Não é um episódio de “A Coroa” (The Crown), a série que Vitorino Silva citou para se comparar indiretamente à rainha de Inglaterra — “que não tem nem o nono ano” –, mas a dada altura parecia. É que além da referência final de Vitorino Silva (Tino) à rainha que está há 70 anos no poder sem elevados graus académicos, também Ana Gomes comparou Tino ao conhecido slogan de Margaret Thatcher “TINA” (There Is No Alternative), para dizer que entre um e outro, prefere Tino. Foi assim o debate desta noite entre Vitorino Silva e Ana Gomes, ambos com raízes socialistas: uma conversa amigável entre velhos conhecidos, repleta de sorrisos e acenos de concordância.

Só a geringonça fez divergir os velhos amigos. Enquanto Vitorino Silva criticava António Costa pela geringonça dizendo, contudo, que ele fez com a geringonça o mesmo que a direita faria se estivesse no seu lugar, o que viria a confirmar-se nos Açores, mostrando que “é tudo farelo do mesmo saco”, Ana Gomes acreditou na geringonça “desde o primeiro momento”. E explicou porquê (é aí que entra Margaret Thatcher). É que a geringonça provou que, afinal, havia alternativa às políticas austeritárias. “Estávamos no tempo da ditadura da TINA (There Is No Alternative), e eu acredito mais no Tino. Na TINA não acredito”, disse.

Já Tino, não só acredita em si como quem todas as Tinas. “Eu quero o voto de todas as Tinas, não só dos Tinos”, brincou. Não foi um desacordo, foi mais uma brincadeira construída a quatro mãos. Num plano mais sério, Ana Gomes aproveitaria o balanço da TINA para defender que “não podemos continuar com empregos de baixos salários”, e, em oposição, defendeu uma boa utilização dos fundos europeus para tirar o país “da cepa torta”, uma boa gestão de proximidade através da descentralização de competências e responsabilidades, e uma melhor utilização dos dinheiros públicos, que, no seu entender, passa também por uma reforma fiscal. “Hoje há muita gente que não paga impostos em Portugal”, disse, referindo-se às grandes multinacionais e às “famílias mais ricas” que têm dinheiros em offshores.

Vitorino Silva não discordou (“o problema é o dinheiro que é mal gasto”), disse que também descentralizava se fosse Presidente (“mudava o Palácio de Belém para Mogadouro”), e passaria depois para as alterações climáticas e o combate à violência doméstica, um tema que chamaria a si se tivesse “metade do palco” que a interlocutora tem. Ana Gomes agarrou e, uma vez mais, concordou: “O combate à violência domestica, machista e patriarcal, e a paridade, seria uma das minhas bandeiras enquanto Presidente”, sobretudo por ser uma Presidente do sexo feminino.

O mote amigável tinha sido lançado logo nos primeiros minutos do debate quando Vitorino Silva, calceteiro de profissão, defendeu que quem, como ele, “trabalha o ano inteiro”, sabe que janeiro é um mês muito frio, e que o frio, a par da pandemia, vai ser inibidor da saída das pessoas para ir votar — sobretudo pessoas mais velhas. Daí que Vitorino Silva defenda que as eleições deviam ter sido adiadas. “Se o adversário é a abstenção, porque marcaram as eleições para janeiro?”, atirou.

Ana Gomes sorriu e concordou. “Essa questão podia ter-se colocado antes, até porque o anúncio da data das eleições foi tardio”, começou a dizer a ex-eurodeputada socialista. Seguiu-se o tema das vacinas, a que Tino de Rans respondeu que “não tem medo da vacina” contra a Covid-19 e, mais, que a pandemia (e o uso de máscara) serviu para provar que as pessoas reconheciam a sua voz na rua. “As minhas assinaturas foram conseguidas pela força da minha voz”, disse, mostrando que podia ter desistido da candidatura por ser difícil ir para a rua recolher assinaturas num contexto como este, mas não o fez. A declaração valeu mais um aplauso, e um desabafo, da suposta adversária: “Tenho pena que o Vitorino tenha saído do PS porque é um lutador pela democracia”.

Depois da TINA e de tanta cordialidade, haveria ainda tempo para, no fim, Vitorino Silva perguntar a Ana Gomes se tinha visto “a série inglesa ‘A Coroa'”. Ana Gomes não viu, mas o candidato partilhou mesmo assim a sua estupefação: “A rainha de Inglaterra está há 70 anos no poder, não tem o nono ano, não tem o sexto, foi mecânica na II Guerra Mundial…”. A cereja no topo do bolo seria “em Portugal haver um Presidente da República calceteiro”. Tino, calceteiro, está pela segunda vez a tentar a sua sorte.