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São já quase 150 os estabelecimentos lisboetas que exibem o selo Lojas com História. Infelizmente, a certificação não poupa estes espaços comerciais, alguns deles centenários, às agruras provocadas pela pandemia. Sem turistas e com o contacto físico reduzido ao indispensável, os pequenos negócios subsistem, enquanto outros ameaçam sucumbir à incerteza com que ainda se encara a retoma.

Perante a regra, há exceções e desdramatizações, bem como espólios tão ricos que conhecê-los devia ser requisito. No momento em que se fazem as últimas compras de Natal, visitámos nove lojas consideradas com história pelo projeto da Câmara Municipal de Lisboa. Duas delas — a Drogaria Oriental e a Viúva Lamego — fazem parte da última leva de 14 locais a merecer o estatuto, em outubro deste ano. Todas, sem exceção, merecem destaque no livro “Lojas com História 2”, editado pela Tinta-da-china, depois de um primeiro volume publicado em 2017.

O livro já está à venda, custa 32,90 euros

O roteiro serpenteia pela cidade, incluindo cada vez mais bares e restaurantes e distanciando-se, por vezes, do centro da cidade. Bairros como Alvalade, Benfica e Campo de Ourique, com as suas dinâmicas, têm permitido aos velhos negócios manter a proximidade com a clientela. A poucos dias do Natal, aqui também se encontram bons presentes. Nós, pelo menos, voltámos com mais de 40. Estão todos na fotogaleria.

A Mariazinha

Avenida Rio de Janeiro, 25 B. 21 849 1562. De segunda a sexta-feira, das 9h às 13h30 e das 15h às 19h, e sábado, das 9h às 13h30

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Desde 1957 que esta mercearia requintada abastece o bairro de Alvalade, embora hoje a fama d’A Mariazinha chame clientela de toda a cidade e até de fora dela. Contra todas as expectativas, 2020 foi um ano recorde no que toca a vendas. Sempre de porta aberta e com uma loja online que ainda cheira a novo, o exemplo desta casa é contracorrente. Por estes dias, faz-se fila à porta, em parte porque o antigo hábito de coar o café conquistou os mais novos e, claro, nunca chegou a ser abandonado pelos mais velhos. Ao todo, vendem-se aqui 24 qualidades de café, sem contar com os blends próprios, quatro de café e um de descafeinado, e com as versões à base de chicória e cevada. Junte-lhe chás, infusões, biscoitos (na maioria portugueses), chocolates (na maioria italianos e belgas) e quilos de frutos secos, exatamente como dita a época.

© Melissa Vieira/Observador

Armazém das Malhas

Rua do Forno do Tijolo, 50. 21 814 5034. De segunda a sexta-feira, das 10h às 13h e das 15h às 19h, e sábado, das 10h às 13h

É um clássico lisboeta revitalizado por uma nova geração de empreendedores. Falamos de Tiago e Tomás Marques Luís, netos de Burbalino Marques, o visionário que, no romper dos anos 50, sediou esta casa no bairro dos Anjos, para comercializar malhas de confeção própria. Quase sete décadas depois, o Armazém das Malhas continua a ser um negócio de família, a loja conserva o charme de sempre e a moda — que vai das meias quentinhas e dos cachecóis em lã às camisolas e casacos para homem e mulher — cumpre os requisitos de uma nova geração de consumidores. A produção, essa, continua a ser feita em Portugal.

© António Garrido

Drogaria Oriental

Rua dos Fanqueiros, 238. 21 887 3869. De segunda a sexta-feira, das 9h30 às 19h

Longe vai o tempo em que as drogarias proliferavam na Baixa Pombalina. Hoje, contam-se pelos dedos de uma única mão e veem de longe o desafogo de antigamente. Esta foi batizada em 1893 por um adepto ferrenho do Oriental Clube de Lisboa. É herdada pela sua viúva quase 50 anos depois. Emídio Pereira, um funcionário da casa, foi comprando quotas até se tornar o único sócio da Drogaria Oriental. Uma vida passada de mão em mão e que não ficou por ali. Há dois anos, o estabelecimento foi comprado pelos proprietários da Drogaria São Domingos, outra resistente, junto ao Rossio. Hoje, nas prateleiras, predominam as novas marcas e produtos, embora alguns rótulos continuem a apelar à nostalgia. Marcas como Nally, Couto, Olex e Ach. Brito estão vivas e recomendam-se. Apesar de ser época baixa para ir a banhos, as toucas de flores continuam a atrair clientes.

© Melissa Vieira/Observador

Ervanária Rosil

Rua da Madalena, 210. 21 886 5215. De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, e sábado, das 9h às 13h

Se acha que uma ervanária não é o local mais indicado para comprar presentes, pense no bem que uma infusão de perpétuas roxas pode fazer a garganta de um pai Natal de improviso ou no alívio que a mistura de plantas certa pode trazer a um estômago fustigado pelo cardápio festivo. Mudada a perspetiva, eis a histórica Ervanária Rosil, de portas abertas há precisamente 70 anos e, muito provavelmente, a loja mais aromática da Baixa. Ao todo, existem aqui 47 misturas medicinais (fora as plantas avulso para composições feitas na hora), todas elas cunhadas por Aníbal Rodrigues, o ilustre fundador. O armazém fica na mesma rua, é lá que a matéria-prima é cortada e as fórmulas seguida à risca. Daqui, seguem para todo o país. Em breve, o investidor que há dois anos comprou o negócio, espera lançar a loja online.

