Se no debate de sábado, frente a Marisa Matias, Marcelo queria piscar o olho ao eleitorado da esquerda, no debate desta noite frente a Tiago Mayan Gonçalves, Marcelo quis distinguir-se. Distinguir, primeiro, a direita social da direita liberal, do “sonho e da utopia”, que vota contra os estados de emergência mas, na hora H, quando é chamada a governar noutros países, acaba a aprovar as mesmas restrições; e distinguir, depois, a (in)experiência de um da experiência de “20 anos no terreno” do outro.

Mas o adversário que tinha pela frente, apesar de menos experiente, não se ficou e deu luta. Tiago Mayan Gonçalves pôs o dedo em todas as feridas, acusou Marcelo de passar “cheques em branco” ao Governo e de ter “falhado” enquanto PR. Obrigou-o a ir a jogo. “O que move o senhor Presidente é a sua popularidade. É isso que o põe sempre ao lado do Governo, exceto quando sente a sua popularidade ameaçada”, disse o candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal, dizendo que um terço dos vetos de Marcelo foram feitos no verão, altura em que sentiu a sua “popularidade em queda”.

Marcelo sentiu-se acossado e foi obrigado a responder: “O maior número dos meus vetos foi até 2019, não foi em 2020”, disse, rejeitando que se trate de uma questão de popularidade e de campanha eleitoral. E disse mais: “Se há coisa que é muito evidente para mim é que me é indiferente a popularidade: totalmente indiferente”, disse, dando o exemplo do momento em que vetou a lei do financiamento dos partidos “contra o Parlamento todo”.

Diga uma, diga uma

Tiago Mayan Gonçalves desfiava críticas a Marcelo — do “pacto de silêncio” no caso do SEF, à não recondução de Joana Marques Vidal na PGR, passando pelo facto de Marcelo ter sido “um Presidente de um Governo” –, obrigando Marcelo a jogar à defesa, até que o Presidente em exercício teve de virar o jogo e atacar: “Diga lá então o que é que teria vetado que eu não vetei?”.

Foi aí que o candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal escolheu o tema da descentralização e das eleições para as CCDR, que no seu entender foram um “simulacro de democracia”, acusando com isso o Presidente da República de representar os poderes instalados, e de ser “o candidato dos Donos Disto Tudo”, numa referência implícita a Ricardo Salgado, de quem Marcelo Rebelo de Sousa era amigo. Marcelo não respondeu.

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Marcelo Rebelo de Sousa: Deixe-me interromper, que lei vetaria que eu não vetei?

Tiago Mayan Gonçalves: Oh Senhor Presidente..

Marcelo Rebelo de Sousa: Que lei vetaria? Deve ter pensado nisso. Se tem uma divergência tão radical, se eu fui porta-voz do Governo e vetei dezenas de leis do Governo, deve ter escolhido duas ou três matérias que pensou ‘eu teria vetado’.

Tiago Mayan Gonçalves: Aquele simulacro de democracia que foram as eleições para as Comissões de Coordenação de Desenvolvimento Regional, por exemplo…

Marcelo Rebelo de Sousa: Isso depende do Presidente?

Tiago Mayan Gonçalves: Essa lei, essa lei que criou aquele simulacro de democracia entre PS e PSD. Os partidos que o apoiam, PS e PSD, combinaram…

Marcelo Rebelo de Sousa: O PS não me apoia, como sabe.

Tiago Mayan Gonçalves: O senhor é o candidato dos Donos Disto Tudo.

Marcelo Rebelo de Sousa: Isso é um slogan, agora diga-me uma lei que teria vetado.

Tiago Mayan Gonçalves: Estou-lhe a dar esse exemplo. Aquilo foi um simulacro de democracia, uma ofensa.

Marcelo Rebelo de Sousa: Essa lei veio permitir a eleição do presidente das CCDR pelos autarcas, membros de assembleias e câmaras. Qual é a reserva? Acha que são todos marionetas do Governo?

Tiago Mayan Gonçalves: Ouvir o senhor falar de descentralização é risível, sinceramente.

Até aqui, Mayan estava ao ataque, apontando, caso a caso, os vários “falhanços” do mandato que agora termina. Marcelo ainda admitiria que era assim mesmo — os candidatos novos estão frescos e têm a página limpa, enquanto os recandidatos têm um mandato inteiro para ser julgados e criticados — mas depois percebeu que era altura de atacar. “Já viu que é tão vago quando se trata das suas ideias?”, atirou, puxando dos galões da sua experiência de 20 anos “no terreno” enquanto autarca em Celorico de Basto, e procurando a partir daqui — até ao fim do debate — desconstruir a “utopia” das políticas liberais.

Destruição social ou utopia liberal?

Se Mayan esteve forte ao ataque, foi na parte em que foi instado a explicar as suas ideias de política liberal (em contexto de pandemia) que Marcelo procurou somar mais pontos. Várias foram as vezes em que Marcelo se substituiu ao moderador para fazer perguntas concretas ao adversário: “Em que é que as políticas liberais ajudariam um estado num contexto de pandemia?”. Perguntava e respondia: “Todos os países mais liberais, quando chegou a pandemia, o que fizeram foi injetar dinheiro na economia, nas políticas sociais. Como é que se resolve a pobreza e a crise sem políticas sociais? Acha que a mera liberdade económica resolve a pobreza?”, questionou.

Mas Tiago Mayan não desarmava e apostava tudo na crítica aos decretos do estado de emergência de Marcelo, que, na sua opinião, estão a ser responsáveis pela “destruição social” do país. O debate foi ideologia fora, com Marcelo a insistir na ideia de que sem estado de emergência tudo tinha sido pior. “É muito fácil avançar com ideias do estado liberal, o sonho, a utopia, e depois votar contra o estado de emergência. Os países que eram contra o estado de emergência acabaram todos a adotá-lo”, disse.

Nota: No momento Presidente do debate (há sempre um momento em que Marcelo parece não despir o fato), o Presidente da República mostrou-se preocupado com a evolução da pandemia em Portugal, devido à nova variante vinda do Reino Unido, e devido ao “laxismo” que considera ter havido no período das festas. Voltou a dizer que vai renovar o estado de emergência por 8 dias para depois se fazer uma análise mais fina dos números em relação ao Natal e Ano Novo e, aí sim, voltar a definir novas medidas para o mês seguinte. Mais confinamentos à vista? Marcelo espera que não, mas é preciso ouvir os peritos.