À saída da reunião com o ministro do Ambiente e Ação Climática, os sindicatos representativos dos trabalhadores da refinaria de Matosinhos, que vai encerrar este ano, lamentaram a falta de soluções e consideraram que as respostas que receberam “não são nada animadoras”. Do outro lado, João Pedro Matos Fernandes disse “estranhar” que a administração da Galp ainda não tenha reunido com os trabalhadores para falar sobre a situação e assegurou que os colaboradores “vão ser requalificados” através do Fundo para a Transição Justa.

A reunião desta sexta-feira com as três principais associações sindicais que representam os trabalhadores da refinaria foi realizada a pedido do próprio ministro para fazer um ponto de situação. Telmo Silva, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energias e Atividades do Ambiente (Site-Norte), lamenta que as respostas e soluções propostas não sejam as esperadas. “O que nós retiramos daqui é que o ministro do Ambiente admite que a transição energética vai promover desemprego, vai destruir postos de trabalho e que as pessoas vão ter que se adaptar. Mas não dá soluções“, referiu aos jornalistas.

O dirigente sindical considera que o Governo, “como segundo maior acionista da Galp”, tem de ter responsabilidades quanto à decisão do encerramento da refinaria e alerta para as consequências deste fecho, como “o aumento das importações” de produtos aromáticos, lubrificantes, óleos base e asfalto — produtos únicos produzidos nesta refinaria. “Não há nenhuma solução às questões que colocamos. A solução que ele [Matos Fernandes] dá é que é assim. É a transição energética, vai acontecer, é inevitável. E vai ser muito mais acelerado do que nós pensamos. A destruição vai ser mais rápida do que nós achamos”, referiu ainda Telmo Silva. Também Rui Pedro Ferreira, do Sindicato da Indústria e Comércio Petrolífero (Sicop), considera que “as respostas não são nada animadoras” e critica a ausência de um estudo macroeconómico sobre o encerramento desta refinaria.

Para os sindicatos, a transição energética deve ser “gradual e não uma destruição” dos postos de trabalho, sublinhando que a própria transferência da produção do Porto para Sines “em termos ambientais não vai trazer grandes ganhos para o país”. Presente na reunião esteve também um representante do centro de emprego que, segundo Telmo Silva, apresentou um “plano formativo a reinserção no mercado de trabalho”.

Já sobre a posição da administração da Galp, Telmo Silva volta a acusar a empresa de não ouvir os trabalhadores nem dar qualquer resposta quanto ao seu futuro: “A administração da Galp não diz nada. Atua como um Estado dentro do próprio Estado. O que sabemos, de forma informal, é que em junho/julho a refinaria vai estar parada na sua totalidade. Tudo parado. A partir daí, os nossos postos de trabalho estão em risco”. Em causa, de acordo com os sindicatos, estão 1.500 postos de trabalho — 500 afetos à Petrogal e cerca de mil prestadores de serviços.

Os sindicatos mantém agendada para o dia 12 de janeiro uma concentração dos trabalhadores, que vão partir da refinaria de Matosinhos para a Câmara Municipal de Matosinhos. “Vamos levar a luta da Petrogal e da permanência dos postos de trabalho até onde tivermos que levar”, asseguram.

Galp. Trabalhadores de Matosinhos protestam a 12 de janeiro contra encerramento da refinaria

“Queremos muito que Portugal venha a ter uma refinaria de lítio”

Da reunião com os sindicatos, João Pedro Matos Fernandes admitiu que houve uma informação que causou estranheza: “Não houve ainda nenhuma reunião com o Conselho de Administração da própria empresa, o que nos parece estranho e não é uma boa notícia”, referiu aos jornalistas. O ministro do Ambiente sublinhou ainda que foi explicado durante o encontro quais os mecanismos para a transição justa e que estes trabalhadores “vão ter de ser requalificados”.

O Fundo para a Transição Justa existe para formar os trabalhadores e dar-lhes novas competências profissionais, existe para fazer desenvolver negócios de largo espectro, mas concentrados no território e que, naturalmente, o Governo de tudo fará para que esses negócios sejam essencialmente ligados à energia e exclusivamente às energias renováveis”, acrescentou Matos Fernandes.

Em Portugal, refere o ministro, “já foram criados 9.000 empregos líquidos com o desenvolvimento das energias renováveis”. Com o encerramento desta refinaria, admite, “o posto de trabalho concreto que as pessoas têm hoje vai ser perdido”, mas o Governo tem duas garantias: “Por um lado, um fortíssimo empenho em criar novos negócios para que venham a absorver esta mesma mão de obra e, em segundo lugar fazê-lo não só com projetos no setor, mas com projetos concretos neste território financiados através do fundo para a transição justa”.

Questionado sobre o futuro dos terrenos ocupados por esta refinaria, Matos Fernandes volta a reforçar que este caso corresponde a uma empresa privada que encerra e que, por isso, é a Galp quem tem de ter respostas. No entanto, o Governo “vai acompanhar” a situação. “Não estamos aqui a discutir o encerramento de uma empresa. Estamos aqui a dizer que há um caminho para a descarbonização, que Portugal tem um compromisso para ter cada vez menos emissões e que, por isso mesmo, é de admitir que este tipo de fenómenos vá acontecendo em Portugal e na Europa fora”, explicou o ministro, assegurando que “ser neutro em carbono é bom para a economia, cria emprego e obriga a investimento”.

Quanto à possibilidade de se tornar esta refinaria numa refinaria de lítio — uma hipótese já negada pela própria Galp –, Matos Fernandes referiu apenas uma vontade: “Portugal tem uma estratégia para o lítio que não é de mineração. Tem cinco passos: aproveitar minerando o metal, refinando esse metal, criando condições para a produção de células e depois de baterias e reciclar o próprio lítio. Queremos muito que Portugal venha a ter uma refinaria de lítio. Há municípios que até há pouco tempo tornaram público que estão interessados em receber essa refinaria. Nenhum deles é Matosinhos”, assegurou, salientando que uma parte será para a logística e distribuição de combustíveis.

A 21 de dezembro do ano passado, a Galp anunciou o encerramento da atividade de refinação em Matosinhos e a concentração das suas operações de refinação e desenvolvimentos futuros no complexo de Sines. O motivo deste fecho, referiu a empresa em comunicado, é a consequência de dois fatores combinados: a queda da procura provada pela pandemia e a aceleração para a transição energética, o que fará com que o consumo de produtos refinados não volte ao nível pré-Covid com a retoma económica.