Título: Platibandas do Algarve
Fotografia: Filipe da Palma
Autores: Miguel Reimão Costa, Pedro Prista e outros
Editor: Argumentum
Páginas: 143, ilustradas
Preço: 35 €

A capa de “Platibandas do Algarve” (Argumentum)

Entre a boa e variada arquitectura vernacular e a melhor arquitectura contemporânea em meio campestre ou serrano, rasgou-se o abismo sem fundo da proliferação generalizada de mamarrachos urbanos e «moradias» de padrão bastante duvidoso, que transformou a paisagem portuguesa continental num autêntico refugo de produtos toscos, quase únicos e tipificados, descaracterizando por completo, em poucas décadas apenas, o que ainda valia alguma coisa — em perspectiva comparativa, essencial — num país pequeno como o nosso mas mosaico bem diferenciado de modos de construir e viver, com expressões artísticas locais ou regionais que de imediato saltam à vista de quem passa. Por emigração, fecho de oficinas profissionais e muito descaso congénito, o desmantelamento da transmissão intergeracional de ofícios antigos que salvaguardava técnicas de construção em materiais autóctones e modelos de climatização doméstica natural (das paredes-mestras ao foro dos telhados), de tudo um pouco ajudou ao colapso duma riqueza antropológica e cultural que arquitectos modernistas observaram com respeito e curiosidade em finais dos anos 1950, num famoso inquérito financiado por três ministérios e uma grande fundação privada, que em vez de valioso compêndio para recriações futuras não foi, afinal, senão a expressão de um estrebuchado e derradeiro canto de cisne…

Neste livro da Argumentum, quatro autores e um prefaciador observam a platibanda algarvia sob pontos de vista diferenciados mas complementares, «da arquitectura à geografia, da história da arte à antropologia» (p. 15), acompanhando o registo fotográfico que Filipe da Palma (1971-) ali realizou nas últimas décadas, por sinal as mesmas em que o caos urbanístico litorâneo, a desertificação serrana e a desvitalização económica das vilas médias do Barrocal feriram mais ou arruinaram de vez o antigo património imobiliário algarvio. Ainda assim, a preferência dada ao inventário de Palma — certamente um curioso bem intencionado mas no final um fotógrafo diletante (expôs no início de 2020 «Algarve Sortido Rico» no Museu Municipal de Olhão), sem qualidades suficientes para o muito exigente ofício de fixar arquitectura em imagens — acaba por diminuir a metade o efeito a que esta publicação podia almejar, pois lhe falta, também, a representação cartográfica regional e a indexação geográfica das construções localizadas, dois elementos essenciais a uma historiografia válida. Não temos — ao contrário do que o bom senso recomenda e do que publicações congéneres de referência ensinam — dados precisos sobre os edifícios fotografados (rua e número da porta, estado actual, data da imagem e até eventual classificação patrimonial), só a localidade ou concelho a que pertencem (e por que não, agora, o respectivo gps?), o que deveria ter obrigado a uma revisitação dos lugares com vista à passagem efectiva e actualizada de um arquivo fotográfico privado construído ao sabor dos anos para a condição fundamental de peça estruturante de um livro sobre assunto tão específico, que o título parece ambicionar.

O próprio formato de álbum atribui logo à partida às fotografias de Filipe da Palma uma exigência de qualidade regular que elas manifestamente não têm, ou não têm sempre, tal é a profusão — ou a confusão — de planos e escalas adoptados, decerto uma consequência das circunstâncias amadorísticas ou furtivas em que o inventário fotográfico foi feito. Qualquer construção — ou qualquer pormenor dela —, para ser plenamente compreendida, precisa de ser observada no aglomerado urbano ou no território rural em que se insere. Pormenores ornamentais interessantes surgem desenquadrados dos edifícios a que pertencem e pelos quais também deveriam ser avaliados (v. pp. 27, 32-33, 42 base, 46 base, 48 topo e base, 57, 65 topo, 74 centro, 80-81, 122, 135, 142), ao mesmo tempo que platibandas distinguidas em publicações anteriores são ignoradas por completo. Refiro-me à da casa de Castro Marim reportada por José Manuel Fernandes e Ana Janeiro à p. 75 de Arquitectura no Algarve, dos primórdios à actualidade (2005), às de Espragal e Guia registadas por Ricardo Agarez às pp. 39 e 137 de Modernism, Regionalism and Architecture in the South of Portugal, 1926-1965 (um livro de 2016), e desde logo à de Santa Luzia fotografada para o referido Arquitectura Popular em Portugal (1961; ed. 2004, p. 351). Palma dá mostras de desconhecer essa «herança»: a bela casa de Corte de Seda, Alcoutim, fotografada em 1955 para o inquérito do Sindicato dos Arquitectos — imagem que Agarez muito bem resgatou à sua p. 114 e o editor Filipe Jorge também recuperou —, aparece neste portefólio apenas com um mau enquadramento de pormenor (contrastem-se as pp. 49 e 75), como se de duas edificações distintas se tratasse…

