A esmagadora maioria dos cargos de administração e fiscalização de grandes empresas em Portugal continua a ser ocupada por homens, cerca de 85%. A percentagem indicada no mais recente estudo da consultora Mercer revela  que nas empresas cotadas na bolsa, o peso das mulheres nos órgãos de gestão varia entre 20% e os 30%, ainda abaixo da meta definida na lei de 2017. Segundo esta legislação, as empresas com o capital disperso em bolsa deveriam assegurar que um terço dos cargos de administração e fiscalização era ocupado por mulheres a partir de 2020.

“De referir que a proporção de pessoas de cada sexo designadas para cada órgão de administração e de fiscalização de cada empresa não pode ser inferior a 33,3 %. Esta regra aplica-se a partir de 1 de janeiro de 2018 para organizações do setor público empresarial e a partir de 1 de janeiro de 2020 para empresas cotadas em bolsa”. O comunicado que divulga os resultados do estudo sobre a remuneração de executivos de topo — o estudo não foi divulgado — refere que participaram neste levantamento 55 organizações, dos quais oito são empresas que fazem parte do índice PSI 20 da bolsa de Lisboa.

Outra das conclusões refere que os presidentes executivos ganham em média 10 vezes mais do que a média dos colaboradores da mesma empresa, isto contando apenas com a remuneração fixa (sem incluir prémios de gestão). A distância entre o mais bem pago e a média dos trabalhadores (da qual se exclui os restantes membros da administração) será ainda mais elevada, quando consideramos a remuneração variável que no caso dos gestores executivos chega a representar 45% do valor fixo. Já para os colaboradores, a componente variável não representa, em média, mais do que 13% da respetiva remuneração fixa.

Segundo Tiago Borges, Career Business Leader da Mercer, “esta informação ganha especial relevância após a aprovação da Lei n.º 50/2020, que define que deve ser apresentada pelas empresas cotadas a informação da remuneração média de trabalhadores a tempo inteiro (excluindo os membros dos órgãos de administração e de fiscalização) de modo a permitir a sua comparação.”

De acordo com a lei de 2017, as empresas estão obrigadas a cumprir as orientações dadas pelos reguladores onde é definida a proporção das pessoas de cada sexo designadas em por causa das suas competências, aptidões, experiência e qualificações para os órgãos de administração e de fiscalização do setor público empresarial e das empresas cotadas em bolsa.

Apesar dos casos mediáticos de Cláudia Azevedo — presidente executiva da Sonae desde 2017 — e de Paula Amorim — presidente não executiva da Galp desde 2016, mas que foi substituída pela irmã Marta em 2020 — as mulheres continuam a estar subrepresentadas nos papéis de liderança, não obstante a Mercer destacar que se verificou um ligeiro aumento face ao estudo relativo a 2017.

Mulheres ao poder. Sucessão familiar, mérito ou quotas?

E com os cargos mais importantes vêm também os cheques salariais mais generosos. De acordo com o estudo da consultora sobre a remuneração de executivos de topo, a remuneração fixa dos homens é 20% superior à das mulheres que ocupam cargos comparáveis. O gap salarial ainda é mais elevado quando se contabiliza a remuneração variável, salta para 30%, o que reflete também a realidade que os membros femininos das administrações estão mais presentes em cargos não executivos onde não há o pagamento de bónus.

O comunicado divulgado pela consultora de recursos humanos destaca ainda uma maior utilização de indicadores de Performance ligados a fatores ambientais, sociais ou de governance (ESG) que apesar de não ser prática comum no mercado nacional são uma realidade cada vez mais presente a nível europeu.

“A inclusão de indicadores de avaliação de performance ligados a fatores ambientais, sociais ou de governance (ESG) têm ganho relevância por toda a Europa, em alguns casos como resposta à pressão cada vez maior por parte dos investidores e acionistas para introdução deste tipo de indicadores.”, refere o presidente executivo da Mercer, Diogo Alarcão.