© Melissa Vieira/Observador

Folha d’Ouro

Rua de Santa Marinha, 30-32. 96 299 4376. Recomenda-se marcação

Este atelier tem um único rosto, o de Helena Gramaço. Em 1988, foi aqui que se instalou para dar largas ao ofício que acabara de aprender no Instituto de Artes Ofícios, pertencente à Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva. A pintura figurativa, a lacagem e o trabalho em folha de ouro e de prata são, até hoje, as técnicas que emprega nas suas peças. A escala não podia ser mais diversa — tão depressa restaura um biombo, como decora pequenas caixas em madeira e bandejas. É aqui que trabalha e recebe os seus clientes, seguidores de longa data ou curiosos de passagens, esses, por obra da pandemia, muito mais escassos. Na Folha d’Ouro, sobram as aves e as flores, indício claro de um gosto pelos motivos naturalistas, para lhe fazerem companhia.

© Melissa Vieira/Observador

Lourenço & Santos

Praça dos Restauradores, 47 A-B. 21 346 2570. De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 13h

Nem mesmo o reinado da moda desportiva pôs fim ao hábito de vestir um blazer devidamente ajustado ou de colecionar mais uma gravata de seda. A Lourenço & Santos, cuja história remonta a 1910, é a prova disso. A loja já esteve instalada no edifício do Hotel Avenida Palace, tendo mais tarde ganhado uma segunda casa, na morada da antiga Pastelaria Riviera. As duas coexistiram durante anos, a poucos metros de distância. Hoje, resta este exemplar único, propriedade da Diniz & Cruz. À parte das malhas importadas de Itália, camisas, calças e casacos são de confeção exclusiva da casa e feita nos arredores de Lisboa. Dos lenços de bolso aos sobretudos, esta montra de Natal molda-se ao orçamento.

© Melissa Vieira/Observador

Maria João Bahia

Avenida da Liberdade, 102. 21 324 0020. De segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, e sábado, das 10h às 13h

Poucas peças simbolizam a dedicação e o esmero na escolha de um presente de Natal como uma joia. Que o diga Maria João Bahia, que começou por montar o próprio atelier em 1985, na Rua da Madalena. Só bem mais tarde é que chegou à avenida mais luxuosa do país e logo para ocupar um prédio inteiro, com loja, atelier e oficina. Das peças mais convencionais, como anéis, brincos e colares, a autora foi explorando novas áreas. Aplicou a arte da joalharia a peças para levar à mesa e decorativas. Um universo muito próprio de cores e formas orgânicas, numa montra com o selo de histórica.

© Divulgação

O Mundo do Livro

Largo da Trindade, 11-13. 21 346 9951. De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 13h

Esta loja tem dois tipos de clientes: os que fazem quilómetros só para a visitar, mesmo que isso implique cruzar fronteiras, e os que, mesmo entre os lisboetas, se espantam por nunca ali terem entrado. Não é para menos, afinal são três pisos repletos de livros e, ainda em maior quantidade, gravuras. Em 1945, João Rodrigues Pires abriu a sua própria livraria, um vão de escada na Rua Nova da Trindade. Só em 1953 é que se mudou para a atual morada, hoje em dia paredes meias com o 100 Maneiras de Ljubomir Stanisic. O livreiro morreu em outubro do ano passado, aos 100 anos, e deixou um tesouro de valor incalculável. Durante a década de 80, desencantou-se com os livros e reuniu centenas de gravuras, de Lisboa vista do Tejo ainda no século XVI aos esboços que ilustraram o naturalismo britânico do século XIX. Entre primeiras edições de Pessoa, obras completas assinadas, encadernações de luxo e outras raridades, esta loja é mesmo um mundo.

© Melissa Vieira/Observador

Viúva Lamego

Largo do Intendente, 25. 21 231 4274. De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h30

Foi aqui que, em 1849, António da Costa Lamego abriu a sua fábrica. Talento promissor no ramo da olaria, mas também dotado de espírito empreendedor, viria a construir a Viúva Lamego. Hoje, a atual loja ocupa parte do edifício. Saídas da atual fábrica, em Sintra, as peças são sobretudo objetos utilitários para levar à mesa, embora o azulejo ressalte como mais do que um mero revestimento. É usado em tabuleiros, como base de empratamentos modernos e como tela para artistas convidados. Bela Silva é um dos nomes que, por estes dias, preenche o espaço. São manchas de cor sólida que contrastam com as minuciosas pinturas manuais dos restantes objetos. Através das formas e das figuras, contam a história de uma das mais duradouras marcas portuguesas.

© Melissa Vieira/Observador

Veja as nossas sugestões de presentes de Natal na fotogaleria.