O arranque de João Cancelo no Manchester City não foi propriamente fácil. Os jogos não eram muitos, as exibições tinham pouco de conseguidas e o próprio Pep Guardiola ia deixando algumas indiretas ao rendimento do jogador na forma como não se teria ainda adaptado à ideia de jogo. Aliás, apenas seis meses depois de ter trocado Turim e a Serie A pela Premier League, foi ventilado um possível regresso à Liga espanhola. “Quando o Cancelo joga, joga bem. Tem qualidade, faz duas ou três assistências. Deve decidir se continua connosco ou não. Este é um país livre e cada um pode decidir o que fazer com a sua vida. Contratámos o Cancelo para ficar muitos anos, não apenas por seis meses, mas o que acontecer, acontece”, disse o técnico espanhol. Ficou e a situação mudou.

Depois de uma segunda metade de época 2019/20 mais regular e com utilização mais frequente, a possível saída tornou-se uma “não questão”. Mais do que isso, e até mesmo nos melhores momentos de Kyle Walker, Cancelo foi ganhando o espaço de indiscutível na equipa ocupando tantas ou mais vezes o lado esquerdo da defesa do que a sua posição de origem. “O mais incrível no João é que está completamente diferente em relação a quando chegou. Precisámos de tempo para nos entendermos. O que quero sempre dele é este comportamento que tem tido desde o recomeço da Liga. Estava a ser o melhor jogador nos treinos mas infelizmente teve um pequeno problema numa perna e teve de parar. Mas quero-o com esta atitude porque sabe a qualidade que tem”, disse Guardiola no final de uma temporada já após a retoma que terminou sem títulos mas com o português cada vez mais integrado.

Na presente temporada, o Manchester City não tem feito propriamente o percurso mais regular. Longe disso. E basta dizer que a equipa não conseguiu mais do que duas vitórias consecutivas na Premier League à 14.ª jornada. No entanto, e se hoje a realidade coletiva começa a ser diferente, João Cancelo manteve-se sempre como um dos elementos mais regulares e com maior preponderância no jogo da equipa. “Joga excecionalmente bem com e sem bola. Quando é consistente, o foco dele é fantástico. Teve um incrível impacto nesta época. O compromisso, o foco. Tem uma personalidade incrível, é muito bom a recuperar. No último terço tem uma qualidade única, pode ser um extremo. Tal como Mendy, deve focar-se na defesa. Está cada vez melhor, a confiança dele aumentou bastante”, reconheceu antes da deslocação ao Dragão a contar para a Champions que selou o primeiro lugar.

Frente ao Newcastle, o lateral, agora na direita pela ausência de Kyle Walker que testou positivo à Covid-19, foi o melhor do Manchester City num dos triunfos mais fáceis e convincentes da temporada frente ao Newcastle. E se em termos defensivos o facto de ter sido um encontro de sentido único não colocou muitos dilemas, no plano ofensivo o português esteve em todas as melhores jogadas da equipa incluindo nos golos, vendo a entrada de Sterling pela direita na jogada que deu o 1-0 a Gündogan (14′) e cruzando para o desvio de Karl Darlow que originou o 2-0 por Ferran Torres (55′), entre várias outras oportunidades criadas sobretudo no decorrer do segundo tempo. Se os antigos campeões estão cada vez mais próximos do topo, devem muito ao lateral esse trajeto. 105 toques, 78 passes, 87,2% de eficácia, três dribles ou dois cruzamentos foram alguns dos números individuais.

“Amanhã [Domingo] os jogadores têm de recuperar e prepararem-se num dia. Esta pandemia coloca-nos numa situação extrema mas é assim que a Inglaterra gosta, por isso temos de aceitar. João Cancelo? É um jogador incrível. A capacidade física que tem é incrível. Podia jogar já amanhã. No último terço, tem uma qualidade especial e tem coragem, às vezes peço-lhe para jogar em posições nas quais não se sente tão confortável”, comentou Guardiola no final de um jogo que colocou o City em quinto a três pontos do segundo e menos um jogo.