Se existe alguma verdade absoluta na vida, é apenas uma: tudo pode mudar radicalmente de um instante para o outro. E o futebol, naturalmente, é um dos maiores exemplos dessa lei superior. Em agosto, quando o Bayern Munique venceu o PSG na Luz e conquistou a Liga dos Campeões, os alemães eram a melhor equipa do mundo, uma das melhores equipas dos últimos anos e uma equipa considerada invencível. Lewandowski foi o melhor jogador do ano, Neuer continuava imperial, Coman era o wildcard perfeito e Kimmich era considerado o elemento mais importante da máquina de Hansi Flick.

A consagração maior dessa equipa, pelo menos no que a troféus diz respeito, chegou esta quinta-feira. Lewandowski venceu o The Best para melhor jogador de 2020, Manuel Neuer ganhou o mesmo prémio na categoria dos guarda-redes e o Bayern Munique colocou quatro nomes no melhor onze do ano (considerando que Thiago Alcântara recebeu a distinção por aquilo que fez durante a época passada nos alemães e não este ano no Liverpool, para onde foi no mercado de transferências). Hansi Flick, o treinador que conquistou cinco troféus ao longo da temporada, perdeu o prémio de melhor treinador para Jürgen Klopp — mas as críticas que se levantaram em relação a essa votação foram suficientes para provar ao técnico dos bávaros que é mundialmente conhecido por tudo o que fez em 2019/20.

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Mas no futebol, tal como na vida, tudo muda num instante. E apesar de esta ter sido a semana de consagração do Bayern Munique da época passada, o Bayern Munique desta época tem sido totalmente diferente. Logo à partida, perdeu precisamente Thiago Alcântara para o Liverpool, deixando escapar um elemento que foi preponderante no meio-campo dos alemães na final eight da Liga dos Campeões. Em outubro, perdeu Alphonso Davies para uma lesão que tirou o jovem canadiano dos relvados até este mês de dezembro. E depois, em novembro e contra o Borussia Dortmund, perdeu Kimmich para uma lesão prolongada no joelho direito — e apesar do bom momento de forma de Lewandowski, do regresso de Davies e da renovada confiança de Coman, a falta de Kimmich parece ser praticamente insuperável.

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Antes da lesão de Kimmich, o Bayern levava uma série de dez jogos consecutivos a vencer — série essa que incluía vitórias demolidoras, como as goleadas por 4-0 ao Atl. Madrid, por 5-0 ao Eintracht Frankfurt e por 6-2 ao RB Salzburgo. Depois da lesão de Kimmich, o Bayern permanece sem derrotas — mas ganhou apenas metade dos jogos que disputou. Na antecâmara da visita ao Bayer Leverkusen, este sábado, o Bayern vinha de apenas duas vitórias nos últimos cinco jogos, sendo que empatou com o Atl. Madrid, o RB Leipzig e o Union Berlin desde o início do mês. A falta de Kimmich, além de na solidez e eficácia defensivas, notava-se principalmente na transição ofensiva e na criatividade de construção que o meio-campo da equipa de Flick costumava ter. E que agora, na ausência do internacional alemão, não tinha.

Kimmich foi preponderante na campanha que levou o Bayern Munique até à conquista da Liga dos Campeões no passado mês de agosto

Ora, lançadas as cartas, a verdade é que o Bayern Munique tinha esta semana o período mais otimista neste capítulo, já que Joshua Kimmich regressou aos treinos com a equipa nos últimos dias e estava na convocatória da visita a Leverkusen. “Espero que o Joshua esteja connosco outra vez em breve. Vejo-o todos os dias. Ele chega de manhã e fica até à noite a trabalhar para esse regresso, a suar. Ele é muito importante para nós enquanto equipa. Está sempre em controlo do jogo, cria muitos golos e marca muito para quem joga na posição dele. Estou sempre a pensar em oportunidades para o fazer descansar mas já sei que depois vai ficar chateado. Quer sempre estar dentro de campo”, disse Hansi Flick na antevisão do duelo com o Bayer.

