em países menos dependentes do transporte aéreo e com melhores ligações terrestres poderá ter melhores resultados – e Itália destaca-se pela positiva dada a sua localização geográfica, boas ligações rodoviárias e proximidade em relação a alguns dos seus principais mercados”, isto é, mais próximo de países de onde vêm a maior parte dos seus visitantes.

Esses fatores já foram, aliás, decisivos para a recuperação “pouco duradoura” que se verificou no turismo europeu nos meses de verão, antes de a chamada “segunda vaga” ter feito regressar as restrições apertadas à maior parte dos países. A proximidade de mercados como o alemão, austríaco e francês, “a par de uma situação epidemiológica melhor durante o verão”, terá feito com que Itália tenha “beneficiado de alguma deflexão turística”, isto é, pessoas que noutras circunstâncias poderiam ter ido para outras alternativas.

Os dados citados pela DBRS mostram que, entre julho e setembro, enquanto Espanha recebeu menos 79% turistas internacionais, a Grécia menos 77% e Portugal menos 76% (dados provenientes das dormidas), Itália registou uma quebra de “apenas” 49% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Por outro lado, Itália (e, também, Portugal) poderão ser mais penalizados pela percentagem comparativamente elevada das viagens por razões profissionais (em oposição ao lazer). Segundo os mesmos dados do Eurostat, 19% das viagens para Itália são em trabalho, um pouco mais do que Portugal, onde essa percentagem é de 15%. Em contraste, na Grécia são apenas 6% e em Chipre apenas 8%, o que deverá proteger estes países da mudança estrutural que a DBRS vê na área das viagens profissionais.

“A pandemia forçou uma limitação das reuniões entre as pessoas ao vivo, incluindo conferências e eventos, obrigando à opção pela alternativa dos encontros online. E mesmo quando a pandemia estiver controlada, é possível que nos próximos anos sejam estruturalmente menos frequentes as viagens de trabalho“, o que pode, nessa perspetiva, penalizar Itália e, em menor medida, Portugal.