Omissões deste tipo em número considerável parecem, aliás, ter sido evitadas aqui e ali por imagens colhidas pelo próprio editor e arquitecto (pp. 24, 25, 30, 35, 44, 47), ou tomadas de arquivos mais conhecidos, como os de Artur Pastor, autor em 1965 do álbum Algarve (pp. 36, 136), do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (Carminda Cavaco, p. 132) e da Ordem dos Arquitectos (pp. 21, 29, 34, 45, 49, 50, 59, 67, 69, 83, 138), deixando-nos margem para pensar quanto mais ou melhor, sobretudo se já demolido, poderia ter sido ou pode ainda ser respigado em espólios de casas fotográficas locais de alguma importância, extintas ou activas, como o centenário Estúdio Tavares, de Tavira, e de outros, quiçá os do arquitecto-fotógrafo Victor Palla (muito activo profissionalmente nos anos 1960 na região algarvia), do geógrafo-fotógrafo Orlando Ribeiro, do escultor-fotógrafo João Cutileiro ou do etnógrafo-fotógrafo Fernando Galhano, para referir apenas os mais evidentes ou prováveis.

Se estas fragilidades — e todavia, elogie-se sempre a boa e genuína motivação de Filipe da Palma — fazem mal a este livro, os ensaios breves de Miguel Reimão Costa, José Eduardo Horta Correia, Alexandre Tojal e Pedro Prista, ou o prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins, compensam largamente esse prejuízo.

Períodos áureos das indústrias corticeira (1880-90) e conserveira (1922-24), atingindo de modo particular Silves e São Brás de Alportel, Vila Real de Santo António, Tavira, Olhão, Faro, Loulé, Portimão e Lagos, permitiram que a «habitação mais endinheirada» (p. 24), mas também construções industriais e edifícios públicos, ganhassem estatuto distintivo — verdadeiro «espaço de representação» ousando novas tendências estéticas, como o eclectismo e depois o art déco (platibandas: pp. 42 centro, 50 base, 58 base, 74) —, replicado na região do xisto «a partir do início da década de 1930, em particular nas casas dos maiores lavradores serranos, beneficiando das primeiras colheitas abundantes da Campanha do Trigo [desde 1929]» (Reimão Costa, p. 26). Alguns algarvios aproveitariam a instalação de uma rede rodoviária regional, como em Luz de Tavira, ou a passagem da linha férrea por São Bartolomeu de Messines, para exibir em edificações de beira de estrada as suas admiráveis realizações, aquilo a que Pedro Prista chama «as expressões mais legíveis do sucesso dos afortunados» (p. 139). Ao mesmo tempo que ajudava a recolha de águas fluviais na cisterna doméstica, que historicamente lhe antecede, a platibanda instituiu-se como remate de fachada muito popularizado no Algarve, de ricos a pobres, da cidade para o campo, permitindo esconder — como Leite de Vasconcellos assinalou — a cobertura duma construção, ou mesmo a aglomeração num mesmo edifício, original ou modificado, de várias coberturas (telhado de uma água ou de duas com pau de fileira, telhado de tesoura ou açoteia sobre abóboda, por vezes dupla), ou servir de «guarda da açoteia em toda a frente da fachada» (p. 79).