Um duelo com o Bayer era também um duelo pela liderança da Bundesliga: o Bayern entrava para o jogo no segundo lugar, com menos um ponto do que a equipa de Peter Bosz, e com uma vitória poderia saltar para o topo da classificação. O problema é que, do outro lado, estava precisamente um Bayer Leverkusen que tem esta temporada um plantel de qualidade assinalável — apesar de ter perdido Kai Havertz para o Chelsea –, que também ainda não perdeu e que tem apresentado uma qualidade extraordinariamente regular. O jovem Florian Wirtz, de apenas 17 anos, é uma das figuras do grupo orientado por Bosz, que conta ainda com Diaby, Leon Bailey e Patrik Schick, o checo que os alemães contrataram à Roma no verão e que esteve emprestado ao RB Leipzig na época passada. Pelo meio, no onze titular deste Leverkusen, surge sempre Tapsoba, o central que saltou para a ribalta europeia a partir do V. Guimarães.

Com Kimmich no banco de suplentes, o Bayern Munique começou a perder logo à passagem do primeiro quarto de hora. Na sequência de um canto cobrado curto na direita, Amiri cruzou largo e Schick, mesmo no início da grande área, tirou um sensacional pontapé de primeira, com o pé esquerdo e à meia volta, para bater Neuer (14′). O mesmo Schick ainda voltou a marcar, ao ser isolado na cara do guarda-redes alemão depois de um erro de Coman, mas o lance foi anulado por fora de jogo do avançado checo (28′). Foi nesta fase, por altura da meia-hora de jogo, que o Bayern Munique sofreu ainda outro revés: Kingsley Coman, o herói da final da Liga dos Campeões em Lisboa e um dos elementos em destaque esta época, com cinco golos em 14 jogos, sofreu uma lesão muscular na coxa e saiu, sendo substituído por Leroy Sané.

Nos últimos instantes da primeira parte, o Bayern continuava sem ter qualquer remate à baliza. E o resumo do jogo até então deixava perceber que a equipa de Flick estava mais reticente e expectante, a tentar perceber quando e como teria oportunidades para avançar, enquanto que o Bayer apresentava a lógica habitual, com uma profundidade praticamente letal e muita velocidade a partir do meio-campo. Ainda assim, acabou por ser um erro da defesa do Leverkusen a oferecer de bandeja o empate ao Bayern, que ainda pouco ou nada tinha feito para o merecer. Tapsoba errou um passe, Muller cruzou e o central Tah tentou aliviar uma bola que ia direitinha para as mãos do guarda-redes Hradecky; os dois colegas de equipa chocaram e a bola sobrou para Lewandowski, que totalmente sozinho e sem tirar os pés do chão só precisou de encostar de cabeça para a baliza deserta (43′).

Ao intervalo, o empate não espelhava a superioridade do Bayer Leverkusen e o facto de o Bayern Munique ter marcado no único remate enquadrado que realizou. Na segunda parte, porém, foi a equipa de Hansi Flick que entrou com vontade de dar a volta ao resultado, obrigando a defesa adversária a trabalhos redobrados — principalmente Tapsoba, que se agigantou na grande área do Leverkusen e segurou a igualdade em diversas ocasiões, e o guarda-redes Hradecky. A diferença fazia-se principalmente pelo corredor esquerdo, onde o Bayern aparecia com maior profundidade e intensidade e Alphonso Davies tinha uma preponderância que não tinha tido durante a primeira parte.

A cerca de 20 minutos do apito final, chegou o momento por que os adeptos do Bayern tanto esperavam: Kimmich regressou à competição, para substituir Tolisso. Em oposição, Flick também lançou o jovem Musiala e tirou Leroy Sané, que tinha entrado no primeiro tempo e que esteve sempre totalmente alheado da partida, acumulando erros de decisão e discernimento. O avançar do relógio, contudo, mostrava um Bayer Leverkusen progressivamente mais confortável com o resultado, ciente de que o empate deixava tudo na mesma e assegurava a manutenção na liderança da Bundesliga. Do outro lado, o Bayern continuava a procurar o segundo golo — mas sem a acutilância a que nos habituou na época passada. Até ao fim, Musiala ainda acertou no poste, Schick saiu lesionado e o resultado só voltou a alterar-se no último instante.

Tah voltou a cometer um erro inexplicável, Lewandowski aproveitou e bateu novamente Hradecky com um remate cruzado (90+3′). A bola só voltou ao centro do terreno para que o árbitro da partida pudesse apitar de imediato para o final do jogo e o avançado polaco garantiu mesmo a vitória do Bayern Munique — e a liderança da Bundesliga — no último lance do encontro. Chamem-lhe The Best, melhor do mundo, melhor do ano, o que quiserem. Mas que Lewandowski é tudo isso, já ninguém tem dúvidas.