“A Mulher que Fugiu”

No novo filme de Hong Sang-soo, uma mulher, Gamhee, aproveita a ausência do marido em viagem de negócios para ir visitar três amigas em Seul e arredores, e conversar sobre a vidinha. Durante cada uma dessas visitas, dão-se pequenos incidentes com terceiros. “A Mulher que Fugiu” é mais um naco de cinema ultra-minimalista e palrador de Sang-soo, o cineasta sul-coreano que está mais próximo  de um certo “autorismo” europeu, mais especificamente francês. É tudo tão elíptico (a começar pelo título), tão omisso e escrito nas entrelinhas, que precisamos de um estetoscópio para captarmos os batimentos das emoções das personagens, de um microscópio para vermos o que se passa entre elas e de um detetive particular para investigar o que Sang-soo pretende dizer. Há quem o eleve às nuvens, eu continuo um cético. Juntamente com a estreia de “A Mulher que Fugiu”, podem ser vistos três filmes anteriores do realizador, “O Dia em que Ele Chega” (2011), “O Filme de Oki” (2010) e “Mulher na Praia” (2007).

“Missão: Vingança”

Um adolescente rico, mimado e prepotente que vive numa mansão com a avó doente, envia um assassino profissional para matar o Pai Natal, depois dele lhe ter deixado um pedaço de carvão no sapatinho, exigindo ainda que o executor lhe traga a cabeça do bom velhinho. Entretanto, o dito Pai Natal (Mel Gibson) e a sua fábrica de brinquedos, que são apoiados pelo Estado americano, estão em perigo de falir, porque as crianças acreditam cada vez menos nele (até o alvejam a tiro quando anda a voar  no trenó de um lado para o outro a entregar os presentes), e está prestes a ter que aceitar uma lucrativa oferta do governo para reconverter o negócio e pôr os elfos a fabricar material militar. Esta infelicíssima, grosseira, azeda e estupidamente violenta pseudo-comédia negra e satírica, vai direitinha para o rol dos piores filmes natalícios de sempre. E os seus dois realizadores e argumentistas, Esholm e Ian Nelms, entram de cabeça para o topo da lista negra do Pai Natal.

“Pieces of a Woman”

No primeiro filme em língua inglesa do húngaro Kórnel Mundruczó (“Deus Branco”, “A Lua de Júpiter”), uma jovem, Martha (Vanessa Kirby), que insistiu em ter um parto caseiro, acaba por perder o bebé, que morre de asfixia, perante o desespero e a impotência do pai, Sean (Shia LaBoeuf) e da parteira (Molly Parker) que veio substituir, à última hora, a que tinha sido contratada pelo casal, e acaba em tribunal. Vanessa Kirby foi premiada como Melhor Atriz no Festival de Veneza pela sua interpretação nesta fita estreada na Netflix, onde as águas da tragédia fluem sempre subterraneamente e quase sem se fazerem ouvir, ao invés de jorrarem aberta e desgovernadamente para a superfície; e praticamente tudo o que respeita ao estado interior das personagens e às relações entre elas é transmitido pelo realizador de forma simbólica, indirecta, alusiva ou sintética. Também com Ellen Burstyn no papel da abastada, metediça e recriminadora mãe de Martha. “Pieces of a Woman” é o filme da semana para o Observador, pode ler a crítica aqui.