«A valorização da fachada — escreve Miguel Reimão Costa — é uma das dimensões que regista a profunda transformação da arquitectura corrente do Algarve a partir da segunda metade do século XIX» (p. 88). A platibanda tornou-se «quase ominipresente na região, e em particular no Baixo Algarve» (p. 90). No capítulo «Platibandas e o viver urbano», Alexandre Tojal explica que nesse período códigos de posturas e regulamentos municipais quanto à recolha de águas fluviais impulsionaram a preferência por fachadas com platibanda, para «maior higiene, conforto e disciplina na fruição da via pública» (p. 123).

Contudo, apesar da «difusão interpelante» desse festivo remate das fachadas, é tardia a fascinante experimentação cromática e ornamental, com motivos vegetalistas ou geométricos em alto-relevo por argamassa vazada em moldes (notável a de Quatro Estradas, Loulé, p. 135), ou baixo-relevados, por vezes conjugando frisos de azulejaria (exemplo especial é o da p. 122, mas v. também as pp. 26 base, 57, 62-63, 74 topo) ou alinhando balaústres cerâmicos, pois irrompe com a «emergência do betão armado e dos materiais de produção industrial» (p. 79). Ainda assim, no capítulo «Antes das platibandas», José Eduardo Horta Correia recua até ao decorativismo barroco que animara a arquitectura chã algarvia (um «património das composições decorativas em massa do século XVIII, sistematicamente destruído ao longo de todo o século XX pela incúria dos homens e a perecibilidade dos próprios materiais», p. 103), para justificar a suposta ascendência regional de platibandas artísticas, a partir do caso de um afamado mestre pedreiro e dos seus trabalhos de «classicismo erudito» (p. 101). De seu nome Diogo Tavares de Ataíde (1711-65), trabalhou a pedra em jeito de talha em construções de aparato ainda hoje de pé em Tavira e Faro, com recurso precoce a massa de pedreiro em representações de Hércules e do Adamastor, e sobretudo da índia brasileira Catarina Paraguaçu figurada como América cristianizada ou convertida, entre serpentes e golfinhos, na platibanda dum armazém rural às portas da capital do Algarve.

Pedro Prista, antropólogo do Instituto de Ciências Sociais, preferiu debater o «tão grande destaque e [a] tão forte expansão rural» (p. 132) das platibandas nas casas do Barrocal na primeira metade do século passado, à luz da sua afirmação plástica enquanto «impulso à experientação da novidade e do ornamental» e «recusa à conformidade etnográfica» (pp. 130, 131). Sem terem alcançado as chaminés e açoteias como regionais típicos mas ganhando «envergadura patrimonial e recorte histórico», não escaparam todavia à sua depreciação enquanto «desfaçatez às tradições da casa rural» e «elemento espúrio na arquitectura tradicional, material e moralmente feridas de uma ilegitimidade etnológica» (pp. 141, 133). O Guia de Portugal de 1924 ignorou-as, Leite de Vasconcellos também, e a esforçadíssima e tão saudosa dupla de etnógrafos Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, que «cobriram com grande detalhe e profundidade toda a variedade de construções tradicionais do Algarve» (p. 135), não fizeram muito melhor, em 1959, do que notar a sua presença absoluta na pequena Santa Bárbara de Nexe e a incidência maior no triângulo Loulé-Alportel-Faro. Ao contrário de todos estes, Pedro Prista fixa neste fértil território agrícola «de escala miniatural e embaraçado por pedras», «lugar de migrações de proximidade e de ciclos curtos de permanência geracional» que impunha «uma ciranda de deslocações constantes entre tantas terra e culturas», o lugar propiciatório para se «estar atento às novidades e solto de grandes apegos locais» (pp. 137, 138, 139). E se a visão objectiva do antropólogo encontrou nas platibandas espalhadas pelos intrincados caminhos do Barrocal as mais fortes «razões da sua exuberância algarvia», como «cifra das tensas condições históricas do seu tempo, e dos anseios por uma vida que as superasse», a quem por ali agora passe fica o encargo de ver o avesso dessa «festividade decorativa» das casas dos algarvios: «a angústia de uma vida constrangida por tantos impedimentos e riscos, a lançar o brado da sua vontade de ter esperança» (p. 141)…