Há treze anos que aquela era a rotina de Brian D. Sicknick. Desde que entrou na Polícia do Capitólio, assumiu a missão de proteger os congressistas norte-americanos e garantir a ordem pública do Distrito de Colúmbia. Há pouco tempo, tinha sido promovido à Unidade de Socorristas daquela força. Estava de serviço a 6 de janeiro, mas não fazia parte do aparato policial junto ao Capitólio  — um aparato que, afinal, não era suficiente para enfrentar os eventos de violência extrema que eclodiram durante a tarde.

Às 13h locais, enquanto o Congresso confirmava a eleição que nomeou Joe Biden para presidente dos Estados Unidos, a ordem pública foi perturbada. Depois de uma intervenção do presidente cessante na manifestação “Stop The Steal”, milhares de apoiantes de Donald Trump invadiram o Capitólio e fizeram daquele dia “o mais negro desde o 11 de setembro” na América, descreveram as forças policiais ouvidas pela NBC News. Sicknick, um apoiante de Trump, foi um dos agentes convocados para responder ao ataque. Eram 14h30 quando chegou ao Capitólio.

Mas nem o equipamento de intervenção que envergava bastaram para evitar que sucumbisse aos ferimentos que sofreu quando, às 15h, manifestantes e polícias entraram em combate. Sicknick foi atingido com um extintor de incêndio por um dos invasores e foi capaz de regressar à esquadra, mas perdeu a consciência. Foi então levado para um hospital, onde permaneceu até ao dia seguinte e onde veio a morrer, às 21h30 de quinta-feira, possivelmente na sequência do rompimento de um coágulo provocado pelo impacto na cabeça.

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O irmão de Brian Sicknick enviou uma mensagem à ABC News que pede privacidade no luto pelo polícia: “Depois de um dia a lutar pela vida, ele faleceu como um herói. Gostaria de agradecer a todos os seus irmãos e irmãs de batalha pela incrível compaixão e apoio que demonstraram à minha família. A minha família e eu esperamos que a nossa privacidade pode ser respeitado enquanto sofremos”, pode ler-se na notícia. Sicknick era casado e não consta que tivesse filhos.

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Ainda antes de ingressar na Polícia do Capitólio, Brian D. Sicknick era militar: nascido em 1973, serviu na Guerra do Golfo e depois na Operação Liberdade Duradoura (a resposta dos Estados Unidos ao ataque do 11 de setembro). Segundo o site noticioso Heavy, em 2000, Sicknick enviou uma carta ao editor do Central New Jersey Home News, um jornal da sua cidade natal, que apelava aos empregadores da região para facilitar os funcionários que fossem chamados para servir o país: “Com a redução drástica do efetivo militar, a Guarda Nacional e as Reservas são chamadas mais do que nunca”, justificou.

“Eu entendo que isto pode causar dificuldades aos empregadores”, ressalvou, “mas precisam de começar a perceber que os reservistas representam mais de 50% dos militares”: “Têm que começar a dar a esses homens e mulheres alguma folga. Para manter as liberdades de que tanto gostamos, devemos contar com os reservistas“, apelou Sicknick. Numa outra carta, publicada um ano mais tarde, o então militar revelou como se apercebeu da falta de assistência governamental aos combatentes quando esteve 45 dias no Médio Oriente em 1999.

“De acordo com uma lei um tanto ambígua, os membros da Guarda Nacional de Nova Jérsia devem receber o salário integral dos empregadores estaduais, municipais ou municipais até 90 dias após o destacamento. O meu empregador, que se enquadra nesta categoria, optou por pagar a diferença entre o meu salário militar e meu salário normal”, denunciou. Quando pediu ajuda ao Departamento de Assuntos Militares e à Procuradoria Geral da República, não a obteve.

Sicknick relata como levou o caso à justiça mas, num ato que interpretou como de retaliação, acabou por não ser chamado para um segundo contrato na Guarda Nacional. “Não vou mais arriscar a minha vida em ambientes hostis ao redor do planeta por um governo que não se importa com as tropas. Sinto que tive um problema simples que o governo poderia ter resolvido facilmente”, desabafou. Noutra carta enviada em 2003, depois de ter considerado a guerra no Iraque “justificável” e de argumentar que a perda de vidas inocentes “faz parte da guerra”, defendeu que a Operação Liberdade Duradoura era “desnecessária”.

“Existem outros grandes problemas a acontecer neste país, não há espaço para políticas abertamente partidárias”, afirmou, apontando o dedo à administração de George W. Bush por ter “as mãos firmemente agarradas aos cordões de marionetas dos senadores conservadores”. “Acredito que devemos ter uma mudança de regime aqui na América. É hora de expulsar os hacks do petróleo arrogantes que ocupam a Casa Branca”, defendeu.

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Águias, bandeiras e aviões: quem era Sicknick nas redes sociais

A veia patriótica de Sicknick transparecia também no seu mural de Facebook. A imagem de perfil que mantinha na página mostra a bandeira dos Estados Unidos da América içada num panorama de montanhas e florestas sob o por do sol. A “Velha Glória”, uma das alcunhas atribuídas à bandeira, surge novamente na foto de capa do Facebook; e outras publicações incluem também uma fotografia do Memorial a Lincoln coroado por caças norte-americanos no Dia da Independência dos Estados Unidos em 2019.

No Twitter, numa conta que foi entretanto sinalizada por ter sido detetada uma “atividade incomum”, Sicknick apresentava-se com a fotografia de uma água de cabeça branca à frente da bandeira norte-americana; e, na imagem de capa, com uma fotografia do Boeing 757 privado de Donald Trump. Neste momento, o mural não apresenta qualquer tweet e tem apenas 28 seguidores, alguns dos quais jornalistas norte-americanos que estão a cobrir o ataque ao Capitólio.