Marcelo Rebelo de Sousa entende que a generalidade dos idosos devia ter merecido mais atenção no plano de vacinação contra a Covid-19. Mesmo sem se comprometer com uma crítica clara ao plano desenhado pelo Governo, o Presidente da República e candidato nestas eleições sugeriu que seria “mais generoso” com os mais velhos na primeira fase de vacinação.

Nesta primeira fase está prevista a vacinação de pessoas com mais de 50 anos com doenças associadas, utentes e trabalhadores de lares e profissionais de saúde e de serviços essenciais. Em entrevista à RTP, Marcelo reconheceu que não há só uma resposta possível e até deu exemplos de estratégias diferentes seguidas por diferentes países. Ainda assim, Marcelo não resistiu em deixar uma crítica velada: teria dado mais atenção aos mais velhos.

A minha inclinação seria a de ser mais generoso nos idosos que entram na primeira etapa“, disse.

Sobre a polémica do dia — os aumentos salariais na TAP — Marcelo foi particularmente duro: “Apelaria a que houvesse bom-senso e não houvesse aumentos. É preciso que se dê o exemplo. Em política o que parece é e a perceção é fundamental e deve fazer-se mais para que a perceção seja melhor”, criticou.

A propósito do Orçamento do Estado, que o Presidente promulgou esta terça-feira, Marcelo assumiu que não fosse a crise sanitária e económica em que o país vive e teria sido mais duro com o Governo — apesar de ter afastado o cenário de chumbo em qualquer situação. Ainda assim, o antigo líder social-democrata deixou uma crítica de fundo à estratégia de António Costa: não basta acudir à crise com pensos rápidos; são precisas soluções estruturais.

A pobreza aumentou com a pandemia, as desigualdades aumentaram. Não vai bastar olhar para finanças do Estado e para recuperação económica. É preciso olhar para o tecido social”, avisou Marcelo.

Marcelo recua nas críticas aos ministros

Na entrevista que tinha dado à TVI, Marcelo Rebelo de Sousa tinha sido particularmente duro com Marta Temido e Eduardo Cabrita, sugerindo que a primeira tinha enganado os portugueses a propósito do acesso à vacina para gripe e que o segundo não tinha condições para ficar no cargo.

Desta vez, no entanto, Marcelo foi muito mais recuado. Sobre a ministra da Saúde, o Presidente da República limitou-se a fintar a questão, sem deixar uma resposta concreta. No caso do ministro da Administração Interna, Marcelo não só defendeu ativamente Cabrita (“em matéria de fogos foi irrepreensível”), como fez questão de esclarecer que nunca quis visar diretamente o ministro no caso da morte do cidadão ucraniano às mãos de agentes do SEF.

Marcelo tinha dito a esse propósito que “valia a pena pensar se quem, no plano da administração pública, exercia funções que tinham conduzido a certo resultado seria indicada para a mudança “. Ora, esta frase tinha sido interpretada com um cartão vermelho a Cabrita. Na entrevista à TVI, aliás, o candidato presidencial estabeleceu um paralelo com a comunicação que tinha feito ao país durante os incêndios de 2017 e que resultou na demissão de Constança Urbano de Sousa.

Marcelo aponta porta de saída a Cabrita: “Há dias, fiz declaração paralela, ministra [Constança] pediu exoneração, ministro não”

Agora, na entrevista à RTP, Marcelo disse, afinal, que a frase “não se aplica ao ministro“, mas sim aos dirigentes que estão à frente daquele serviço. Um recuo evidente de Marcelo Rebelo de Sousa.

Ainda sobre o caso SEF, uma novidade: Marcelo anunciou que vai, a convite do Presidente ucraniano, dirigir uma mensagem de Ano Novo a todos os cidadãos daquele país.

“Quem viabiliza dois Orçamentos…”

Quanto ao futuro do Governo socialista e à estabilidade da solução à esquerda, o Presidente da República voltou a descartar um cenário de crise política num futuro próximo. “Acredito que há condições para que quem viabilizou dois Orçamentos viabilize mais dois“, disse.

Numa entrevista em que, mais uma vez, lembrou muitas vezes o facto de ser Presidente da República para evitar comentar muitas questões concretas, Marcelo Rebelo de Sousa abriu uma exceção para comentar os eventuais planos passados, presentes e futuros de António Costa. Num comentário que teve tanto de análise política como de aviso à navegação socialista:

No fundo, em nenhuma situação senti que [o primeiro-ministro] queria ir para eleições antecipadas. Há sempre a tentação… Mas o primeiro-ministro é muito institucional e sabe que avançar para eleições por iniciativa do próprio Governo é um risco enorme para o próprio Governo.”

Já em relação ao Chega e a uma possível maioria de direita, o candidato foi, mais uma vez, cristalino: não cabe ao Presidente da República perorar sobre a legalidade ou não do partido de André Ventura, o Presidente da República não se move por estados de alma quando tem de decidir ou não dar posse a um determinado Governo e o combate ao Chega deve ser feito no plano político. “A melhor maneira é lutar por ideais, não é a interdição de secretaria“, rematou.